“A floresta está ao abandono há vários anos, há um desordenamento total”

Os Bombeiros Municipais do Cartaxo estiveram envolvidos “em quase todas as ocorrências de maior envergadura, fora do nosso distrito"

Em conversa com o Jornal de Cá, o comandante dos Bombeiros Municipais do Cartaxo, David Lobato, fala dos “fenómenos” e das situações “excecionais” dos incêndios de junho e outubro, revelando que no concelho as coisas até correram bem.

Durante todo o verão, os Bombeiros Municipais do Cartaxo estiveram envolvidos “em quase todas as ocorrências de maior envergadura, fora do nosso distrito”, revela ao Jornal de Cá David Lobato, comandante desta corporação, acrescentando que “dentro do nosso distrito colaborámos, como tem sido apanágio desta corporação, com as zonas vizinhas: Tomar que foi uma das mais afetadas, Mação, Alcoentre, Abrantes…”. Em relação ao concelho do Cartaxo, “que ainda não fechamos a época, só fechamos no dia 31 de outubro, este ano até correu extremamente bem, felizmente”, revela o comandante, contando que “tivemos uma ocorrência um pouco maior, em que arderam 12 hectares, mais coisa menos coisa, na zona dos Cabeços de Ferreiros, mas teve uma resposta rápida. Temos tido a capacidade de resolver as coisas no primeiro momento, enquanto é pequenino, porque os incêndios resolvem-se é quando são pequeninos”.

A floresta está ao abandono há vários anos, há um desordenamento total, constroem-se casas onde não se devia construir.

O comandante, excetuando Pedrogão, em que esteve de férias, esteve presente em quase todo o lado. “Eu e os meus homens estivemos desde o Alijó, em Vila Real, até cá abaixo. Andamos por todo lado, este ano só não fomos a Viana do Castelo”. Em outubro, “estivemos na Sertã a proteger uma aldeia com 50 casas e eu tinha quatro carros! E agora como é que eu faço, sou eu que escolho salvar esta casa e não salvar aquela?”, questiona-se o comandante, afirmando que “a preocupação dos bombeiros é salvar as pessoas e os seus bens, as suas casas, e enquanto a nossa prioridade é esta tudo o resto é para esquecer. Se eu tenho que me preocupar com uma aldeia não me vou preocupar com a linha de fogo. E a linha de fogo não me ataca num primeiro momento, porque consigo desviá-la, mas ela depois continua, porque não existem faixas de descontinuidade, não existem mosaicos, se aquilo que está escrito nos planos de defesa floresta não é cumprido é impossível. Não há dispositivo nenhum no mundo que valha nestas condições”. O comandante conta que neste combate, como em tantos outros, “nós tínhamos o mato, o feno e os eucaliptos à beira das casas”, lamentando a falta de formação das pessoas, assim como a falta de fiscalização. “A floresta está ao abandono há vários anos, há um desordenamento total, constroem-se casas onde não se devia construir”, acrescenta.

As condições climatéricas, excecionais, nos incêndios de Pedrogão e agora em outubro, são apontadas como uma das grandes causas para o que aconteceu. “Estávamos no domingo com 87 por cento de seca extrema, severa, depois tivemos toda aquela zona ali da costa que foi afetada pelos ventos do furacão Ofélia – ventos de sul aquecidos – condição propícia para os incêndios andarem e andarem. Eu ouvi relatos de outros bombeiros a contar que viram caixotes do lixo a voar…”, conta David Lobato, constatando que “em 2005 o que ardeu numa semana ardeu no domingo [15 de outubro] em doze horas. Estamos a falar de fenómenos!”

É urgente a criação das faixas, a criação de mosaicos, plantação de outras árvores que não sejam combustíveis, como os carvalhos, por exemplo… Estamos a falar de uma reestruturação que já devia ter acontecido em 2003.

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“O dispositivo tem de ser alterado, temos de meter mais gente e temos que nos esquecer desta historia das épocas”, afirma o comandante, lembrando que o período crítico deixou de ter lógica com toda a alteração, que temos vindo a assistir, das estações do ano. Tal como se viu, “reduziram-se os meios e aí a proteção civil errou, não sei se teve a ver com verbas se não…” Por outro lado, e reconhecendo que “há coisas que não se conseguem resolver num ano”, outras há que se podem fazer “e que são mais urgentes”. “O interface urbano tem de ser limpo”, reclama, considerando que “não podemos ter quintais cheios de feno, pinhal junto à nossa porta, porque senão a preocupação do combate, que é salvaguardar pessoas e bens, não me permite preocupar com a floresta e assim a floresta vai ardendo. Eu salvo um aglomerado de população, mas mais à frente há outro e outro e vai sendo sempre assim”. Daí que seja imprescindível, de acordo com o comandante, “manter os aglomerados urbanos limpos e se no início do verão fiscalizarem e estiver tudo limpo, sem mato para arder ali, já nos podemos preocupar com a frente do incêndio e ficarmos mais descansados, porque aquele aglomerado urbano não vai arder”. Agora, como as coisas estão, lamenta, “nós deixamos arder as frentes de fogo porque o nosso enfoque está nas populações”.

