Nós e o Estado

Opinião de Ana Benavente

Sempre foi uma relação muito mal vivida. Relação feita de desconfiança, de culpabilidade dos cidadãos, de burocracia, de desrespeito, de ameaça, de castigos.

Quando voltei a Portugal em 1974, chocou-me o modo como o Estado então nos tratava. E não é que pouco melhorou nestes mais de 40 anos? Ao contrário da justiça – em que há a presunção da inocência – com o Estado e até com os serviços (agora) privados, somos sempre culpados até prova em contrário. Um SIMPLEX (lembram-se de ouvir falar?) não chegou.

Li, há dias, que na Dinamarca há assessores para “traduzirem por miúdos” as leis, os decretos, as comunicações oficiais, de modo a que todos entendam. Que falta nos fazem.

Nunca esquecerei quando, há anos, recebi um postal dum Tribunal que me comunicava que a sentença do processo número tal e tal tinha “transitado em julgado”. Pensei: transitar é “ir para” e julgado é “julgar”. Pânico: não me digam que vai haver outro julgamento. Liguei a um advogado que me disse que a frase significava que a sentença se tinha tornado definitiva. Não podiam dizer isso mesmo?Serei só eu que sinto o coração apertado quando recebo uma carta da agora chamada “Autoridade Tributária” – a designação não é neutra: “Autoridade, ouviram”? Tirando os valores em euros, nunca percebo de que se trata. Quando lá vou, espero horas (3, 4, 5 horas) e, a maior parte das vezes, respondem-me com alguma impaciência. Eu quero pagar. Eu pago. Não lhes devo nada.

E continuamos a ter más surpresas. Agora, até a NOS, quando uma factura chega à data de pagamento, envia mensagens com o título “Aviso de suspensão de serviços”. E não é nada disso. Mas está-lhes no ADN ameaçar-nos.

Há poucos dias vi uma reportagem que mostrava que vivem, em Portugal, cerca de cinco mil emigrantes que trabalham, pagam impostos e pagam segurança social mas estão “clandestinos”. Não têm autorização de residência, e, portanto, não podem ter nem médico de família nem abrir conta num banco. Têm deveres sem direitos.

Ler
1 De 315

Acham isto normal? Eu não acho.

Sabemos hoje que são os países com a mais absurda burocracia que têm mais corrupção e as chamadas “cunhas” que fazem parte da nossa história. O pecado e a absolvição. As desigualdades (“conheces lá alguém”?). E quem não conhece não se “governa”.

É por isso que, por muitos carros que sorteiem, comprados com o nosso dinheiro, comigo não contam para ser informadora, pedindo facturas de jornais (já vi um jovem pedir a factura de “A Bola” com NIF), de cafés, de supermercado com o dito número. Já pensaram que nos tornam numa espécie de pides sociais? Já pensaram que controlam o que fazemos e o modo como vivemos?

O Estado somos todos nós, imigrantes incluídos. E não deixa de ser estranho que um país com tantos emigrantes, trate tão mal quem vive entre nós. Com excepção dos vistos gold, claro. Ou seja: trocamos cidadania por dinheiro.

Triste país. Esta crónica é mesmo só “pringles”, sem felicidade.

*texto escrito sem o Acordo Ortográfico

Pode gostar também