Era hora de almoço e no pequeno restaurante onde ia almoçar com colegas a televisão mostrava o que parecia ser um filme de ação com um avião comercial a embater numa das torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque. Não demorou muito para que alguém gritasse – isto é real? – o que levou a que todos se amontoassem junto do balcão e ficassem pregados à emissão em direto e aquelas imagens surreais a que ninguém ficou indiferente. Era uma terça-feira aparentemente normal, mas esse dia viria a revelar-se marcante na história do novo século e no modo como se olhava para o mundo e para a segurança internacional. As horas seguintes adensaram o terror quando a segunda torre caiu e mostrou sem filtros que aquilo era um ataque planeado e não um funesto acidente aéreo.
As reações foram em catadupa e um nome sobressaía sobre todos, o de Osama Bin Laden e da Al Qaeda, a organização terrorista que por esses tempos assombrava o mundo ocidental, ainda em ressaca das guerras do Afeganistão e Iraque e que sentiu que a sua supremacia securitária estava em cheque. Nasceu assim uma quase paranoia com a segurança e que ameaçou comprometer os postulados ocidentais da livre circulação de pessoas, nomeadamente na velha Europa, que ainda estava longe de sequer imaginar o que alguns anos depois a iria abalar em Madrid, com as bombas na estação de Atocha, os atentados no metro de Londres e os do famoso Bataclan de Paris. Manchas de sangue inocente que mostraram a face negra do terror e semearam o medo global de ameaças invisíveis, mas letais.
O terrorismo era agora real para todos aqueles que viviam numa crença de um mundo seguro e protetor e que agora abria frechas dificilmente reparáveis. A violência tornava-se viral, ascendia a patamares de quase estrelato e tornava-se um lugar comum nos noticiários e trends digitais. E ninguém podia prever o impacto que esta nova realidade sombria iria causar nas novas gerações e na forma como todos iríamos viver nas nossas rotinas e sobretudo nas nossas viagens, cada vez mais fáceis e valorizadas na nova aldeia global em que o mundo se transformara, entretanto, por via da aceleração digital e partilha vertiginosa de conteúdos de toda a ordem.
Ainda hoje a minha filha mais velha, novel professora de história, comentava as reações de alunos do 8ª ano a um vídeo explicativo do 11 de setembro de 2001. A maior parte dos adolescentes não fazia a mínima ideia do que aconteceu nesse dia e do que isso significou para o mundo. Vivemos dias estranhos a vários níveis e também por isso o conhecimento assume uma importância fulcral. A famosa cultura geral está a ser substituída grosseiramente pela apelativa e viciosa inteligência artificial, esvaziando a aprendizagem e o crescimento intelectual.
Talvez os preocupantes resultados do dossier PISA se expliquem também devido ao fascínio tecnológico e à superficialidade com que se lida com a informação, seja cultural, económica ou política, não havendo interesse em acumular ideias, conceitos e conhecimentos que qualquer motor de busca acelerado pela IA fornece em segundos. Estamos literalmente a promover a ignorância e a incentivar o ócio e o desinteresse pelos assuntos supranacionais.
Corremos um risco muito sério de banalizar a história e os seus ensinamentos, de menosprezar o legado de todos os que nos permitiram existir e ficar entregues a um tenebroso egocentrismo que quebre os laços sociais e torne o mundo uma competição absurda pelo materialismo nas suas mil e uma faces luminescentes.
O terror não pode ser admitido e aceite como algo comum e parte das nossas vidas, mas quanto mais estivermos debruçados sobre os nossos umbigos mais perto estaremos de ser instrumentalizados por um tirano e sermos pasto da sua loucura possessiva. Algo que já está, infelizmente, em curso. 25 anos depois o mundo não está um lugar melhor e isso deveria ser condição mais do que suficiente para que tudo fizéssemos para alterar esta realidade. Cabe a cada um de nós questionar-se sobre o que está e pode fazer para contribuir para um mundo melhor.