“O Cartaxo tem aquilo que os eleitores socialistas lhe quiseram dar”

Vasco Cunha em entrevista

Vasco Cunha é autarca há quase 30 anos, foi deputado da nação em cinco legislaturas e nos últimos 16 anos foi cabeça de lista à Câmara, sempre pelo PSD. Agora, está de saída da linha da frente das listas do partido, mas assegura que continuará vigilante enquanto cidadão e a defender o que acredita

 

Disse há uns anos, em entrevista à Revista Dada, não ser político, mas estar político? Vai deixar de estar político?
Nessa altura eu estava na Assembleia da República. Eu hoje não estou na Assembleia, saí há cerca de ano e meio, mas continuo autarca. Sou autarca no concelho desde 1989, considero que tenho um património de conhecimento da vida autárquica e do concelho como provavelmente muito poucos, hoje, têm. Estes 28 anos correspondem a mais de metade da minha vida profissional. Portanto, se for nessa lógica, eu continuo político. Agora, é certo que no final deste mandato faço tensões de não ser candidato a nada, é fazer mesmo aqui uma pausa, mas não é uma saída. Continuo político e, depois de encerrado este mandato, não deixarei de estar na política, continuarei a ter a minha opinião, naquilo que puder participar participarei, acho que é o meu contributo cívico para aquilo em que eu acredito na nossa sociedade.

Esta saída deve-se a cansaço ou a algumas linhas que o seu partido tem seguido?
Era algo já mais ou menos premeditado. Aqui há uns anos eu já tinha dito, em entrevista a um outro jornal, que mais cedo ou mais tarde ia regressar ao banco. E acho que hoje toda a gente compreende que uma pessoa que tenha uma carreira num sítio qualquer, mais cedo ou mais tarde, vai ter de voltar a dar prova de vida. Iluda-se quem achar que a política é uma carreira durante toda uma vida, sem ter depois que voltar ao sítio de onde partiu. Também há aqueles outros que nunca fizeram outra coisa na vida que não fosse política e no dia em que saírem da política, provavelmente, não sabem fazer mais nada.

Sempre tive consciência que mais tarde ou mais cedo iria regressar à minha vida profissional e que a etapa de sair da Assembleia da República era o primeiro passo para este segundo que dou agora de abandonar politicamente funções para que fui eleito e que exerci nos últimos anos.

Mas vai estar nalgumas listas, mesmo que em lugares menos elegíveis?
Definitivamente não. Acho que é a primeira vez que o digo, apesar de já ter referido há uns meses atrás na rádio que não fazia tensões de ser candidato à Câmara do Cartaxo. E acho que o fiz num lógica de lealdade, porque havia uma comissão política do PSD que estava de saída e, portanto, estava a acabar o seu mandato e iria entrar uma nova comissão política, que, essa sim, teria a responsabilidade de preparar as próximas eleições autárquicas. Seria da minha parte claro que dava um sinal à Comissão Política que ia entrar se contaria comigo ou não. Portanto, disse desde logo que não estava disponível para voltar a ser candidato à Câmara Municipal.

Iluda-se quem achar que a política é uma carreira durante toda uma vida.

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Nem está disponível para a Assembleia Municipal?
Não, e digo porquê. Nos últimos 16 anos eu fui candidato à Câmara, em 2001, fui duas vezes o cabeça de lista para a Assembleia Municipal, e voltei novamente a ser candidato à Câmara Municipal. Em 16 anos, num lado ou no outro, fui sempre cabeça de lista e portanto, para mim, também era claro que não estando num lado também não fazia sentido estar no outro, quando decidi que tinha que fazer esta interrupção.

