O País amarrado

Opinião de João Fróis

Escrever é um ato de liberdade e serve tantas vezes para aliviar dores e tensões éticas ou morais que de outra forma não se alcançam. Não sei se é da ressaca de um domingo terrível, abafado, de um céu negro de fumo das centenas de incêndios que lavraram e ainda consomem floresta a esta hora. Pode ser da raiva de uma vez mais estarmos entregues a este terror das chamas e de todos os perigos que vêm com elas. Sabe-se agora que morreram pelo menos dez pessoas ontem, vítimas destes fogos que cercaram regiões inteiras e consumiram tudo à sua volta.

Pode ser do desânimo de viver num país que lida com grandes incêndios há décadas e que de efetivo nada fez para solucionar este imenso problema. Pode ser tristeza por todos os que morrem inocentemente às mãos de incêndios dantescos. E será com certeza uma revolta profunda por estarmos todos entregues a incompetentes que falam muito mas que pouco ou nada fazem de concreto para, de uma vez por todas, resolver as questões de fundo que urgem ser atacadas de frente e com coragem. Está a circular nas redes sociais um vídeo de ontem, filmado por um condutor na A17 na zona de Vagos. O pânico é visível e conseguimos quase sentirmo-nos na pele daquele condutor que, por momentos, pensou que não iria sair dali vivo. Transportemos estas imagens Portugal dentro, para aldeias cercadas pelas chamas, estradas cortadas pelo fogo, o laranja dantesco a iluminar a noite nos vales e serranias que cobrem o país a norte do Tejo e talvez, por momentos, consigamos ter um vislumbre do medo, do terror e desespero de todos aqueles que tiveram e ainda têm de enfrentar estes demónios poderosos. Entretanto parece que finalmente alguma chuva chegará e poderá ajudar a apagar as chamas que ainda lavram e a baixar o imenso pó e cinzas que cobrem este país entristecido. Oxalá assim seja para aliviar estas dores tamanhas.

Tantas perguntas e tão poucas respostas. Tudo por fazer na gestão do território nacional e vemos os políticos atarefados com questões populistas de identidade de género e permissão de animais de companhia em restaurantes. Haja decência. Respeito. Por muito que essas questões mereçam atenção há todo um mundo de situações a carecerem de intervenção urgente, absolutamente prioritária, mas na ressaca dos mortíferos incêndios de Pedrogão Grande, há três meses, o que vimos tem sido uma vergonha despudorada de alívio de consciências e culpas. Ninguém quer assumir o que quer que seja e todos se furtam a “chamar os bois pelos nomes”.

Desculpem-me os que me leem, mas estou cansado deste país mesquinho, medíocre e ignorante. Estamos no séc. XXI mas vivemos num território gerido tal como no séc. XIX ou ainda mais atrás. Temos uma classe política que vive para as estatísticas, para o défice, para o bem parecer face às instituições internacionais. E que se alardeia de uma balança comercial positiva na boa onda de um turismo de massas que assentou arraiais nos grandes centros. Hipocrisia total, vender a imagem de um país fantástico, bonito e preparado para receber todos os que cá quiserem vir gastar as suas economias, mas que deixa populações inteiras entregues à sorte e a debaterem-se entre a vida e a morte em meses seguidos de chamas. E nem sequer colhe, para já, o adágio do ladrão, em que após o roubo se soltam as trancas à porta. Não, estas imensas portas continuam escancaradas a tudo o que por elas quiser passar, sejam fogo ou inundações, abalos sísmicos ou fenómenos climatéricos extremos. O clima mudou e continuamos com regras no papel que compartimentam as épocas de incêndios entre um de julho e trinta de setembro. Ironia trágica, os grandes incêndios de Pedrogão foram a meados de junho e os de ontem a meio de outubro.

Os climatologistas há muito que avisaram que os antigos ciclos das estações terminaram e que cada vez mais iremos enfrentar secas prolongadas, vagas de calor fortes e chuvadas irregulares mas potencialmente destrutivas por ocorrerem em curtos espaços de tempo. A península Ibérica está na linha da frente deste aquecimento imparável e de todas as problemáticas da gestão de água e território. Nada fazer e deixar que seja a chuva a trazer alguma normalidade é, além de incompreensível, uma negligência grosseira e dolosa que já contabiliza, infelizmente, largas dezenas de mortos só nos últimos três meses. Entre feridos, destruição florestal e patrimonial, perda de biodiversidade e recursos, populações empobrecidas e despojadas de dignidade e esperança. É este o país que somos. Sem desculpas nem filtros. Mas não vejo coragem nem bravura para assumir as falhas e meter mãos à obra. O meu filho do meio, nos seus quase dez anos de vida, diz que não gosta de ver noticiários pois só mostram tragédias. Para lá dos critérios jornalísticos, que não cabem aqui agora, existe uma verdade inegável nesta imagem que o afasta das notícias. Portugal vive em sobressalto constante e nos meses de maior calor o fogo é presença diária nas nossas vidas. Senão nos écrans, na vida cá fora. Ainda ontem na autoestrada vimos chamas a queimar eucaliptais e viajámos debaixo de intenso fumo negro. Foi assim no passado fim de semana, foi assim noutras tantas ocasiões em que o fumo está sempre no horizonte próximo. E ao viajar neste Portugal “de pequeninos” nunca sabemos quando iremos ficar retidos numa qualquer estrada por um destes incêndios que “insistem” em acontecer uns atrás dos outros, pondo as nossas vidas em real perigo.