A demissão da ministra acabou por acontecer, depois dos incêndios daquele domingo quente de outubro, sabendo-se que já nos incêndios de Pedrogão a mesma teria apresentado a sua demissão, sendo convencida pelo primeiro-ministro a ficar. “Pessoalmente, acho que a ministra demitir-se, ou não, não vai afetar em nada naquilo que já aconteceu: as pessoas que morreram, morreram”, refere o comandante que não vê o que se possa ganhar com isso. “Se é uma assunção da responsabilidade, visto ela ter aquela pasta, acredito que esteja marcada, agora se dessa demissão vai surtir algum efeito ou não…”, duvida o comandante. O verdadeiro problema, diz, “é estrutural que, se calhar, nem daqui a 20 anos vamos conseguir resolver, porque temos um problema de floresta. O problema climatérico não vamos conseguir resolver de certeza porque cada vez vai ser pior”.

Houve erros, não tenho a dúvida de que houve, mas não me parece que sejam os bombeiros ou a proteção civil os principais culpados.

Para David Lobato é urgente “a criação das faixas, a criação de mosaicos, plantação de outras árvores que não sejam combustíveis, como os carvalhos, por exemplo… Estamos a falar de uma reestruturação que já devia ter acontecido em 2003”, acredita o comandante, recordando que, também nessa altura, o ataque foi feito ao combate, porque “é quem está sempre no fim da linha”. “E eu não estou a dizer com isto que nós não temos falhas, porque nós também falhamos”, reconhece, justificando que “os incêndios são dinâmicos, não estão fechados num quadradinho onde eu chego ali e resolvo. Um incêndio tem várias condicionantes: a geografia, os terrenos, a temperatura, a humidade, o vento, se é de noite se é de dia, se temos pessoas ou se não há lá ninguém… São não sei quantas variáveis e só no momento é que se podem tomar decisões e, às vezes, as decisões podem não ser as mais corretas”, tendo em conta que estas variáveis condicionam o desenrolar da situação. “Os relatórios são muito fáceis de fazer, é muito fácil opinar no fim daquilo ter ardido, é muito fácil chegar lá e apontar o dedo àquele ou ao outro. Houve erros, não tenho a dúvida de que houve, mas não me parece que sejam os bombeiros ou a proteção civil os principais culpados”, reclama, referindo-se, nomeadamente, ao relatório de Pedrogão “que fala e bate só na proteção civil e bate só nos bombeiros, porque uns são amadores, etc. Agora pergunto: onde é que está a prevenção, onde é que estão as faixas?”

Nós temos um problema enorme que o relatório não reflete: o dispositivo de combate a incêndios florestais nacional tem três pilares fundamentais: prevenção, fiscalização e combate.

De acordo com o comandante dos Bombeiros Municipais do Cartaxo, “nós temos um problema enorme que o relatório não reflete: o dispositivo de combate a incêndios florestais nacional tem três pilares fundamentais: prevenção, fiscalização e combate. Prevenção é da competência do Ministério da Agricultura e do Instituto da Proteção da Natureza, fiscalização e vigilância é com a GNR e combate é com a proteção civil e bombeiros, sendo o chapéu disto a Autoridade Nacional da Proteção Civil”. Depois, “os fios elétricos batem nas árvores e não deveriam bater, e a EDP é a culpada porque deveria fazer a limpeza e não faz; as estradas deveriam ter dez metros de faixa de segurança do mato para a estrada e não tem; a GNR deveria fiscalizar tudo o que são aglomerados habitacionais e outras coisas mais, a questão da vigilância dos postos de vigia que este ano só começou quase em julho… E isto acaba por ser uma bola de neve, que começa com um pequenos problema e vai até abaixo”. No meio disto tudo, “as condições climatéricas este ano foram mais que severas: temperatura, vento forte, humidade relativa sempre muito baixa, que são três condições para a propagação dos incêndios ser assim em catadupa. Tudo isto foram condições que provocaram toda esta situação”, constata David Lobato, que também aponta falhas no SIRESP (sistema de comunicações utilizado pelos bombeiros, pela polícia, pela GNR, pelas forças de segurança), que diz estar “desadequado da atualidade”.