Nessas mesmas declarações que fez à rádio disse também que o seu candidato seria Pedro Reis, quando já tudo apontava para Jorge Gaspar.
Não tenho ideia que tudo já apontasse para Jorge Gaspar ou que o PSD já tivesse um candidato escolhido. Sei, sim, que essa entrevista foi dada num contexto político de uma Comissão Política que estava a entrar em funções.
Quando eu disse que achava que era o Pedro Reis disse na linha de achar quem eram os vários candidatos que se podiam perfilar pelo PSD, podia ser o Paulo Neves, o Pedro Reis, o Jorge Nogueira, o José Augusto, que é o presidente da concelhia, e podia-se juntar aqui mais dois ou três nomes. Eu achei que, daquele conjunto de nomes, o Pedro Reis era aquele que reunia as melhores condições, porque já foi vereador, esteve na Assembleia Municipal e, portanto, tem aqui um conjunto de conhecimentos, hoje em dia, que lhe permitem conhecer praticamente todos os dossiês do concelho, sem ter que andar a procurar a opinião de alguém sobre alguma coisa que de repente deixou de saber que tinha acontecido. Foi nessa lógica que falei no Pedro Reis, mas a partir do momento em que a concelhia apresenta o candidato acabou.

Jorge Gaspar é o seu candidato?
É o candidato do PSD, é o meu candidato.

Mas houve umas movimentações divergentes relativamente a esta candidatura?
Sobre isso não faço qualquer comentário.

Ficámos com a sensação de que havia diferentes fações no partido…
Vão compreender que a partir do momento em que tenho a decisão tomada de que não vou ser candidato nas próximas eleições também não me sinto à vontade para entrar num grupo que vai decidir quem vai ser o próximo candidato que me vai suceder, sob pena de estar a condicionar um pouco essa discussão. Até se eu, anteriormente, já tinha dito que era o Pedro Reis, não fazia sentido, depois ter aqui outro nome, portanto não quis fazer parte dessa discussão dentro da Comissão Política. E na Comissão Política eu tenho lugar só por inerência, pelo facto de ser vereador. Portanto quem é eleito tem uma legitimidade completamente diferente, durante quatro anos eu tenho de trabalhar com qualquer Comissão Política que entra, mesmo que eu não conheça as pessoas de lado nenhum ou que não goste, eu tenho de trabalhar com aquela Comissão Política. O que fiz, nos últimos poucos meses, foi, sempre que havia necessidade, de a Comissão Política acertar coisas com os vereadores ou o contrário, os vereadores a apresentar alguma coisa, em função do desempenho na Câmara Municipal, reunimos sempre sem nenhum problema. Em relação à questão concreta da definição do candidato à Câmara Municipal eu auto excluí-me, porque achava que não devia condicionar essa discussão. E disse-o ao José Augusto.

É possível o PSD apresentar-se como alternativa?
Nos últimos anos, um grupo de pessoas no PSD procurou renovar o PSD, que tem direito a, legitimamente, fazer esse caminho, apresentou-se a eleições, ganhou as eleições, portanto, tem todas as condições para escolher os candidatos à Câmara, à Junta de Freguesia e à Assembleia Municipal e apresentar um programa político às próximas eleições. Acho que esse caminho está a ser feito e deve ser respeitado, antes de mais nada, e deve ser feito.

Que Cartaxo teríamos hoje se, em vez de Paulo Caldas, em 2001, tivéssemos tido Vasco Cunha?
Seria, seguramente, diferente em várias coisas. Desde logo, uma questão que é transversal, desde 2001 até aos dias de hoje: no ano 2000, quando o dr. Francisco Pereira sai da Câmara – e eu trabalhei com todos os presidentes de Câmara até hoje, quando entrei estava o dr. Renato Campos no seu último mandato – a Câmara devia 2,8 milhões euros (2 milhões e 800 mil euros), em 2006, a Câmara devia quase 28 milhões de euros. Isto significa que, no espaço de cinco anos – e não foi o dr. Francisco Pereira que fez aquela dívida, porque não havia muitas obras candidatadas, por exemplo, aos quadros comunitários, foi após a sua saída –, fez-se uma dívida de mais de 20 milhões de euros. Ora, se isto foi feito foi porque alguma razão houve para o fazer. E eu pergunto: nesse mandato, quais foram as obras significativas que podem ter custado aquele montante de dívida que a Câmara gerou nesse espaço de tempo?
O que é que na altura aumentou? Aumentou o número de trabalhadores na Câmara, porque politicamente era conveniente a quem liderava na altura a Câmara aumentar esse quadro de pessoal; houve um conjunto de despesas que foram absolutamente supérfluas, por exemplo, o projeto Capital do Vinho, em que se gastou dinheiro em festas, por exemplo, no Mercado Municipal, para as revistas sociais e para as televisões virem cá, em que o retorno para o Cartaxo foi rigorosamente igual a zero, nada. Houve um conjunto de despesas feito por aí fora, desde meter placas nas ruas, publicidade institucional…

