O Cine-Ribatejo

Crónica de José Caria Luís

Durante muitas décadas, foi esta a única Sala de Cinema digna desse nome na região do Cartaxo.

Do que me lembro, nos anos 40, 50 e 60 do século XX – e só quando o rei fazia anos – lá ia uma fitazita ambulante a Pontével, a Vale da Pinta ou à Ereira. Eram, quase sempre, filmes de películas de refugo, riscadas e desgastadas pelo tempo. A começar pelas pobres condições acústicas e de conforto das salas, e a acabar nas “cordas” dependuradas no pano (ecran), tudo era mau. Se ao menos fosse num dos emblemáticos rascas Cinemas de Lisboa, como o “Piolho”, o “Galo”, o “Arco Bandeira” ou o Olímpia, ainda a malta podia expressar-se e mandar o projecionista enrolar a “corda”, meter a “corda” no saco, mas em Vale da Pinta, correndo o risco de ser apelidado de xico-esperto, isso era de todo improvável. Aqui, só se podia e devia aplaudir. Nunca assobiar e, muito menos, patear. No entanto, era o que havia.

Eram meses e meses de espera pelo home do cinema. Este chegava pelo início da tarde, dava duas voltas à terra, de carripana artilhada na sua capota com um bojudo altifalante, de cujo interior jorrava uma torrente de algaraviadas de que ninguém percebia nada. Arrastava a miudagem (eu incluído) atrás dele e, mesmo que algum de nós (putos) não fôssemos à sessão, parte da festa já estava feita.

O Cine-Ribatejo era outra loiça: uma sala concebida para o bom espetáculo. Os porteiros Manecas, Zé Paiol e Manuel Cebola eram figuras carismáticas que obliteravam os bilhetes, mas não conduziam as pessoas aos lugares, já que toda a gente conhecia e tratava a sala por tu. 
Ao contrário do que a lógica – e o oftalmologista – recomendavam, nas aldeias vizinhas, os lugares mais caros eram os das filas da frente. Era um luxo tal que até as pessoas que iriam usufruir destas filas tinham que levar cadeiras de casa. Porém, e voltando ao Cine-Ribatejo, quando o filme versava cow-boys e outras aventuras que metiam “porrada de criar bicho”, as filas A, B e C estavam sempre reservadas para um grupo de maduros de Vila Chã de Ourique. Era ali, mais perto dos tiros, socos e pontapés que eles se sentiam bem, como se tudo aquilo fosse real, e eles próprios os protagonistas do filme.

Em rapaz, ainda vi lá alguns filmes, não muitos, porque a féria já tinha ido para consumo caseiro e a semanada era curta. Nesses remotos tempos, houve alguns cinéfilos de Vale da Pinta que eram fiéis frequentadores do, agora homenageado, Cine-Ribatejo. Lembro-me de alguns, da Velha Guarda, como o Afonso Narciso Pereira, o Joaquim da Emília, o Xico Espanhol, e o Mártir-Santo; de gente mais precoce, havia o Judas, o João Toucinho e o Vítor da Sezaltina.

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Não raras vezes, alguns daqueles serôdios, quando distraídos, enganavam-se na porta, e até na rua, indo aportar à Rua da República, em vez de caminharem até à Rua 5 de Outubro, onde ficava o Cinema. Isto é, trocavam o Cine-Ribatejo pela Adega do Miranda. Como já se adivinha, o “filme” aqui era outro: enquanto o do Cine-Ribatejo metia Dean Martin e Scotch Whiskey, este metia Afonso & C. ª, mais o saudável carrascão tinto, de 14º ou mais, made in Cartaxo.

Foi bom, muito bom, ter existido o Cine-Ribatejo.

*Artigo publicado na edição de janeiro do Jornal de Cá.

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