Não há solução para o nuclear

Sessão decorreu no Centro Cultural do Cartaxo

Pedro Guilherme, Raquel Montón, Pedro Ribeiro, José Louza, Maria Helena Almeida, Paulo Constantino, Nuno Sequeira e Pedro Soares

 

Alertar consciências para um problema latente ‘mesmo aqui ao lado’ foi o objetivo da Eco-Cartaxo, em parceria com a Câmara Municipal, com a realização da sessão de esclarecimento “Almaraz: sabe o que fazer em caso de acidente nuclear?”, que se realizou no sábado à tarde, no Centro Cultural do Cartaxo.

Apesar de a tarde estar bastante convidativa para atividades ao ar livre, cerca de 70 pessoas dispensaram um pouco do seu tempo para ficarem a conhecer um pouco melhor os problemas que o nuclear traz a esta região, mais propriamente, a Central Nuclear de Almaraz.

Fotos: Bernardino Cassiano

 

A debater este assunto esteve no Centro Cultural do Cartaxo um painel ‘de luxo’: António Eloy, do MIA – Movimento Ibérico Antinuclear, Raquel Montón, coordenadora do Greenpeace Espanha, Pedro Guilherme, biólogo da Eco-Cartaxo, Pedro Soares, presidente da Comissão Parlamentar de Ambiente, Paulo Constantino, da proTejo, Maria Helena Almeida, médica de Saúde Pública, Nuno Sequeira, da Quercus e Pedro Ribeiro, presidente da Câmara do Cartaxo.

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Situada junto ao Tejo, é dele que a Central de Almaraz extrai as águas necessárias ao arrefecimento dos reatores, e é para lá que as despeja no final do processo, o que origina que a radioatividade fique retida na bacia do rio, como realçou o biólogo Pedro Guilherme, acrescentando que a deposição dos resíduos radioativos não fica nos sedimentos, mas sim nas árvores e culturas em torno do rio, o que altera o que comemos. Por isso, “o objetivo desta sessão é alarmar”, disse.

Para António Eloy, “o nuclear é contra a democracia”, dado todo o secretismo que envolve. Realçando que os maiores especialistas do nuclear na Península Ibérica são, hoje, ativistas contra este tipo de alternativa energética, António Eloy lembrou que nem o Conselho de Segurança Nuclear espanhol e os técnicos conseguem chegar a acordo, existindo três relatórios que defendem que a administração da Central de Almaraz mente e que os técnicos têm conhecimento de deficiências graves no funcionamento da central. Isto, segundo António Eloy, só se explica pelos gigantescos interesses económicos que gravitam em torno desta central, nomeadamente das três elétricas detentoras do seu capital e do próprio município, que recebe delas rendas astronómicas.

António Eloy defendeu, igualmente, que o encerramento da Central de Almaraz vai causar desemprego zero, uma vez que os trabalhadores continuarão a ser necessários por largas dezenas de anos, para procederem ao seu desmantelamento. Por isso, Nuno Sequeira, da Quercus, defende que a Central Nuclear de Almaraz “tem de ser encerrada, no máximo, em 2020. A decisão tem de ser tomada agora, porque o desmantelamento vai demorar dezenas de anos”.

E o desmantelamento das centrais nucleares é um dos problemas fundamentais, a par de potenciais acidentes, como frisou a coordenadora da Greenpeace Espanha, Raquel Montón. Se já todos conhecemos minimamente os resultados das alterações genéticas causadas por um acidente nuclear, as consequências nocivas dos resíduos radioativos são maioritariamente desconhecidas, embora se saiba que estes resíduos são bastante perigosos.

Além disso, com o estender das licenças de funcionamento das centrais nucleares, a possibilidade de acontecerem acidentes aumenta consideravelmente, sendo que, segundo números da Greenpeace, os acidentes nucleares graves podem acontecer a cada dez, 12 anos. “Sabemos quando começa um acidente nuclear, não sabemos quando acaba”, salientou Raquel Montón.

A propósito de saúde pública, a médica Maria Helena Almeida salientou que está cientificamente provado que a radiação é nociva para a saúde, sobretudo os raios Gama. No entanto, os efeitos que as radiações têm na saúde “são mais difíceis de quantificar”, até porque muitos dos problemas vão surgindo ao longo do tempo e torna-se difícil estabelecer uma ligação direta. Em termos de recomendações para a existência de um acidente nuclear, o que existe é a recomendação de administração de pastilhas de iodo, já que a radiação ataca forte e quase imediatamente a tiróide.

O presidente da Comissão Parlamentar de Ambiente, o deputado Pedro Soares, revelou que as três elétricas que detêm o capital de Almaraz não quiseram vir ao parlamento português e acusou o governo espanhol de não querer dialogar, ao mesmo tempo que disse que o governo português desvalorizou a questão da construção de um armazém de resíduos nucleares em Almaraz numa fase inicial, dando margem de manobra a Espanha para avançar com o processo.

Pedro Soares considerou que este “é um processo difícil e prolongado, mas tem de contar com uma forte mobilização da opinião pública”. Até porque estamos em vésperas da realização da Cimeira Ibérica, que vai ter lugar em maio, em Vila Real, e este assunto “é obrigatório, tem de ser colocado na agenda”, apesar de o deputado estar convicto que Espanha o vai tentar evitar a todo o custo.

Para além de todas estas questões, existe, ainda, uma outra, que acabou por ser levantada por praticamente todos os oradores, mas também pelo público presente. Como é que se desmantela uma central nuclear? Para esta questão ainda não existe resposta, o que a torna um problema ainda mais grave do que a de um potencial acidente. Os reatores podem ser parados, mas ainda ninguém sabe o que fazer com os materiais radioativos existentes na cuba, continuando a haver necessidade de os arrefecer para que não entrem um fusão e, consequentemente, continuar a produzir águas contaminadas.

 

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