Nova Vaga – Diário de confinamento

A partir de Vale da Pinta, ligado a várias localidades da região, Frederico Corado está, como todos os restantes participantes do filme Nova Vaga, confinado em casa a trabalhar num projeto em vídeo sobre o dia a dia do confinamento de 30 pessoas. Cada uma delas filma curtos momentos diários do seu quotidiano e, daí, o conhecido encenador/realizador construirá uma espécie de diário de confinamento

Com o confinamento, há mais tempo para nos entediarmos, dentro de casa, mesmo quem sai para trabalhar diariamente facilmente se farta de estar limitado aos mesmos espaços, dias e dias, sem saber ainda muito bem quando virá o tempo da soltura. Assim sendo, há desafios como este que Frederico Corado lançou a 30 pessoas das suas relações, com idades entre os 16 e os 80 anos, que ajudam a desanuviar e que puxam pela criatividade, é o que nos revelam alguns dos intervenientes, mais à frente no texto.

Primeiro, Frederico Corado começou por falar com pessoas da Área de Serviço, companhia artística que criou há cerca de dez anos e que já apresentou mais de duas dezenas de peças no Centro Cultural do Cartaxo, depois convidou pessoas do Grupo de Teatro Cómico da Sociedade Recreativa Operária, de Santarém, no qual o encenador também está envolvido, e convidou mais cinco ou seis pessoas fora destes grupos para ter diferentes visões dos dias vividos em confinamento.

Já no primeiro confinamento, há quase um ano, Frederico Corado, lembrou-se que seria interessante convidar pessoas amigas e conhecidas que filmassem planos curtos do seu dia a dia, durante o confinamento e, assim, construir uma espécie de “diário de confinamento” feito a partir de várias visões. Na altura, “porque havia muita coisa a acontecer”, a ideia ficou-se por aí e acabou por ser posta em prática agora, que voltámos a estar recolhidos em casa.

O desafio é simples e dá plena liberdade aos intervenientes: filmar um a cinco planos de um minuto, por dia, sobre o seu quotidiano. A única imposição é que o plano da filmagem seja feito na horizontal, “de resto, a liberdade é total, podem fazer o que quiserem”, explica o encenador, adiantando que, a partir daí, “as pessoas mandam vídeos com as suas visões e eu vou tentar casá-las”.

O dia a dia em confinamento
Entre médicos, professores, estudantes, designers, consultores informáticos, reformados, há quem trabalhe em casa e quem saia para trabalhar e, entre uns e outros, há sempre olhares e pontos de vista diferentes para aquilo que é a representação de momentos do seu quotidiano, nestes dias de confinamento.

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“Muitas [destas pessoas] estão confinadas em casa todos os dias, outras, como a Raquel Carvalho, o trabalho obriga-as a sair todos os dias de casa. Há professores que começaram o confinamento ainda a trabalhar, como a Mónica Coelho, mas que entraram depois em confinamento total. Mário Júlio Reis é um desses casos, que chegou a enviar vídeos a ir para a escola e depois enviou vídeos com a escola vazia”, conta o encenador, sublinhando que “também se vê o evoluir da situação nestes vídeos”.

Uma das visões é de Vânia Calado, companheira de Frederico, que mais uma vez participa num dos seus projetos artísticos, desta vez sem qualquer ajuda do encenador, que só vê os seus vídeos quando ela, tal como os restantes participantes, lhos envia. A regularidade dos envios não é muito certa, como acontece com muitos outros, mas está a ser um bom desafio. “Eu nunca enviei cinco vídeos num dia e há dias em que me esqueço”, confessa, mas há outros dias em que sobra tempo para planear bem o que vai filmar”.

“Tem sido giro”, garante Vânia, consultora informática, em teletrabalho desde março e que, desde então se dedica em força ao seu próprio projeto “Lá pela Terra”, ao qual damos destaque na presente edição da Revista DADA. “Nós temos cumprido o confinamento e é muito tempo em casa, sem uma vida normal… E este projeto ajuda-nos a ter um objetivo durante o dia, a pensar noutra coisa”. Para além disso, “é uma nova tarefa e ajuda-nos a ver a nossa rotina por outro ponto de vista. Ajuda-nos a olhar para o nosso dia a dia de outra maneira. Estou a gostar muito disto!”
Carla Heitor, do Grupo de Teatro Cómico da Sociedade Recreativa Operária, descobriu o mesmo: “É engraçado que a gente nem repara nas coisas que faz ao longo do dia, todos os dias”, agora que se encontra confinada em casa. “Tanta coisa que a gente faz todo os dias em casa e a gente nem dá por ela”, constata, com graça. A viver com o marido, António Heitor, e agora também com a mãe, de 82 anos, esta iniciativa veio trazer mais um afazer nestes dias de recolhimento.