Já o afirmei várias vezes e mantenho a minha opinião intacta, quase 100% dos incêndios em Portugal têm origem criminosa, seja dolosa, com intenção de causar danos, seja negligente, por não se terem acautelado os perigos de fazer fogo. A natureza só arde por si em situações facilmente identificáveis, trovoadas que causem ignições por raios, lava vulcânica e pouco mais. Tudo o mais é de origem humana! Não tenhamos dúvidas nenhumas sobre isto. A pergunta que urge fazer é, quem está por trás de tudo isto? Ontem foram registados mais de quinhentos incêndios, pasme-se. Como é possível acontecer tal tragédia? Muito se fala em cartéis de fogo. Se existem suspeitas acabe-se desde já com os contratos com empresas privadas que detêm os meios aéreos com que se combatem os fogos florestais. A polícia judiciária já deteve dezenas de suspeitos de atearem fogos, só neste verão e outono. Há que endurecer as molduras penais e evitar que a revolta popular queira fazer justiça pelas próprias mãos. Mas o exemplo tem de ser dado pela lei e pela sua execução, com molduras agravadas e penas efetivas para quem insiste em queimar a floresta. Mas muito mais haverá por detrás de tamanha catástrofe. Terrorismo ambiental é algo que nos deve preocupar e que temos de considerar seriamente. E Portugal, com uma floresta desordenada, cheia de matéria combustível e a braços com um seca prolongada e severa, reúne todas as condições para que o fogo alastre facilmente e transforme este país num verdadeiro inferno.

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Ainda há poucos dias decorreram eleições autárquicas mas pouco ou nada vi relativamente a preocupações com a gestão florestal e de ordenamento do território. Essas devem ser competências locais, com jurisdição direta sobre o terreno e as propriedades. Identificar quem é o quê, o que faz, quer ou pode fazer na gestão dos terrenos e tomar decisões, por mais duras que sejam. Expropriações por utilidade pública têm de estar em cima da mesa. E toda uma série de medidas que até já existem no papel mas que tardam em ser aplicadas. Entretanto o país vai ardendo, os políticos vão-se entretendo a sacudir a água, ou neste caso a cinza, dos seus capotes, e nada se vislumbra de inteligente, de devidamente estruturado ou pensado, de planeado e melhor decidido. Este país precisa de pessoas que se sentem à mesa e queiram abraçar os problemas de frente e enfrentar os reais problemas que já nos assolam. E acabar com esta realidade que nos tem amarrados há tempo a mais a uma sensação de inevitabilidade e incapacidade para darmos a volta ao que nos preocupa e atormenta. Gerir o território de forma capaz, corajosa e efetiva é uma absoluta prioridade. Adaptar a floresta às novas condições climáticas é imperioso. Melhor gerir os recursos hídricos e prever fenómenos de seca prolongada tornou-se imprescindível.

E o povo português o que faz? Encolhe os ombros enquanto se banqueteia num qualquer centro comercial, atulhado de gente mais preocupada com o próximo smartphone do que com o futuro do país? Ou anda a braços com os seus bens e vida, a lutar contra as chamas que o ameaçam? Cada vez mais temos um país desigual, entre um litoral e grande centros com 80% da população e os demais 20% literalmente espalhados num território acidentado e “cercado” por uma floresta desordenada e cheia de biomassa pronta a arder. Quem manda neste país vive longe deste mundo rural e entregue à sua sorte e que ainda por cima insiste em arder. Um verdadeiro aborrecimento para os centros do poder. Por isto e muito mais as autarquias têm de ter mais poder sobre a gestão do território, sendo quem o melhor conhece e pode e deve atuar no seu planeamento, ordenamento e atribuição de responsabilidades administrativas. “Ai Portugal, Portugal de que estás à espera..”, reza a canção de um autor nacional, com já alguns anos. Assim continuamos, à espera que tudo se resolva num passe de mágica… até um dia em que alguém irá resolver por nós!

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