O não começar pelo princípio

Opinião de José Caria Luís

Há “princípio” e princípio. E se no “princípio” era o Verbo, aqui, neste ponto do artigo, já o mito vai tendendo para uma realidade palpável. Eu, como principiante nas crónicas do Jornal de Cá, também vou passar a fazer parte desse conceito de princípio.
Ora, tendo eu tomado conhecimento da edição do 1º Tomo de “Cartaxo, 200 anos do Concelho”, e constatado, através da leitura do mesmo, que, no que concerne à investigação, pesquisa e divulgação do historial demográfico e patrimonial, o Cartaxo terá, enfim, reconhecida a sua verdadeira identidade, cumpre-me expressar a minha congratulação pelo facto. E, segundo nos relata o seu autor, o historiador e investigador Miguel Montez Leal, esta sua obra de 12 Tomos terá, nesta fase, o seu epílogo por volta de 1910 – 1920.
Tudo isto vem a propósito das crónicas e artigos que me proponho criar, cujas narrativas ilustrarão o “modus vivendi” concelhio, entre as décadas de 40 e 70 do século XX, pelo menos. Porém, ao contrário do historiador que, com toda a lógica, começou pelo princípio, eu quase começo pelo fim. Dentro do confinado espaço que me é atribuído, será uma contribuição simples, tal como a simplicidade é apanágio das gentes ribatejanas. Na realidade, a matéria de que me vou “munir” para dar corpo aos textos, e que nada terá de histórico-científico; será mais o reflexo de cenas e vivências reais, entre a ruralidade e a urbanidade cartaxeiras, freguesias incluídas. Feitas estas considerações, o primeiro capítulo começa assim:
Em meados da década de 40 do séc. XX, no rescaldo da II Guerra Mundial, gente houve que, à custa da miséria alheia, encheu as gavetas, os bolsos e, provavelmente, o colchão, de dinheiro sujo, não ganho, antes roubado. Foi tal a vilanagem que se abateu por cá que muitos pobretanas, possuidores de uns parcos pés de vinha ou alguns alqueires de terra, se viram despojados das mesmas por pretensas dívidas aos fornecedores de géneros alimentícios. Como à época, devido à Guerra, não havia folhas de papel químico, e muito menos a já hoje defunta Xerox, o rol era só um: um livrito com folhas pautadas em que só o escriba lia a pauta. Os demais, os devedores, como boi a olhar para um palácio, nada percebiam daqueles gatafunhos, por isso o remédio era confiar no fiador e cara alegre, senão não comiam nas semanas seguintes. Pelo que ouvi da boca dos meus avós, os juros das dívidas eram de tal modo elevados que o fator multiplicativo rondaria os dez por cento à semana. Sim, era tudo semanal. Ganhava-se à semana, recebia-se à semana, comia-se e bebia-se, fiado, à semana e deveria pagar-se à semana, mas… É claro que, não raras vezes, este hebdomadário falhava, especialmente no domínio da agricultura. Bastava que a invernia fosse rigorosa, logo os trabalhadores rurais se viam a braços com uma crise que podia estender-se muito para além de uma ou mais semanas.
E o pior é que, mesmo tendo em conta a relatividade da época, e as mulheres não vestissem Carolina Herrera nem Intimissimi, sempre usavam lenços, aventais, corpetes, saias, anáguas e saiotes até os pés, o que, convenhamos, não ficaria barato. Porém, de pé-descalço.

 


 

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