Ambos reformados, regressados dos Estados Unidos, há cerca de um ano, Carla e António tinham planos e atividades em marcha e, de repente, veem-se fechados em casa. Com a participação na Nova Vaga, podem dar largas à criatividade em mais um projeto, já que ambos têm hobbies que os acompanham há anos: António gosta de fabricar jogos de mesa em madeira ou cortiça e Carla faz artesanato e dança. “Também fazemos os nossos passeios, para espairecer, e já filmamos os nossos exercícios”, conta Carla, revelando uma preocupação do casal em manter uma vida saudável, ativa e, claro está, criativa – para o comprovar, António alinhou neste desafio logo numa perspetiva de “cineasta”, ironizando: “agora vais fazer um vídeo a lavar a loiça? Que chatice!”(risos)

Gatos, cães e companhia
Lavar a loiça, como tantas outras rotinas, fazem parte do dia a dia de todos e, como tal também acabam por aparecer, pelo menos no vídeo de apresentação do filme Nova Vaga, onde também se veem viagens de carro, momentos de higiene matinal, exercício físico, trabalho, brincadeiras e mimos com animais de estimação… Gatos e cães já percebemos que há vários.

Os gatos são a companhia de Raquel, uma jovem designer que vive em Vale da Pinta e trabalha no Cartaxo, para onde se desloca, todos os dias. E são os gatos, muitas vezes, os protagonistas dos filmes que envia a Frederico, de forma mais ou menos regular. “Acho que nunca enviei cinco vídeos num dia. Há dias em que envio dois, há outros em que envio um, e ontem não enviei nenhum.” (risos) Raquel veio viver para o Cartaxo com dez anos e há três que reside em Vale da Pinta, tendo já realizado alguns trabalhos de design com Frederico e Vânia.

“Gostei muito deste projeto, porque os meus dias têm sido um bocado aborrecidos, sempre em frente ao computador”, diz Raquel, que tem optado por filmar os gatos e, por exemplo, “a paisagem quando saio do trabalho. Eu não me filmo a mim, nunca calhou. Gosto mais de filmar o que estou a ver”.

A estudante de teatro, Carolina Seia, tem filmado mais os cães, “porque são a minha companhia agora que estamos em casa e acho que iam ficar contentes por participar” (risos) Vive em Santarém e está a frequentar o último ano do curso na Escola Superior de Teatro e Cinema, tendo iniciado as filmagens para o filme Nova Vaga ainda com aulas presenciais.

“Aceitei logo o desafio, como todos os outros desafios do Frederico, porque gosto da maneira dele de ver as coisas. Aceitei sem pensar muito no que tinha que fazer”, conta, confessando que nem sempre cumpre a rigor com o plano de filmagens: “Acho que nunca houve um dia em que enviasse cinco vídeos e já aconteceu não enviar nenhum”.

Já Gabriel Silva, estudante no segundo ano na mesma instituição de ensino superior, envia filmes de sobra.

“Há dias em que envio dois vídeos, há outros em que envio dez, depende da minha inspiração.” Desde o primeiro confinamento que Gabriel tem feito vários vídeos, a pedido dos professores e agora com este projeto vai tentando aprimorar ainda mais a técnica. “Assim vou aprendendo um bocadinho mais sobre vídeo online” e testando alguns planos diferentes.

Aceitou este desafio “imediatamente” e quando começou as filmagens ainda estava em aulas e quis deixar o último dia na escola registado: “Ver a escola quase vazia foi uma sensação estranha”. Agora, sem as idas para a escola – que também chegou a filmar – e com mais tempo para se dedicar às filmagens, reconhece que “andar a filmar deixa-me mais desperto para o que está a acontecer no dia a dia, coisas em que não reparava e agora passo a reparar”.

Tal como Carolina e Gabriel, Mónica Coelho, de Vila Chã de Ourique foi ‘recrutada’ da Área de Serviço, onde está há alguns anos. Professora do 1º ciclo, em Sacavém, até ao fecho das escolas deslocava-se diariamente de comboio para trabalhar. Agora, em casa, esta “é mais uma maneira de ocupar o tempo”. “Aceitei logo o desafio”, diz, adiantando que normalmente manda um vídeo, mas “já houve um dia que consegui mandar cinco”.

Reconhece que nem sempre é fácil filmar, umas vezes não ter um suporte para o telemóvel, “tenho de ser eu a segurar” e também “já pedi ao meu marido para ser ele a filmar”. (risos) Tanto Mónica como os restantes demonstram estar a divertir-se muito com o projeto. “É interessante, tento filmar momentos diferentes do dia. É prazeroso, não é nenhuma obrigação”, diz a professora que considera que, com este projeto, “o Frederico, quase sem saber, ajudou aqui algumas pessoas a viver melhor estes dias de confinamento”.

Dias, estes, que gostaríamos que acabassem depressa, porque estamos cansados de estar confinados e, já agora, porque esperamos ansiosamente para ver o filme.

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