O Olimpo português

 

“Invictamente”, por João Fróis

joao froisHá coisas que não se explicam, sentem-se, bem cá dentro, e que tudo revolvem e envolvem e parece nada deixarem como antes. Domingo, 10 de Julho, foi assim. O frenesim de um dia quente em que Portugal jogava o seu destino, em que o orgulho nacional era posto à prova, desafiado ao limite, muito para lá do que um normal jogo de futebol pode ditar. A nação unira-se ao longo de um mês e soltara aos ventos fantasmas antigos e dores de ossos amassados outrora, por duras pancadas que só já a alma podia lembrar. Jogava-se este sentir português, esta saudade de uma casa que é nossa mas que tantas vezes abandonamos dentro de nós próprios. E esta alma maior que vive em cada lusitano espalhado por esse mundo fora, sentia ser o seu dia, o dia da felicidade, da conquista, do orgulho de fazer, de ser, de chegar, enfim…

Doze anos após perdermos em casa a final que todos queriam ganhar, era agora hora de a jogar na casa gaulesa, desse povo que insiste em se manter imperialista quando essa miragem já há muito se desvaneceu. Éramos menos em número mas muitos mais em alma e fervor. Fomos menosprezados e odiados, expiámos medos de outros e aguentámos firmemente, estoicamente, até uma final em que poucos acreditavam, um mês antes.

Foi um caminho duro, sofrido e muito suado, mas foi trilhado e superado. Não por 11, por 21 em campo e mais, muitos milhões a puxar com uma fé inabalável, uma crença antiga, uma vontade de conquista como há muito não se via.

Nesta subido ao Olimpo acordámos dentro de cada um de nós boa parte do espírito dos nossos antepassados que se lançaram aos mares e às incertezas do destino com enormíssima coragem e abnegada resistência, com uma visão maior do que os horizontes que iam desbravar.

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Fomos agora mais portugueses do que nunca e menos “portuguese” ou “portugais” como muitos estrangeiros desejariam. Já o havíamos sido anteriormente, noutros torneios, mas faltara-nos a liderança e a fé maiores que o nosso selecionador encarnou magistralmente.

A sua confiança inabalável no desiderato feliz parecia coisa de loucos mas aos poucos a realidade foi-se impondo e dando corpo a uma crença feita de suor e lágrimas, de esforço e sofrimento, mas também de empenho e dedicação ímpares, de estoicismo a toda a prova, de trabalho assumido sem tremideiras nem medos paralisantes. Foi coragem imensa, foi fé iluminada, foram batalhas ganhas a pulso e das fraquezas se fizeram forças e, em singular união, se forjaram os alicerces de uma equipa imbatível. Sim, ninguém nos ganhou e isso já vinha de trás. Essa consistência é louvável e assenta num caráter imenso, num espírito de grupo trabalhado ao pormenor, numa partilha irmanada em que todos se entreajudam até ao limite. É deste espírito inquebrantável que se forjam os campeões e foi com a alma lusa em ardentes chamas de conquista que ousámos subir ao Olimpo e ali firmar a nossa bandeira, acima de todas as outras.

Para tal, trocámos a beleza do jogo pela virtude da conquista. Deixámos a finta de encher o olho e metemos o pé, largámos os bailados magistrais dos nossos artistas e de macacão vestido agarrámos o destino em cada jogada, em cada lance disputado, em cada bola que pairava. O bonito fez-se feio, mas a desilusão fez-se sonho! E fomos talvez mais portugueses do que nunca ao saber ser tão lutadores pela (re)conquista do nosso orgulho perdido na história. A mais velha nação unificada da Europa cerrava os dentes e, contra tudo e todos, mostrava uma garra férrea e uma poderosa alma que ia superando todos os obstáculos, sem perder chama, antes ganhando as asas do sonho ali à mão.

A confiança em nós próprios foi determinante e Fernando Santos soube ser o timoneiro da esperança e o mestre da sua glorificação. Foi ele que uniu e conduziu, em uníssono, uma equipa de trabalhadores e uma estrela que soube ser operária. O espírito de equipa teve aqui, quem sabe, uma das suas mais belas páginas de sempre. Viu-se, sentiu-se, palpou-se. No calor humano que os nossos emigrantes tão bem souberam dar, sem falhar, à equipa do seu Portugal. Nesse amor à pátria que os nossos guerreiros encarnaram e tanto dignificaram. A final dava em si mesma, um filme. A emoção nervosa do arranque, a lesão do capitão e as suas lágrimas de sofrimento, apaziguadas pelo beijo esvoaçante de uma traça. O reencontro da equipa na perda, o cerrar fileiras e a manutenção da ordem, unida e firme, na luta de cada espaço, na conquista de cada bola.

O tempo correu e a equipa soltou-se, assumindo a sua fé, a sua sede de vitória. Num prolongamento já habitual, foi um herói improvável, lançado pelo mestre e pela sua fé, que tudo decidiu e fez soltar o grito fundo de anos de mágoas choradas a sangue. Os segundos finais foram dramáticos, com os gauleses incrédulos, mas incapazes de contrariar esta força lusa, qual ala dos namorados, focada em ganhar a batalha final. Ganhámos, por fim, o jogo e sagrámo-nos justos campeões europeus! Por fim, chegámos ao Olimpo e fomos felizes. Por fim, honrámos todos os que durante anos tanto tentaram e nunca alcançaram. Gerações de grandes jogadores e adeptos tiveram agora o seu momento de glória e puderam sorrir e festejar de braços ao alto. Dobrámos o Bojador dos tempos modernos e conquistámos o nosso orgulho nas nossas capacidades e valor.

Esta vitória é tudo isto e muito mais. É sentir e saber que somos bons, que somos fortes e capazes, que sabemos fazer, que podemos alcançar aquilo a que nos propomos, que podemos e merecemos ser felizes. Acabou o quase. Outra era começa agora. A de ganhar muitas vezes e sempre com este respeito pelos adversários, pelo jogo, por todos os povos e credos. Foi assim que fomos império, será assim que seremos futuro! Viva Portugal!


 

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