O dilema americano

Opinião de João Fróis

Soubessem os japoneses das consequências do ataque a Pearl Harbour a 7 de dezembro de 1941, e provavelmente teriam tomado outras opções e o curso da história seria outro bem diferente do que conhecemos.

Na verdade, foi esse ataque surpresa à frota naval americana no pacífico que arrastou os EUA para a 2ª guerra mundial, fazendo disparar uma máquina de guerra sem igual e com o arauto de ser “o arsenal das democracias”, como Roosevelt profetizou ainda antes da entrada no conflito.

O famoso dia D, a 6 de junho de 1944, com o desembarque das tropas aliadas nas praias da Normandia, mostraram a força decisiva que os EUA já tinham e que capitulou com Hiroshima a 6 de Agosto de 1945 e a rendição nipónica face ao potencial bélico da nova superpotência mundial, sucedendo ao velho império britânico.

O plano Marshall, nascido em 1947 pelas mãos do então secretário de estado que lhe emprestou o seu apelido, iniciou a reconstrução da devastada Europa, fazendo a apologia do modelo americano contra o comunismo soviético e chinês. A guerra fria que se seguiu assistiu ao surgimento de um sistema de segurança policiado, com relações tensas entre os dois blocos, ocidental com os EUA à cabeça, e de leste com a URSS aos comandos. A China ainda estava entregue a uma revolução interna às mãos de Mao Tsé Tung e que iniciou a mudança abrupta do modelo agrícola para a explosão industrial que hoje conhecemos.

Após a queda do muro de Berlim e a perda de influência de Moscovo, dilacerada pelas guerras intestinas da separação das repúblicas, os EUA continuaram a assumir o papel a que se tinham entregue de polícia do mundo, com a 1ª guerra do Golfo a mostrar o seu enorme poder, sobre tudo e todos. O 11 de Setembro de 2001 viria a mudar novamente o rumo da história, com o recrudescimento do terrorismo e a paranoia securitária a tomar de assalto um mundo afogado em crises humanitária, económica e política.

A dias das eleições nos EUA, muito está em causa no futuro do mundo dado o papel incontornável desta nação que o tem dominado nos últimos 75 anos, impondo o capitalismo como modelo, com todos os males que traz nas desigualdades que acarreta.

Trump decidiu isolar-se e abandonar o papel dominante no globo, permitindo a reorganização russa e o crescimento chinês, não só económico, mas também militar e espacial, palco onde se travam agora as “batalhas” pelo domínio mundial. E fê-lo para supostamente voltar a tornar a América novamente grande, virada sobre si mesma e sobre os problemas sociais e económicos que a federação mostra à evidência e que urgem acalmar para que as urnas não sejam castigadoras.

O papel que os EUA tiveram durante décadas, para o bem e para o mal, ajudou a moldar um mundo que, sendo multifacetado e desigual, se habituou a esta presença militar, mas também protetora de conflitos latentes e emergentes em vários pontos do globo.

Esta ausência norte-americana pode levar a vários cenários, como o surgimento de um novo sistema na ordem mundial, e onde só a Rússia e a China se perfilam, ou o crescimento de fações regionais que espartilhem os equilíbrios atuais e tragam novos focos de tensão e perigo, tal como o norte de Moçambique vem a mostrar, com os braços armados do Daesh a mostrarem resistência e um fulgor destrutivo.

No mundo atual, entregue a uma pandemia que o está a levar ao limite, com milhões de novos indigentes e uma vertigem de enormes problemas sociais, humanitários e de sobrevivência pura e dura, estas eleições capitalizam muitas das esperanças no que este gigante possa decidir sobre a sua intervenção no globo, com a ONU à cabeça enquanto organização crucial para a ordem e a paz mundiais.

*Artigo publicado na edição de novembro do Jornal de Cá.

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