O povo que ainda canta

Opinião de Carlos Gouveia

Os ossos do ofício da profissão que tenho exigem que algumas vezes faça serões a trabalhar pela noite dentro. Quem me faz companhia nestes serões são imagens que vêm da televisão, com o som muito baixo ou mesmo desligado, e música de todo o mundo das pequenas colunas do computador.

A internet, essa maravilha que anda por aí em todo o lado, que é a segunda melhor invenção de sempre a seguir à máquina de gelados, tem tudo. E no que diz à música, tem mesmo tudo ou quase tudo. Até velhotas a dissertar trava línguas, como uma cabra caga trapos, outra cabra trapos caga. Cansado da música da rádio que se ouve todos os dias, tenho descoberto músicas, vozes, modas e cantares que são tesouros inesquecíveis de ouvir no silêncio da noite, ficando na minha cabeça os sons dos adufes e das mulheres a cantar o “ai, ai” bem alto, quando ainda consigo dormir à pressa antes de acordar.

O cancioneiro do movimento “música portuguesa a gostar dela própria”, que já é um vastíssimo património nacional, foi fruto do trabalho peregrino do Tiago Pereira e os seus amigos, que recolheram testemunhos e memórias, ao longo de vários anos.
Despertaram e continuam a despertar a procura da vida de outros lugares que não conhecemos por esse Portugal que é nosso, que pensávamos que já não existisse, tal é a quantidade de aldeias, gaitas de foles, acordeãos, bombos e cavaquinhos, com as vozes de Zés e Rosas a cantarem e a dançar chulas, rusgas e desgarradas.
Até a música “Às quatro da madrugada” é magistralmente tocada com pêlos do nariz numa gaita de beiços, pelo senhor Manuel Azenha Ferreira, que é natural de Chãos, Rio Maior. A moda que não me sai da cabeça é alentejana, com pronúncia de Castelo de Vide. Foi gravado no Festival Andanças o ano passado, com um grupo de raparigas que se chamam Sopa de Pedra. É irresistível ouvir os primeiros versos a uma só voz: Já os galos cantam,

Ó meu amor, vai-te.
Onde me hei-de eu ir,
Coração, e deixar-te?
Que tenham uma boa noite, até que o galo cante.

Cansado da música da rádio que se ouve todos os dias, tenho descoberto músicas, vozes, modas e cantares que são tesouros inesquecíveis de ouvir no silêncio da noite

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