O milénio da solidão

Opinião de João Fróis

Somos cada vez mais mas estamos cada vez mais sozinhos.

Este é provavelmente o maior paradoxo da atualidade. Num mundo em mudança acelerada, com conexões digitais à velocidade da luz, os conceitos de proximidade e amizade estão a perder a corrida. O fluxo de informação que nos chega através dos potentes smartphones é de tal ordem que o cérebro se está a adaptar de modo a não entrar em burnout, o lado negro da pressão em que vivemos. Não sendo possível acompanhar tudo o que se passa em nosso redor, visualizamos milhares de imagens e pequenos textos sem que nos liguemos verdadeiramente ao seu conteúdo. Assim acontece também nas relações. Socializamos à distância e quando estamos em modo presencial estamos a perder a naturalidade que os italianos imortalizaram como “dolce fare niente”, o culto do ócio, dos prazeres simples e do convívio puro entre amigos. Coisas que pedem tempo, relaxamento e mente aberta à partilha e à aceitação do outro e dos novos mundos que nos traz.

Perceber que na apelidada geração Y, os milennials, nascidos entre 1981 e 1999, também conhecida por geração da internet, um em cada cinco admite não ter um único amigo, mais do que nos levar a pensar, mostra o quão desconectados com a nossa natureza iminentemente social estamos. E nas gerações mais novas, nascidas em plena explosão digital, a tendência não será para melhorar. Com tudo o que isso traduz em felicidade e bem-estar, ou no caso, na sua perda ou desconhecimento na forma como os concebemos durante décadas.

Para a geração X, nascida entre 1960 e 1980, na qual me incluo interpessoais, ter crescido na rua entre dezenas de crianças com imensa sede de aventura, reveste-se de um saudosismo quase irreal e que a profusa máxima “ éramos tão felizes e não sabíamos”, tão bem traduz. Ou muito provavelmente percebíamos que estávamos a viver uma era dourada, de liberdade e uma inocência social onde quase tudo passava a ser permitido. Era a primeira geração que chegava á adolescência após a queda do Estado Novo e a sede de viver era tremenda, com as aventuras entre amigos a assumirem proporções mitológicas, tal a intensidade e fervor com que tudo era vivido e sentido.

Explicar esses tempos a quem não os viveu é além de difícil, inútil. Por muito que custe esses tempos dourados não voltam e o novo milénio trouxe novos paradigmas, mais tecnologia, mais possibilidades de ligação com milhares de pessoas mas também uma enorme desconexão social, onde tudo é ténue, frágil e individualista.

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Os mais maduros tentam adaptar-se aos gadgets, mesmo não os compreendendo, olhando os jovens com um misto de estupefação e de preocupação. Aldous Huxley revisitado, neste admirável (?) mundo novo…

*Artigo publicado na edição de julho do Jornal de Cá.

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