Logo em 2004, nós começámos a dizer que a Câmara estava a gastar muito dinheiro e que aquilo ia dar mau resultado.

E as verbas para as freguesias?
Houve dinheiro para as freguesias e para as coletividades, mas não houve investimento, para além do Estádio Municipal, inaugurado na véspera de eleições, em 2005, e do Centro Cultural, que justifique, logo naquele imediato, 20 milhões de euros de custos da Câmara Municipal. Logo aqui vemos onde é que começou o problema, porque o problema não começou nem há dois, nem há três, nem há quatro, nem há cinco anos. O problema vem dos últimos 16, 17 anos, porque houve uma orientação política no concelho do Cartaxo de que havia despesa para fazer e essa despesa era, alguma dela, estruturante e importante para a vida do Município, mas alguma outra supérflua que não fez mais nada do que gerar apenas grupos de interesses que viviam à conta daquele dinheiro, porque representavam sindicatos de votos. Foi isso que aconteceu no concelho do Cartaxo e não há aqui ninguém que possa dizer que desta água não bebeu, porque toda a gente que lá esteve e as pessoas que lá estão agora eram exatamente as mesmas, mais coisa menos coisa. É por isso que eu não percebo que hoje alguém no PS do Cartaxo diga que este resultado do Cartaxo é apenas de alguns, não é de todos. Não, pelo contrário, nunca no Cartaxo alguém retirou a confiança política, em particular a um presidente de Câmara ou a algum autarca no concelho. E dou um caso mais concreto, quando as questões políticas dentro do Partido Socialista estiveram mais acesas entre o dr. Pedro Ribeiro e o eng. Paulo Varanda, o eng. Paulo Varanda concluiu o mandato, com todos os eleitos que o acompanharam, na altura, e o Partido Socialista não retirou a confiança política ao eng. Paulo Varanda. O que quer dizer que o Partido Socialista não tem aqui uma face, como o Banco velho e o Banco novo – o Banco bom e o Banco mau; o Partido Socialista é o mesmo desde há 20 anos no concelho do Cartaxo. E este resultado que nós hoje temos na nossa terra é fruto daquilo que, ao longo destes anos, todos estes autarcas fizeram nesta terra.
Seguramente que não teríamos feito 20 milhões de dívida como foi feito na altura – há documentos, nós alertámos para isso – em coisas em que não acreditávamos. Seguramente, teria havido uma outra orientação, por exemplo, em relação aos recursos humanos, em relação àquilo que foi feito com as freguesias, com as coletividades, com aquilo que foi feito, de uma forma geral, de investimento em toda a cidade. Tinha sido uma outra orientação. E há documentos, nós temos documentos na Assembleia Municipal, na Câmara Municipal, em que muitas vezes nós, por exemplo, na discussão do Orçamento dissemos: aquilo que o Orçamento propõe é isto, nós propomos, em alternativa, estas medidas. E propomos estas medidas dizendo que no Orçamento esta despesa não é para ser feita, mas fazemos esta despesa por contrapartida. Apresentámos sempre propostas para esse efeito e, portanto, o caminho nunca tinha sido este, seguramente. Logo em 2004 nós começámos a dizer que a Câmara estava a gastar muito dinheiro e que aquilo ia dar mau resultado.

