O paraíso aos papéis

Opinião de João Fróis

A sabedoria popular, bem assente na observação da natureza, diz-nos que quanto mais mexermos em estrume, pior será o cheiro que liberta. Vai assim o mundo, com as capas de verniz opaco e ressequido a estalarem de vez e a mostrarem os imensos podres que subjazem nas entranhas desta civilização de mentiras. As recentes revelações dos Paradise Papers apenas vêm demonstrar o que temos vindo a perceber com cada vez mais clareza, ninguém está a salvo desta imensa teia de corrupção à escala planetária. São países, governos e empresas de topo a recorrerem a paraísos fiscais para fugirem às suas obrigações fiscais e assim engordarem os seus lucros e contas. É uma vergonha sem fim que nos ajuda a entender que somos cada vez mais tratados como um rebanho, conduzido pelas leis que nos impõem e castram, de modo a alimentarmos imparavelmente esta torrente despudorada de milhões a serem sorvidos pelos poderosos, mestres do reino das sombras.

A perversão é tamanha. Governos que promovem leis e executam orçamentos restritivos para os contribuintes, penalizando-os, são os primeiros a furtarem-se às suas obrigações. Exigem e punem de um lado e fogem qual criminoso, do outro. Se a legitimidade da sua governação já é posta em causa pela ineficácia constante, que dizer face a esta vergonha agora conhecida? Portugal não consta para já nesta lista de prevaricadores dourados mas isso não significa que estejamos incólumes nesta patranha mundial. Até porque escândalos financeiros internos é do que mais temos tido, basta recordar as siglas BES, BPN, entre outros.

Há algo que se torna evidente, o sistema mundial prevalente, este capitalismo selvagem que muitos dizem amestrado, está em crise total, senão em colapso iminente.

A falência dos Estados enquanto garante maior dos destinos das nações é uma verdade incontornável. Demitiram-se de um papel de liderança e supervisão de toda a atividade política e económica e entregaram aos grupos financeiros as decisões que afetam povos inteiros, sob o manto protetor das leis que são geradas nas assembleias legitimadas pelos votos sacrossantos desses mesmos cidadãos desprotegidos e entregues a gente sem escrúpulos nem pingo de moral que lhes assista.

Vai assim este mundo. Sujo por dentro e por fora. A aquecer imparavelmente em escassos anos e a tornar previsíveis os piores cenários de fome, seca e guerras pelos bens essenciais. Mas a cegueira financeira segue incólume, numa espiral destrutiva dos bens que este planeta ainda consegue gerar, para gáudio de alguns e desespero de milhões.

Uma pergunta impõe-se sobre todas as demais: até quando iremos tolerar este ataque vergonhoso à dignidade de povos inteiros, à viabilidade de nações e ao futuro do planeta? Estão em causa muito mais do que milhões, corrupção e crimes. O que verdadeiramente está na linha de fogo é o futuro desta civilização e os sintomas de que as doenças grassam a enorme velocidade estão à vista de todos. Vamos deixar que quem as provocou se aproveite das mesmas para se banquetear com o que resta? Ou vamos impedir que esta loucura destrutiva e destruidora acabe de vez? Cabe a cada um, em consciência, achar dentro de si a resposta e agir em conformidade. O humanismo tem de ser a resposta!

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