Não me abandones

Opinião de Raquel Marques Rodrigues

Não consigo pregar olho. São duas da manhã e o dia foi longo. Ouço uma notícia que inquietou as minhas vísceras e o meu coração. Morrem 31 idosos abandonados. Um verdadeiro escândalo na residência Herron, um asilo particular para idosos situada no Canadá.

Não consigo calar a minha mente e tenho de manifestar a minha indignação perante este acto cruel. É um autêntico choque e um insulto à nossa consciência cívica e à sensibilidade humana saber que vivemos numa sociedade que é capaz de rejeitar, maltratar e abandonar aqueles que nos deram a vida. Será que esquecem do velho ditado: “Filhos és, Pai serás”?

De acordo com o código penal (artigo 138), colocar uma pessoa em perigo, sem defesa e assistência é considerado um crime de abandono. Todos sabemos a sua punição, mas o medo, a frieza e o egoísmo não têm preço, só têm nome: cobardia.

Nem os animais se devem abandonar e muitos ficam com a sua liberdade condicionada: com trela dentro de casa, um açaime na boca e comida quando sobra.

E os idosos? Prisioneiros a uma cadeira, fraldas fedorentas, dores sem analgésicos, estômagos vazios e corpos rastejados no chão frio são cenários  que infelizmente ocorrem no nosso país  em muitas casas de acolhimento a pessoas da terceira idade. Trata-se de pessoas indefesas, que têm a sua identidade, rosto e história de vida. O ser humano ultrapassa a sangue frio o limite do código da ética  porque a vergonha já nem existe.

Este acto de cobardia é um tipo de violência moral que cega quem lidera estas casas de repouso. Mensalidades elevadas que prometem um serviço de excelência, mas que nada paga a honra do compromisso com o outro.

Numa altura em que as visitas dos familiares aos seus idosos estão restritas a confiança é a único escudo de consolo e salvação que os técnicos podem garantir. Saber cuidar não exige só técnica, tem outros requisitos essenciais que não se aprende em nenhum manual: dedicação, empatia e amor. Este é o meu compromisso para com o outro. 

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Todos sabemos que temos de partir, é a lei da vida, mas que seja com dignidade. Morrer sem assistência médica e sanitária e sem conforto não é castigo, é pecado.

Neste momento avassalam-me muitas emoções à flor da pele, preocupações e dilemas fazem parte da minha agenda de prioridades devido à covid-19, mas de uma coisa estou convicta: nunca vos irei abandonar! 

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