Como é que não se consegue chegar à população e explicar isso?
Por duas vias, e é fácil – e vou dizê-lo sem qualquer tipo de problema: quando nós nos sentamos num órgão executivo que é uma Câmara Municipal, que tem sete pessoas e, quando é para votar, cinco ou seis – porque o Partido Socialista teve sempre maioria absoluta, excetuando lá atrás o dr. Renato Campos num dos mandatos – levantam o braço sempre para tomar as decisões a favor do Partido Socialista, não há oposição nenhuma que consiga condicionar aquela decisão. Quando chegamos a uma Assembleia Municipal e há 28 eleitos e a maioria absoluta desses eleitos vota sempre no mesmo sentido e até é acrítica em relação às decisões que ali são tomadas, não há possibilidade de orientação que a oposição tenha relativamente à alteração de algum ponto que ali esteja.
A segunda via é que nós tivemos uma comunicação social no concelho do Cartaxo, naquela altura, que foi sobretudo o Jornal Povo do Cartaxo, que foi a folha oficial do Partido Socialista e da Câmara Municipal do Cartaxo, aos olhos de todos os cidadãos do concelho. Eu posso dizer que durante dez anos em que fui deputado, cumulativamente com a vigência do Jornal Povo do Cartaxo, fui entrevistado uma vez, quando fui candidato à Câmara Municipal do Cartaxo.

Qual é o balanço que faz do seu trabalho e do do PSD ao longo deste tempo? Acha que foram a oposição que o Cartaxo precisava?
Do ponto de vista pessoal, eu acho que foi das experiências mais enriquecedoras que tive até hoje. Hoje conheço muito mais pessoas do que algum dia podia ter tido a expetativa de conhecer na minha vida e confrontei-me com realidades, com problemas, com decisões, que provavelmente nunca esperei ter que tomar, há 28 anos.

Do ponto de vista do PSD, eu acho que o PSD hoje está diferente daquele PSD que eu encontrei há 28 anos que, por sua vez, já era ligeiramente diferente daquele outro que tinha estado na origem do poder autárquico no concelho do Cartaxo, que é dos fundadores do PSD. Quando eu fui para a Assembleia Municipal do Cartaxo havia uma bancada do Partido Socialista que era uma bancada de luxo, onde estavam, por exemplo, o eng. Pratas, o eng. Álvaro Pires, o dr. Conde Rodrigues, o dr. Francisco Pereira, o presidente de Câmara, dr. Renato Campos, o José Eduardo Carvalho, hoje presidente da AIP. Nós éramos quatro do PSD, eleitos na Assembleia Municipal, o sr. Joaquim Mendonça, o sr. Amândio Pina, o sr. Carvalho dos Santos e eu, que era o mais novo daquela sala, e era muito difícil fazer política. Como é que três pessoas mal preparadas e eu, ainda por cima juvenil, podiam fazer qualquer tipo de oposição sustentada, com base em números, com uma bancada daquelas do Partido Socialista que, só por si, já beneficiava de ter uma maioria absoluta? Aquilo que o PSD fez ao longo destes anos foi que valorizou muito as suas presenças políticas, os seus contributos políticos. Eu não tenho dúvida que nestes últimos 20 anos que o contributo técnico que o PSD teve para as discussões, todas elas, no Município do Cartaxo, foram do melhor que houve neste concelho. Porque o Partido Socialista deixou de ter os melhores e passou a ter militantes que vão às assembleias apenas votar. Eu tenho, ao longo de todos estes anos como autarca, a experiência de ter visto assembleias municipais em que há muitos eleitos pelo Partido Socialista que entraram mudos e saíram calados. O único exercício que eles tiveram naquela Assembleia Municipal foi o exercício cansativo de levantar o braço para votar a favor daquilo que o Partido Socialista mandava.