90 por cento das ignições têm mão humana. Ou somos um país de pirómanos que gostamos de ver tudo a arder ou há aqui outros interesses instalados.

Quanto à possibilidade apontada por muitos nas redes sociais, assim como na comunicação social, de haver interesse em que a floresta arda por parte de quem fornece equipamentos de combate a incêndios, David Lobato diz não poder “opinar sobre essa questão, porque não tenho conhecimento de causa sobre”. Uma coisa o comandante tem a certeza: “90 por cento das ignições têm mão humana. Ou somos um país de pirómanos que gostamos de ver tudo a arder ou há aqui outros interesses instalados. Fala-se de muita coisa: coisas que querem construir ali, a questão dos madeireiros, os meios aéreos, os equipamentos, não sei…”

Relativamente ao envolvimento do exército e da força aérea, David Lobato é da opinião de que “o Estado devia ter meios próprios”, ainda que concorde que “os aviões que temos neste momento não servem para o combate”, considera que se deve fazer “a aquisição de aviões para combate, que no inverno podem ser utilizados de outra forma, como a fiscalização da costa ou para outras situações”, ainda que não possamos “ter um dispositivo aéreo como tem Espanha ou os EUA”. Ainda assim, David Lobato não concorda com o exército envolvido no combate aos incêndios, depois de este ano se falar muito do “exercito fazer parte do dispositivo, acho que deve ser colocado na fiscalização, na prevenção e deve ocupar os sítios mais críticos durante a noite, com patrulhas”, evitando atos criminosos. Assim como, deve ser “envolvido na situação de rescaldo, [trabalho de sapador], mas tem de ter equipamento efetivo para isso e não tem”, diz David Lobato, para quem “o exército não está a ser utilizado da melhor forma”.

Temos de criar condições para os profissionais, que não podem andar a ganhar 25 tostões, porque isto é uma profissão de risco.

Voltando ao relatório de Pedrogão, há coisas com as quais o comandante concorda, como a profissionalização dos bombeiros. “Não é a profissionalização total dos bombeiros, mas um modelo como nós temos no Cartaxo, somos um corpo de bombeiros misto onde temos uma primeira intervenção e segunda intervenção profissional e somos complementados com voluntários”. Ainda assim, considera que “temos de criar condições para os profissionais, que não podem andar a ganhar 25 tostões, porque isto é uma profissão de risco – nós ao sairmos daqui para entrar no carro sabemos que à velocidade a que vamos pode acontecer alguma coisa, antes de chegarmos, e quando chegamos ao local as pessoas estão a sair de um prédio a arder e nós estamos a entrar, ou seja, nós cumprimos tudo o que não são regras de segurança”. Por outro lado, o comandante acha que “os voluntários fazem falta, são um complemento ao socorro, mas temos de lhes dar condições, porque eles estão a arriscar a sua vida para salvar aquilo que é de outros ou do Estado”, daí que considere que “os voluntários tem de ser compensados por isso, mas não com um 1,80 euro à hora, porque quando estão no terrenos estão com a mesma força e vigor que os profissionais”, reconhece. Mas há pontos neste relatório que não concorda, como a criação de mais agências, “acho que é alguém a querer algum ‘tacho’”.

Segundo o comandante, “a tutela dos bombeiros deve passar para os municípios, porque efetivamente o responsável máximo do município é sempre o presidente de Câmara, que conhece a realidade do seu concelho e efetivamente a nossa Câmara gasta uma fatia do orçamento com os bombeiros municipais e aposta na segurança dos seus munícipes”. Como exemplo, “no concelho, nós somos bem vistos, temos uma excelente imagem”, logo “o bom da questão seria todos apostarem num modelo como este, penso eu”.

David Lobato é da opinião de que “quem tem a tutela deve começar a ver isto de outra forma, porque às vezes as pessoas que estão à frente não têm a visão necessária ou estão mal assessoradas. Quem está nestes lugares tem de ter uma visão de topo, tem de ter uma visão geral de da realidade de todo o País”. Por exemplo, “não podemos comparar o Cartaxo com o Sabugal ou Mação – nós temos três vezes mais serviço do que eles têm, mas eles no verão têm três vezes mais serviços que nós em termos de incêndios, porque a área deles é quase toda florestal”, lembrando que “nós temos autoestrada, caminhos de ferro, o Tejo, entre outros. Isto tem de ser dinâmico, eu posso ter mais homens que estes concelhos têm e se calhar não precisam de mais, a não ser no verão que devem ter o mesmo número de elementos ou mais do que eu”.

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