Novos Horizontes

 

Havia quem comungasse da ideia, de que só se convidava alguém para um casamento ou para um pé-de-dança de salão, mas aquela dança, que começava em ritmo de balada, e passava a foxtrot, acabava sempre à brida, num galope desenfreado.


Era chegada a altura de alargar horizontes, ver para além daquela linha limite que, por força das circunstâncias, nos foi imposta durante 10 anos. Até então, só em ocasiões especiais, como a Feira dos Santos ou o Senhor dos Passos, nos era dada a possibilidade de ver as gentes da, então, vila do Cartaxo, sem com elas conviver. Isto, porque, na área da saúde, sempre que se tornava necessária uma ida à farmácia para aviar uma receita, ou comprar os ingredientes para fabricar qualquer mezinha caseira, era, quase sempre, na vizinha Pontével. Esta era uma opção paradoxal, já que tinha benefícios e inconvenientes. Talvez mais estes que aqueles. Pontével, sendo mais perto, talvez uns 2 km – p’raí metade da distância em relação ao Cartaxo – merecia a nossa opção, ainda que sob reserva, já que os riscos que a rapaziada corria faziam-nos correr a bom correr. Éramos uns cinco: um interessado e quatro convidados (os capangas). Havia quem comungasse da ideia, de que só se convidava alguém para um casamento ou para um pé-de-dança de salão, mas aquela dança, que começava em ritmo de balada, e passava a foxtrot, acabava sempre à brida, num galope desenfreado.

Quando entrávamos em Pontével, e durante a caminhada até à farmácia, quase não se via vivalma, a terra mais parecia uma povoação fantasma, abandonada. Sob forte tensão, mirávamos cada esquina e, até à farmácia do Ascenso ou do Marrafa, tudo parecia normal. Já com o produto da compra metido no habitual saquito de riscado, lá ensaiávamos o retorno à terra, a Vale da Pinta, que, estando ali a uns escassos 2 km, mais nos parecia ser no fim do mundo.

Assim que a comitiva entrava no largo do coreto, abatia-se sobre nós uma autêntica saraivada de pedras, acompanhadas de gritos de guerra, como: – Carrapatosos! Fora para a terra da pedra!

Então, nós éramos os apedrejados (com pedras made in Pontével) e tínhamos que ir para a terra da pedra? Pedradas e mais pedradas. Mas pedradas com pedras, porque nesta época ainda ninguém se pedrava. Pontével sempre foi uma terra de bons atletas, mas, em situações de apuros como estas, tenho dúvidas de quem ganharia a corrida. Pé descalço, macadame afora, era pormo-nos a salvo, a fugir até à fronteira, além do forno da cal da Quinta do Covão. Tudo isto se evitava se houvesse, ao menos, uma farmácia em Vale da Pinta. Nós, rapazitos, pensávamos que esta coisa dos alvarás dos consultórios e estabelecimentos comerciais que definiam o ramo de atividade, eram facultativos: enquanto Pontével optara por médicos (Dr. Egas e Dr. Brogueira) e mais as duas farmácias acima citadas, Vale da Pinta tinha escolhido o alvará das tabernas.

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Uma coisa era certa: transpondo fronteiras, e pese embora o estilo primitivo e belicista que pautou os contactos com os nossos vizinhos cartaxeiros e pontevelenses (muito mais com estes que com aqueles), deu para entender que a tonalidade da linguagem (pronúncia) utilizada pelo trio concelhio, nada tinha em comum. As diferenças eram abissais, como se poderá constatar na edição seguinte.

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