O Escanção de Lisboa… no Cartaxo

Crónica de José Caria Luís

Sendo o Cartaxo uma região onde abundava a viticultura, a vinicultura, ou ambas associadas, e onde o minifúndio tinha grande expressão, seria de todo normal que os seus habitantes tivessem a veleidade de opinar no que concernia à arte de bem-provar e bem-degustar o néctar de Baco. As manchas vinhateiras, que se desdobravam desde a lezíria (latifúndio) até ao limite norte do concelho, às portas da Torre Bela, eram disso testemunho.

O pequeno vinhateiro, ora vendia as uvas ainda nas cepas, a olho, ora as transacionava à boca da báscula da Adega Cooperativa. Se o comprador fosse um adegueiro local, fazia-se a pesagem no Manuel Matias, mas também havia quem fabricasse o seu próprio vinho, fosse para vender por atacado, também ao garrafão, ainda ao litro, ou mesmo à cigana. No entanto, havia uma modalidade manhosa que era, também, uma realidade. Alguns madrugadores bastante identificados com o meio, deitavam a mão a uvas alheias e, com estas, fabricavam o seu próprio vinho, para consumo caseiro. Mesmo não possuindo adega, para manobrar o sistema não precisavam de mais que um alguidar de barro, onde amassavam as uvas e faziam o mosto, e um barril de ¼ de pipa, onde, mesmo sem estar fermentado, não descansava em paz.

Mas vamos ao que interessa: bebedores e beberrões havia muitos, e nisso o concelho era rico. De abstémios, não me lembro, mas haver alguém que percebesse de vinho, a sério, era raro. Quando um curioso se armava num simples enófilo, era logo alcunhado de xico-esperto. Até porque nem carecia de qualquer formação para o ser… Enólogos, que são aqueles que percebem mesmo de vinho, desde a terra à cepa e desta à uva, decerto que os haveria nas principais Adegas, mas eu nunca conheci nenhum. Ao contrário, conheci o conterrâneo Fernando Branco, técnico de obras em Lisboa, que antes, pelos anos 50, foi proprietário da “Pensão Ribatejana”, no Cartaxo. A julgar pelo que exibiu numa espécie de workshopp a dois, possuía dotes, se não de enófilo e enólogo, ao menos de escanção ele percebia. Vejamos, então:

O amigo Fernando Sá, na altura trabalhando para o Branco, numa obra no Cartaxo, foi, por aquele, convidado a deslocar-se à sua adega para, aí, provar um bom vinho. Ambos em frente ao depósito, e diz o Branco, de caneca em riste:

– Ó Fernando, prove lá esta pomada!

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O Sá deitou as unhas à caneca e, com as mãos ambas, de um só fôlego, como se o Mundo se estivesse a acabar, foi num ápice que encharcou as glândulas salivares. Arrotou duas vezes e, de olhos lacrimejantes, exclamou:

– Sim, senhor! Que rico vinho tinto o senhor Branco aqui tem. Ao que o Fernando Branco, escandalizado, contrapôs: – Essa agora! Como é que o Fernando sabe que o vinho é bom, se nem sequer o provou? Você diz isso para me ser agradável, mas, na verdade, nem o provou.

– Não provei? – inquiriu o Sá, incrédulo.

– É claro que não provou! O senhor comeu-o!

O Sr. Branco, que esteve mais de um quarto de hora, através de mímica sonora, a exemplificar como se deve labializar, linguajar, olfatar e degustar um bom vinho tinto, rematou a cena, pondo termo às provas fechando a porta da adega na cara do boquiaberto Sá.

*Artigo publicado na edição de dezembro do Jornal de Cá.

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