E da parte do PSD isso nunca aconteceu?
Houve sempre argumentos para que aquilo que estava a ser feito, nalguns casos pudesse ser concordado, mas naquilo em que não concordávamos apresentar sempre a nossa discordância e apresentar uma alternativa, sempre. Portanto, nesse aspeto, também acho que o PSD hoje, além de qualitativamente estar melhor, conseguiu dar um outro passo: é que o PSD não era um partido capilar, de ter presença em todas as freguesias. Por exemplo, em Valada e na Ereira o PSD não tinha presença, logo a seguir ao 25 de Abril. E hoje o PSD tem uma capilaridade que chega todas as freguesias do concelho do Cartaxo, consegue ganhar juntas de freguesia, como a de Vila Chã de Ourique, na altura, ganhou mais tarde na Ereira, e acho que o contributo de qualquer um destes autarcas para as suas freguesias é consensualmente conhecido como um trabalho magnífico, como foi, por exemplo, o trabalho que o João Mota fez na Ereira.

O que nós hoje temos na nossa terra é fruto daquilo que, ao longo destes anos, todos estes autarcas fizeram nesta terra.

Paulo Varanda não teve mãos para dar seguimento à presidência deixada por Paulo Caldas?
O Paulo Caldas, quando sai da Câmara, a meio do seu último mandato, já tinha consciência há muitos meses que as contas da Câmara tinham implodido, estavam completamente ingovernáveis. Tinha de ter consciência disso, porque quem tinha o pelouro financeiro na Câmara municipal era o Paulo Caldas. O Paulo Varanda não teve nunca o pelouro financeiro, portanto, quando ele assume a presidência da Câmara Municipal, provavelmente, é quando ele passa a ter consciência plena, e mesmo assim não tenho a certeza, porque ainda hoje há coisas a aparecer. Só nessa altura é que ele teve consciência de qual era a dimensão do problema financeiro na Câmara Municipal.

E ainda assim candidata-se?
Se houve pessoas dentro do PS que lhe criaram a expectativa de ele ser candidato do PS à Câmara Municipal é natural que ele tivesse essa vontade. Quem sou eu para estar a dizer que ele o devia fazer ou não? A única coisa que eu sei é que, na parte final desse mandato, quando ele já é presidente de Câmara, a Comissão Política do PS não concorda com a sua eventual candidatura à Câmara pelo PS. E houve as guerras que são conhecidas, e que foram públicas, daquilo que se passou no PS. E aquilo que eu referi há pouco é que, nessa ocasião, o PS podia ter retirado a confiança política ao engº Paulo Varanda, para dizer: este senhor foi eleito pelo PS mas a partir do dia de hoje, com a retirada da confiança política, deixa de estar vinculado a nós e tudo aquilo que ele fizer fá-lo-à sempre por conta e risco próprio, não faz em nome do PS. Ora, isso não aconteceu, portanto, a partir daí, não faz sentido nenhum estar aqui a dizer que houve uns que foram bons, outros que foram maus; que há o PS bom e o PS mau.

Existem matérias que mudaram a face do Cartaxo, como o Parque Central, por exemplo. Nessa altura, o PSD não deveria ter feito mais barulho? Não deveria ter feito mais para alertar as pessoas para a realidade que ali se desenhava?
O Parque Central tem o progresso todo que vocês conhecem. Desde a primeira apresentação do projeto às pessoas, houve sempre uma maioria naquela Câmara Municipal que quis fazer aquele caminho, mesmo quando a determinada altura, já com o parque fechado, todo isolado, lembro-me do PSD lá ter colocado faixas a denunciar aquilo, assim como outras forças políticas do concelho a contestarem aquilo, mas aquele caminho quis-se fazer e não me recordo que dentro do PS alguém tivesse questionado, sequer, a viabilidade e a bondade daquele projeto e ele foi concluído.

É o Partido Socialista que constrói aquele Parque Central?
Eu acho que não há outro responsável. Há uma coisa que, seguramente, podem ter a certeza, nestes 28 anos, eu nunca votei no PS no concelho do Cartaxo, mas houve pelo menos cinco mil pessoas que votaram no PS e que deram legitimidade para, com maiorias absolutas, fazer aquilo. O Cartaxo tem aquilo que os eleitores do PS lhe quiseram dar.

