O Inferno

Opinião de João Fróis

E o Inferno entrou de rompante em Portugal neste sábado 17 de Junho. Escolheu mostrar-se por terras de Pedrogão Grande, zona do Pinhal Interior, mas poderia ter escolhido um de tantos outros pontos “explosivos” deste País adiado. Andávamos embriagados com os feitos desportivos e musicais e os recordes turísticos e eis que, num ápice, batemos forte no chão e acordámos para a dura realidade que é viver num imenso barril de pólvora. A ressaca tremenda confronta-nos com a impotência e, mais ainda, com a forte probabilidade de podermos ser nós a perecer naquelas estradas do inferno.

Infelizmente e, após anos de incêndios dantescos que tudo consomem, inclusive a memória, não me surpreende que uma tragédia destas aconteça. Lamento imenso as vidas que ali findaram em terror e inquieto-me na noção de que uma calamidade desta dimensão poderia, senão ser totalmente evitada, ser em muito atenuada. Mas para tal este País tem de, em definitivo, repensar-se seriamente e mudar paradigmas. Sob pena de catástrofes como esta poderem passar a ser cada vez mais frequentes.

Com oitenta por cento da população a viver na faixa litoral, entre Viana do Castelo e Setúbal, o “imenso” interior lusitano começa praticamente para lá da principal autoestrada que liga Lisboa ao Porto. E este País singular que o mundo vai descobrindo e elogiando pela sua genuinidade e identidade, tem males “escondidos” que toldam as belezas aparentes dos postais turísticos.

A desorganização florestal é um desses males que urge resolver mas que tem sido irresponsavelmente adiado desde há muito. Demasiado tempo para todos os que pereceram às mãos das chamas e viram os seus bens consumidos pela voragem abrasadora. Ano após ano, assistimos a esta dança macabra entre as chamas dos infernos e os heróicos bombeiros que tudo tentam para aplacar a fúria da natureza. E esta tem fortes razões para estar zangada. As alterações climáticas vieram para ficar e não há como negá-las, face à dimensão das evidências. Os picos abruptos de calor extremo têm sido uma constante nos últimos anos, cada vez mais secos e instáveis, principalmente no sul da Europa.

Ter uma floresta desordenada e com espécies altamente combustíveis é algo semelhante a colocar um barril de pólvora junto a uma fogueira. E os resultados estão à vista de todos. Os enormes incêndios de 2003 que atingiram uma dimensão amplamente registada pelos satélites da NASA. Os mais recentes do Caramulo, com proporções enormes e onde infelizmente se perderam vidas humanas. E se em Pedrogão Grande parecem ter sido causas naturais, com uma invulgar conjugação de trovoadas secas e níveis de humidade a bater no zero, a despoletar este inferno que ainda nos assola a esta hora, as causas da ignição são aqui o que menos importa, por mais repugnáveis que sejam as mãos criminosas dos incendiários. O que é premente e de interesse de todos é repensar todo o planeamento do território e a sua organização inteligente e séria.

Andamos há dezenas de anos a chegar ao verão e a antever a “inevitabilidade” dos incêndios que ano após ano consomem e destroem floresta e bens e vão, infelizmente, ceifando vidas humanas. Mais não fosse, a memória dos que inocentemente morreram nestas tragédias, mereciam mais e melhor de quem tem o poder de decidir sobre que País queremos ser. E a verdade é que temos assistido a uma confrangedora atuação dos nossos políticos que perante a dimensão da tragédia apenas se solidarizam com as vítimas, acenando com meios de combate e os esforços tamanhos em lutas desiguais, dando o rosto mas não deixando de fazer a manchete para os telejornais, com a evidente visibilidade de benfeitores que tanto interessa.

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Solidarizarmo-nos é o que qualquer um de nós faz de acordo com a sua consciência e cidadania. Mostrar corporações de bombeiros em abnegada entrega a titânicas tarefas, em terrenos acidentados e sem acessos diz bem da incompetência que está na origem de todo este drama repetido ad nauseum. Fica à evidência que está quase tudo por fazer no que ao ordenamento do território diz respeito. É assim há décadas. Portugal é o país da Europa com mais propriedade florestal em mãos de privados. Dos 3,2 milhões de hectares da floresta nacional, 2,8 milhões estão nas mãos de privados, dos quais pouco se sabe, com cadastros desatualizados e inércia quase total na responsabilização da sua gestão ou falta dela. Basta viajar pelo norte e centro do País, onde ainda se encontram a maior parte das florestas nacionais e observar em redor. E os sinais estão lá à vista de todos. Uma prevalência dos inevitáveis eucaliptos, cerca de vinte por cento da mancha verde, semeados quase aleatoriamente por montes e vales numa lógica de crescimento rápido e lucro fácil. Se os incêndios deixarem. A biomassa gerada cresce e acumula-se gerando rastilhos naturais para ignições que um cigarro mal apagado facilmente transformam numa calamidade dantesca.

Na sua companhia temos o igualmente famoso pinheiro bravo, uma espécie endémica das faixas arenosas atlânticas mas que foi espalhada para terras interiores das beiras e Ribatejo, representando cerca de trinta e um por cento de toda a mancha florestal nacional. As espécies mais antigas da família Quercus, representam a outra grande fatia dominante, com vinte e um por cento de sobreiros, quatorze de azinheiras e quatro de carvalhos. E são estas que melhor resistem ao fogo mas que estão ligadas ao montado e à produção de cortiça nas terras alentejanas e algarvias. A vertigem do lucro que o denominado “petróleo verde” que Salazar incentivou fez com que muitos dos pequenos produtores apostassem nesta via que a indústria do papel garantia como rentável. Mas isso fez-se desordenadamente e sem a orientação das autarquias e a responsabilização necessária na manutenção dos terrenos e vias de acesso.

Temos assim um território acidentado, de difíceis acessibilidades e pejado de aldeias e lugares literalmente rodeados de floresta. A estrada onde infelizmente pereceram dezenas de inocentes está entalada entre árvores resinosas e muito combustíveis, que com vento forte e a sua proximidade propiciam a que as chamas se propaguem rapidamente, fazendo das estradas corredores de morte para quem lá estiver nessas circunstâncias funestas.

Não sendo possível expropriar e desalojar pessoas de casas e terrenos que são seus há muito, mesmo que isolados em serras ou em vales profundos, urge organizar as matas e garantir a sua sustentabilidade e a segurança do quem vive nas suas proximidades. É certamente tarefa para longos anos e já virá tarde, mas cada dia que passa sem agir é mais um que nos levará nessa estrada negra até á próxima e expectável tragédia.

Não basta indignarmo-nos. E a nossa generosa solidariedade peca por quase iníqua face à dimensão das imensas perdas humanas e materiais que começam cada vez mais cedo no calendário. E o verão só começa daqui a dias e já vivemos esta catástrofe. Olhamos em frente e questionamo-nos sobre o que nos aguarda nesta época estival?

Estamos em ano de eleições autárquicas. Se há fator que deveria ser preponderante era o da gestão florestal e do território. E cada político ser devidamente confrontado com o que foi “prometido” e não cumprido e louvado ou recompensado nas urnas pelo que fez de bem e de acordo com os melhores interesses de todos. Para quando este despertar?

Este texto é uma chamada de alerta, uma partilha de cidadania e consciência cívica e também uma sentida homenagem aos inocentes que pereceram no terror dantesco que assolou toda a região de Pedrogão Grande e Castanheira de Pêra. Paz às suas almas.

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