O frio

Por Vânia Calado

A lareira, na continuação do chão da casa e onde cabia um homem de pé sem precisar de se dobrar, não se chegava a apagar. Adormecia, perdia a força, mas as brasas estavam sempre ali, prontas a voltar a acender. Eram dias frios, Dezembro chegava em força e Janeiro ainda ia ser pior, mas aqueles corpos já estavam habituados. Só conheciam a vida com meia dúzia de trapos em cima e sem direito a casaco pesado ou meias quentes. Estavam prontos para mais um dia, todos os dias, viesse o calor ou o frio.

O sol amanhecia intenso, com uma luz laranja que alumiava até se perder de vista, mas que não tinha força para derreter a geada da noite. Os campos ficavam brancos toda a manhã, às vezes dava o meio dia e ainda se via o gelo.

Mas ninguém se queixava. Saíam à rua como estavam, com os dedos a gelar e um fumo branco a sair da boca, mas ninguém se negava ao trabalho. Lamentos não resolvem nada e o trabalho sempre aquece.

Quando o sol se punha era ver o nevoeiro da noite a misturar-se com o fumo das lareiras onde o comer borbulhava numa panela que já não tinha cor. Cheirava a fumo. Tão forte que se colava às roupas e aos cabelos durante todo o Inverno. E dentro das casas, mal acabadas e com a telha à vista de quem lá estava, nem a lareira aquecia. Disfarçava, era o que era. Era olhar para o lume e ver ali meio sustento que ajudava a dar conforto às almas.

Quando chegava a hora de ir dormir, e sem mais nada além de um lençol a tapar o corpo, dividia-se o sustento pela família e a lareira passava a braseiras espalhadas pela casa. Baldes de brasas ainda incandescentes a dar conforto e a encher os pulmões com aquele fumo espesso de fogo a perder o vigor. A morte sempre a espreitar.

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– Deus olha por nós.

Valha-nos isso.


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