Paulo Caldas disse, em entrevista ao Jornal de Cá, que o seu trabalho irá ser, mais tarde ou mais cedo, reconhecido pelos cartaxeiros, que vão perceber que deixou obra para o futuro. Concorda com esta afirmação?
Não. Acho que Paulo Caldas, quase sofregamente, quis fazer obra para deixar obra executada no seu mandato, sem nunca ter a preocupação mínima de que a obra tem que ser paga. O Paulo Caldas anunciou projetos de milhões e milhões no concelho do Cartaxo, se nós pegarmos em toda a dívida que a Câmara do Cartaxo tem ou tinha, no início deste mandato, mais todo aquele dinheiro que já foi gasto e não constitui dívida, mas que foi pago (os tais 7,5 milhões de euros da Cartagua, que não constituíram dívida, foram recebidos e foram gastos), eu pergunto onde é que está o investimento equivalente ou próximo daquele montante que foi gasto no concelho do Cartaxo. Partindo do princípio que os fundos comunitários, em determinado momento, davam 65 por cento para uma obra, e os municípios tinham que pôr 35 por cento. Portanto, num milhão de euros havia 650 mil euros de fundos comunitários e o Município tinha de pôr 350 mil euros. Se formos, por exemplo, ao Parque Central é multiplicar isto por cinco.

Essa obra foi financiada em 85 por cento…
Mas vamos pelos 65, já nem vou aos 85 por cento. Se fosse pelos 65 por cento, naqueles cinco milhões a Câmara não tinha que pôr lá um milhão de euros, era menos do que isso. Depois, à medida que os Quadros Comunitários começaram ainda a pôr mais dinheiro, a Câmara Municipal tinha que ainda pôr menos dinheiro, portanto naqueles cinco milhões a Câmara tinha que pôr lá meio milhão, nem meio milhão, se calhar. Vemos mais o Estádio Municipal, vemos o Centro Cultural, vemos aquilo que foi feito, por exemplo, no concelho todo e eu pergunto: onde é que está o investimento no concelho do Cartaxo que justifique quase cem milhões de euros, porque para além da dívida que aqui está há o dinheiro que a Câmara recebeu e que gastou e há também o dinheiro que entrou pelos fundos comunitários, portanto estão aqui mais de cem milhões de euros. Onde é que a Câmara Municipal do Cartaxo, nestes mais de cem milhões de euros, gastou 70 milhões de euros? Onde é que estão?

O processo Cartagua foi um dos mais polémicos dos últimos tempos, no concelho do Cartaxo. Aquando da decisão de concessão, concordou com ela?
Não. Nós, na altura, na Assembleia Municipal votámos contra. E, passado todo este tempo, e já decorridos mais de três anos neste mandato, eu acho que a solução que foi encontrada é uma solução envergonhada.

Mas isso estamos a falar já da adenda. Aquando da concessão qual era a solução que defendia, na altura?
O problema da concessão das águas e do saneamento do Município não é tomada por opção estratégica. É, na altura, uma opção para gerar dinheiro rapidamente para o Município do Cartaxo. E a prova disso é que a concessão tinha um determinado valor e mais de metade da concessão foi recebida logo à cabeça. Não venha ninguém dizer que aquela foi uma opção estratégica para o futuro dos nossos netos porque não foi, foi pura e simplesmente para gerar dinheiro, mais nada.

Quem é que ganhou com este negócio?
Eu não sei se há alguém que tenha ganho com isto. Chegando à situação em que nos encontramos hoje e tendo-se feito aí tanta coisa, nos últimos anos, sobre o aumento do tarifário dos tais 30 por cento, ou os seis por cento ao ano, para se conseguir o resultado que conseguiu acho que é de ficarmos um bocado embaraçados. A montanha pariu um rato.

Nestes 28 anos, eu nunca votei no PS no Cartaxo, mas houve pelo menos cinco mil pessoas que votaram e que deram legitimidade, com maiorias absolutas.

