O povo falou

"Luís Montenegro terá uma árdua missão após a previsível indigitação de Marcelo Rebelo de Sousa, com um governo minoritário e a ter de disputar cada peça na assembleia da república, com um PS que assumiu desde logo a sua liderança na oposição e um novel Chega que, uma vez frustradas as suas ambições de entrada na governação, terá provavelmente uma atitude dura e difícil face a um governo que a renegou". Invictamente, por João Fróis

Assim foi de facto, com a expressiva subida do Chega, quadruplicando o número de mandatos e afirmando a sua marca identitária nas eleições legislativas de ontem, dia 10 de março, deixando a vencedora AD com uma vitória na linha de meta e algum amargo de boca e o PS com uma derrota notória mas que não belisca as ambições de Pedro Nuno Santos, para um plano de menor destaque.

Luís Montenegro terá uma árdua missão após a previsível indigitação de Marcelo Rebelo de Sousa, com um governo minoritário e a ter de disputar cada peça na assembleia da república, com um PS que assumiu desde logo a sua liderança na oposição e um novel Chega que, uma vez frustradas as suas ambições de entrada na governação, terá provavelmente uma atitude dura e difícil face a um governo que a renegou.

Da noite eleitoral saem várias ilações a tirar.

O chega capitalizou uma vaga de descontentes com o velho arco do poder, simbolizados na alternância entre o PS e o PSD, e as sucessivas falhas face aos programas e às promessas de campanha. A débacle da maioria absoluta de António Costa, com demissões em catadupa e dossiers polémicos como a TAP a ensombrarem os resultados positivos nas finanças públicas, e as crises na saúde pública, na educação e na habitação, levaram milhares de eleitores a corporizarem o seu descontentamento com o voto de protesto no Chega. Mais que correrem atrás das mil e umas promessas fáceis de tentarem agradar a tudo e todos, terá sido a oportunidade de terem um rosto que desse bandeira às muitas causas que há muito calavam e não tinham quem as assumisse de viva voz. André Ventura vestiu a capa messiânica e foi o grande herói da noite, almejando o que tanto tinha alardeado, o fim do bipartidarismo em Portugal. Se é para vingar veremos, mas que agitou sobremaneira a velha realidade disso não há qualquer dúvida. O Chega terá ido buscar uma larga franja dos habituais eleitores que habitualmente oscilavam entre o centro esquerda e o centro direita, penalizando o PS, e terá conseguido levar a votar muitos dos habituais abstencionistas e quem sabe, alguns dos que nunca votaram anteriormente.

Em boa verdade o panorama que agora se abre é em tudo novo. Após António Costa, o mestre da tática, ter apeado Pedro Passos Coelho do seu palanque vitorioso com a célebre gerigonça, surge agora um partido que põe em causa as velhas lógicas democráticas e promete tudo fazer para reformar um país conservador e adormecido. O país dos brandos costumes pode ter terminado ontem com a vitória de André Ventura. Garantidamente nada ficará como antes e iremos viver tempos conturbados, com muita crispação e instabilidade e batalhas duras na “arena” da democracia, onde existirão gladiadores a acirrar cada tema e projeto e a fazerem valer a sua força legitimada nas urnas por mais de um milhão de eleitores em todo o país.

Como mancha da noite eleitoral a polémica corporizada pelo ADN, esse pequeno partido anti união europeia e que obteve cerca de 100 mil votos e que segundo vários testemunhos, terão sido na sua maioria erros de interpretação de votantes mais idosos e menos esclarecidos e que queriam votar sim na AD. Confirmando-se este desvio por erro de perceção, poderão ter fugido 3 mandatos à AD. Não seriam suficientes para obter uma maioria, bem longe desse objetivo, mas poderemos ter aqui uma situação desviante que a CNE teria de ter acautelado. Democracia também passa pelo direito à informação e prevenir erros grosseiros que resultem em deturpações da vontade dos eleitores.

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Também vencedor foi o Livre. O seu líder soube passar a mensagem suave de uma esquerda verde e alternativa, que não ficou colada aos anos da geringonça, e consegue assim um grupo parlamentar em crescendo, em claro contraste com o lento emagrecimento do último partido comunista europeu.

Estacionários, quer a IL, firmando um cunho liberal na política nacional, e o BE, com a sua nova liderança que não conseguiu aproveitar a crise do desgaste socialista para se afirmar.

Temos assim um panorama complexo e que no limite poderá resultar numa crise por altura da aprovação do orçamento para 2025. A confirmar-se, poderemos vir a ser novamente chamados a eleições no início do próximo ano, adiando assim o ímpeto reformador do novo governo. A instabilidade, tão odiada pelo PR, poderá ser o mote dos próximos tempos na política nacional. Pelo meio veremos qual o compromisso de cada partido com os seus programas e o bom senso na apreciação quer dos projetos de lei, quer da cooperação institucional em nome do superior interesse da população e do seu bem-estar. A partir de Abril ventos mil. Que sejam de bonança.

Isuvol
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