O Baptistério da Igreja Paroquial do Cartaxo. Memória de um espaço (ainda) desconhecido

Bagos da Memória, por Pedro Gaurim

Janeiro é o mês em que, há muitos séculos, se festeja o Baptismo de Jesus. Em 1969, com a Reforma litúrgica, a Igreja Católica fixou o Domingo após a Epifania (Dia de Reis) como a Festa do Baptismo do Senhor. Quando a Solenidade da Epifania não puder ser celebrada no dia 6 de janeiro, pode ser no domingo entre 2 e 8 de janeiro e a Festa do Batismo, na segunda-feira após a Epifania. Com esta festa, termina o ciclo de Natal.

Um baptistério é o lugar dentro da igreja, ou construção anexa, onde se encontra a pia baptismal. A designação vem do grego baptistérion, que significa “piscina ou casa do banho”, e foi introduzida no português pela palavra latina baptisterĭu. De facto, o baptismo dos primeiros cristãos era realizado por imersão na água, ou banho, tendo-se generalizado com rito actual, quando se deixou de esperar pela idade adulta e se começou a baptizar as crianças, substituindo-se pequenas piscinas por pias baptismais.

As pias são normalmente constituídas por base, plinto e pia propriamente dita, e podem assumir elevados requintes artísticos. A existência de pia baptismal é uma condição essencial na fundação de uma paróquia, o que se justifica pelo facto das paróquias terem a missão de executar o rito de iniciação dos seus freguesesna vida cristã, através do sacramento do Baptismo. No entanto, em Portugal, ainda é possível encontrar as antigas piscinas de baptismo por imersão, em contexto arqueológico, sobretudo nas basílicas das antigas quintas romanas, as villae.

A Igreja paroquial do Cartaxo foi sagrada em 1529 pelo Bispo D. Ambrósio de Rossiona [Split, actual Croácia], em 1529, e apesar da sua existência já ser referida em documentação bastante anterior, o seu baptistério é uma remodelação recente, promovida pelo padre Américo Rodrigues Cabeleira (Casais da Igreja, Torres Novas3-6-1915/Cartaxo, 10-8-1986, sepult. Casais da Igreja, Torres Novas), pároco do Cartaxo entre 1955 e 1984, e inaugurada no segundo domingo após a Páscoa de 1960, a 17 de Abril.

Infelizmente desconhecemos a arquitectura e o estado de conservação do antigo baptistério, mas muito provavelmente considerou-se não ter a dignidade suficiente para a sua função, hipoteticamente, por algum arranjo apressado que decorreu da derrocada da torre sineira com o terramoto de 23 de Abril de 1909, reconstruída em 1914.

O projecto de “reparação” do baptistério foi deferido pela Câmara Municipal na reunião de 6-1-1960. O presidente Francisco Nogueira Freire, grande proprietário de Vila Chã de Ourique, informou a paróquia do deferimento e do parecer da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, nº105 de 5-1-1960, com o seguinte teor:

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“ …muito embora o projecto mencionado seja deficiente quanto a pormenores, não parece, em princípio, haver inconveniente na pretensão apresentada pelo Vigário da Vara [P.e Américo Cabeleira].

Convém, contudo, ser chamada a atenção do autor do projecto[Arq.º João Simões] para que o novo vão exterior seja guarnecido com cantaria e o vitral esquematicamente representado no alçado, com pequenos losangos de vidro martelado, amarelado e ligado por bites de chumbo, conforme habitualmente se emprega nas obras de monumentos”. Tal se veio a verificar, pese embora o facto do vitral previsto, com losangos, se substituir por obra de arte figurativa e mais interessante.

O projecto do novo baptistério foi assinado pelo Arq.º João Simões (Lisboa, 1908-Beja, 1993), que desde os anos de 1940 tinha grande relação com o Cartaxo, quando fora designado pela administração central para realizar e acompanhar o projecto urbano da vila. Entre muitos, também fez o projecto da Casa Paroquial.

Os trabalhos de construção Civil foram executados pelo construtor civil Manuel Oliveira Pato (Pernes, 29-8-1923/Cartaxo, 18-8-2010), grande construtor na região do Cartaxo desde a década de 1950 e um dos introdutores do betão armado na construção local. Os materiais de construção foram fornecidos por empresas locais: a ASAL (Almeida Sousa e Almeida Lda., Rua Serpa Pinto) e a António Guilherme (Rua do Quintino). O estucador foi Manuel Ribeiro Nogueira, o “Barrão”, de Vila Chã de Ourique

A grade de ferro foi executada na serralharia de Ernesto Baptista da Piedade, cujo edifício da oficina, com a sua sigla “E.B.P.”, ainda existe na Rua Batalhós (nº39). A pia baptismal, em estilo clássico, de mármore, em formato octogonal, apoiada em grosso balaústre, foi executada nos mármores J. J. da Fonseca (Rua 16 de Novembro, Cartaxo, onde ainda hoje se encontra uma empresa de mármores, a Mop-Comércio e Indústria de Mármores Lda), actividade quase centenária, pois a casa fora fundada a 1 de Janeiro de 1934. A sua aquisição e instalação foi uma acção de mecenato dos paroquianos Luísa da Conceição Rebelo Jarego Dias e dos seus filhos António Dias (1928-2011), conhecido vitivinicultor, João Jarego Dias.

A peça de maior destaque artístico, é o vitral assinado por Ricardo Leone, famoso vitralista de Lisboa, com oficina na Rua da Escola Politécnica (nºs 225 a 229), que foi colocado posteriormente à inauguração. Foi oferecido pela família Rovisco, na época, proprietária do Colégio Marcelino Mesquita, e por Melita Simões. O estudo prévio, que se conserva no Arquivo da Oficina de Ricardo Leone (AORL), no Arquivo Histórico do Mosteiro da Batalha, onde o vitralista granjeou muita fama no restauro dos vitrais, evidencia algumas alterações entre o desenho inicial e o resultado final. É exemplo disso, a filactera (bandeirola com legenda) que refere Baptismo de Jesus Cristo, e a configuração das figuras, do arvoredo e do Rio Jordão, local de paragem obrigatória nas peregrinações à Terra Santa.

A partir da década de 1970, generalizou-se o hábito de recolocar as pias baptismais junto da capela-mor, o que aconteceu nesta igreja em 1983, durante as obras de adaptação litúrgica na sequência do Concílio Vaticano II. Hoje o espaço, serve de Capela do Senhor dos Passos, com esta imagem e a de Nossa Senhora das Dores, que saem em procissão na Quaresma.

A sua presença, na entrada das igrejas, é normalmente discreta, pois toda a organização litúrgica e artística, dirige o olhar do visitante para a capela-mor. Mas até há algum tempo ele estava completamente escondido. Foi revelado pelo P.e Arlindo Miguel, que retirou o vidro fosco que o velava, valorizando o desenho da grade e a beleza do vitral.


O autor escreve segundo a antiga grafia.

Texto publicado na edição de dezembro do Jornal de Cá, onde pode ver as imagens referidas pelo autor.

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