Na sua opinião, quando é que se deu o ponto de viragem, no Cartaxo, de vila próspera para cidade moribunda? O que é que contribuiu para este facto?
Não há um ponto, não há uma data. Há um período, sim, em que as coisas começam a degradar-se lentamente. É evidente que a situação económica e financeira da Câmara, não estando bem, sendo ela a maior empregadora e o maior organismo dentro do concelho do Cartaxo, passa a ser decisivo para tudo aquilo que se passa na comunidade. Mas a crise económica e financeira do País não são alheias a isto, embora a Câmara já apresentasse sinais de doença antes da crise económica e financeira do País. Em 2006/ 2008, a Câmara já apresenta sintomas de gravidade, de dificuldade e o País, na altura, ainda não estava nessa situação. Portanto, a Câmara começa a dar sinais de estar enferma e o País ainda está bem. A partir de certa altura, quando a Câmara e o País coincidem no estado comatoso, é evidente que o mais fraco é a Câmara Municipal, porque já vinha doente de trás, e tem de pagar a fatura mais pesada ainda do que pagou o País.

Uma das coisas de que fiz referência na Câmara, e fi-la a título pessoal, porque não quis estar a comprometer o Paulo Neves ou o PSD, foi que eu acho que, no momento atual, todos os autarcas do Cartaxo, independentemente da força política à qual estejam vinculados, têm que parar e refletir – coisa que se faz pouco nesta terra – a situação que o Cartaxo vive hoje é de tal forma dramática que nós não a queremos interpretar e estamos a tapar os olhos ou então estamos a querer ignorá-la e ela vai ter resultados mais difíceis. O que eu quero dizer com isto é que, hoje em dia, o concelho do Cartaxo, com todas as condicionantes deste resgate financeiro que nós temos na Câmara Municipal, está completamente impreparado para a competitividade que tem que ter com todos outros municípios à sua volta e da região em que se insere.

Paulo Caldas, quando sai da Câmara, já tinha consciência há muitos meses que as contas da Câmara tinham implodido, estavam completamente ingovernáveis.

As gerações futuras ficam comprometidas?
Ficam comprometidas se não for nada feito. Eu digo isto porque nós olhamos para a situação financeira da Câmara Municipal e, por exemplo, não há estradas em condições no concelho do Cartaxo; nós pagamos os impostos municipais mais caros que a lei obriga a pagar; nós temos condições de limpeza e higiene nas ruas nada convidativas para quem quiser estabelecer-se no Cartaxo. Nós não temos, hoje em dia, um pequeno fator de diferenciação que possa trazer gente nova para vir morar para o Cartaxo ou empresas que se estabeleçam aqui para criarem emprego. E como deixámos de ter competitividade, significa que todos os outros ao nosso lado se vão mexer, mais depressa uns, outros mais lentamente, mas todos se vão mexer para melhor e nós vamos ficar estacionados. E o que é que nos está a acontecer? O comércio local está a definhar, aquilo que fazia a diferença, do ponto de vista da economia local, da restauração, da noite do Cartaxo, que está praticamente morta, agora com o fecho da Horta da Fonte, e tudo aquilo que era de referência para o Cartaxo nós estamos a perder e aquilo que podem ser projetos de futuro para os quais nós possamos ter um bocadinho de sonho, não temos nada, rigorosamente nada, porque não temos condições para os desenvolver.

Por isso, acho que a classe política tem de parar e encontrar aqui uma forma qualquer de se entender e mostrar às autoridades do País – e com isto não estou a fazer politiquice no sentido de dizer que é o governo que tem que resolver isto –, provavelmente, ao Tribunal de Contas, à IGAL, ao conselho executivo do FAM, que nós estamos aqui numa situação que nos próximos anos nos vai fazer ainda definhar mais do que nós já estamos a definhar. E que venham cá ver o que é que é hoje em dia a cidade, a vida económica que tem, ver qual é a última empresa que cá se instalou e quantas é que estão, neste momento, a mudar a sua sede social aqui para o lado, Azambuja e Aveiras, para verem o que é que é isto nos próximos anos no concelho. Quantos jovens do concelho podem ter a esperança de ter aqui emprego, casar aqui e constituir aqui família? Quantos?

