No meu tempo

 

Desta vez foi Salomé Tavares, a Senhora Salomé, da Escola, como foi conhecida durante os 34 anos que trabalhou nesta escola de Vale da Pinta, a aceitar o convite para vir falar do seu tempo.

escola vale da pintaAqui foi “contínua”, “empregada”, “funcionária”, “auxiliar de ação educativa”, “assistente operacional”: passou por tudo!

Sobretudo passou por muitos professores: Arlete, Duarte, Lucília, Rosário, Maria, Natália, Natércia, Cristina, Eliseu, Caetana, Joaquim, Henriqueta, Leonor, Isabel e, nos últimos anos, Paulo, Mafalda, Mário e Lurdes… que recorda com saudade e que a levaram a dizer que «a escola de Vale da Pinta é a melhor destes arredores»!

Começou na Escola Velha, no largo da Igreja, onde hoje são a Junta de Freguesia e o Jardim de Infância. Era uma escola muito bonita, com o chão em soalho, as janelas de vidros pequeninos, um hall de entrada enorme com um arco. Um muro separava as meninas dos meninos e casas de banho não havia: as meninas faziam num cantinho da escola e os rapazes, pelos caminhos dos quintais.

E havia muitos meninos, as salas estavam cheias… recorda-os com uma lágrima teimosa, associa as crianças de agora aos seus pais, que evoca pelos seus próprios nomes. Das crianças é que a Senhora Salomé gostava: desde o óleo de fígado de bacalhau, que apesar do sabor e cheiro horríveis, fazia muito bem aos meninos que não podiam ir à praia e ficavam com postelas na cabeça e gânglios no pescoço. Para os meninos, tomar o óleo de fígado de bacalhau era um problema… e ela própria tomava para dar o exemplo…

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E o leite vinha em sacos muito grandes, em pó. Tinha que ferver a água, misturar o pó muito bem para não ficarem grânulos, que os meninos não gostavam nada, e depois misturava cacau ou café, feitos em cafeteiras enormes. Muitos meninos, e os próprios professores, traziam o almoço de casa: ela aquecia e preparava uma sala de aulas para todos comerem. E fazia umas sandes de atum, de febras e de outros condutos, para os lanches das crianças. Todos gostavam principalmente das sandes de ovo mexido; e a Senhora Salomé revelou o seu segredo para o sucesso das sandes de ovo mexido: misturava leite! Eram um regalo!

Cantava, contava histórias, fazia jogos e danças de roda: estar com os meninos era para ela um prazer enorme.

Questionada pelos alunos sobre as brincadeiras que faziam, a Senhora Salomé explicou alguns jogos, falou do jogo dos reis e das rainhas, das nabiças, da corda e de muitos outros jogos, bem diferentes dos jogos que as crianças praticam hoje… ainda haveremos de os experimentar!

Mas havia muitos meninos que não passavam de ano, tinham que saber muitas coisas: os rios, as estações do caminho-de-ferro, os nomes dos reis… e na escola havia rapazes e raparigas muito mais velhos do que há hoje. Recorda até o seu exemplo, faltava muitas vezes à escola, porque quando a sua mãe arranjava trabalho era ela que ficava a tomar conta de uma sobrinha.

Depois, a Escola Velha explodiu quando os foguetes da festa rebentaram, e as aulas passaram para a Quinta dos Veigas, para felicidade de toda a gente: muito espaço, uma casa enorme, árvores de fruta.

Agora os meninos estão numa escola muito bonita, uma escola que tem tudo: boas instalações, bom material e bons professores.

Texto escrito pelos Alunos da Escola Básica do 1º Ciclo de Vale da Pinta, Agrupamento D. Sancho I, Pontével. Com os professores Lurdes Ferreira e Mário Júlio Reis, no âmbito do projeto “No meu tempo” para as comemorações dos 200 anos do Concelho do Cartaxo.


 

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