As opções do atual executivo foram as mais acertadas?
Há muitas coisas que este executivo fez que, fosse o Movimento Independente ou o PSD a ganhar a Câmara, era incontornável, tinham que ser feitas, por exemplo a adesão ao FAM, a questão do resgate financeiro do Município. Por isso, num balanço deste mandato, há um conjunto de decisões que, com lealdade e seriedade, os vereadores do PSD não podiam ter tido outro sentido de voto que não fosse aquele. Mesmo quando nós quisemos dizer que nunca tivemos nada a ver com a situação económica e financeira à qual o Cartaxo foi conduzido e para a qual não contribuímos, rigorosamente, com nenhuma decisão, porque nunca tivemos oportunidade de contribuir para isso. Mas é evidente que nalguns outros caminhos podia-se ter feito algo ligeiramente diferente, mas este era um mandato muito condicionado pela adesão ao FAM e pelo resgate financeiro. E, por aí, dificilmente se poderia fazer diferente nalgumas das principais decisões que tinham que ser tomadas neste mandato.

Não temos, hoje em dia, um pequeno fator de diferenciação que possa trazer gente nova para vir morar para o Cartaxo ou empresas que se estabeleçam aqui para criarem emprego.

Enquanto vereador e deputado municipal, e enquanto deputado da nação, o que é que conseguiu para o concelho do Cartaxo?
O nó de acesso à A1. Apesar da variante que estava proposta na altura, em Aveiras de Cima, vir a concretizar-se, nós nunca deixámos de acreditar que o nó da A1 era fundamental para a constituição, ali, de um parque empresarial. Na altura, conseguiu-se, através do governo de Durão Barroso, uma coisa que parecia impossível, e foi o ministro Nuno Morais Sarmento que a conseguiu, que foi fazer uma negociação do governo com a Brisa, que tem a concessão da A1 e tem direito a explorá-la. Para abrir um nó na A1 é preciso obter autorização da Brisa e da parte do governo. Nós conseguimos influenciar o governo a tentar ponderar a possibilidade de abrir um nó na A1 e o governo tomou a decisão de que aceitava negociar com a Brisa, que aceitou abrir dois novos nós: no Cartaxo e em Soure, perto de Coimbra.

Isto nunca foi dito por ninguém no Cartaxo, fosse o Partido Socialista, fosse o presidente de Câmara, doutra forma que não fosse uma vitória local do Partido Socialista. Essa é, provavelmente, a maior vitória, que depois acaba por não ter consecução, acaba por não ter uma zona empresarial a funcionar no imediato. Nós temos o nó da A1 desde, sensivelmente, 2005, para o qual a Câmara do Cartaxo pagou mais de um milhão de euros, e hoje não está lá nada, a não ser a Tagusgás. Hoje em dia, fala-se que pode haver interessados naquela área de localização empresarial, mas ela já está toda infraestruturada? Porque, por exemplo, no Casal Branco, em Pontével, provavelmente, era mais fácil, ao longo de todos estes anos, ter procurado vender espaços e infraestruturá-lo e está como está. A do nó da autoestrada, 11 anos depois, está como está, e só lá tem uma empresa instalada. O Casal Branco há muito tempo que tinha de estar despachado, com empresas ali instaladas e a servir de âncora para aquele espaço entre Pontével e o Cartaxo, para ter ali um conjunto de gente a trabalhar e a trazer riqueza para o concelho. E não foi feito nada, está como quando o Paulo Caldas a comprou e a deixou. Essa é uma prioridade! Aquele terreno tem de ser ocupado com investidores.

Mais recentemente, aquela ideia da instalação aqui do Centro de Competências do Tomate, que foi uma boa ajuda para o concelho. Depois, há sempre aquelas pequenas coisas em que um deputado da Assembleia da República pode influenciar, sem que esse tipo de decisão seja visível aos olhos da comunicação social ou da opinião pública, que é por exemplo uma IPSS, um centro de saúde, uma estrada, uma decisão que o Município precisa e que nunca mais sai. Mas há coisas que não vale a pena referir, umas por pudor e outras que acho que devem ficar assim, tal como estão.

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