O princípio do fim

Opinião de João Fróis

O mundo está numa encruzilhada sem saídas fáceis. 2030 foi o ano definido pelos cientistas e climatologistas como o “no turning point” desta escalada de aquecimento global, precavendo que o planeta aqueça mais que 1,5 graus centígrados e evitando assim males maiores para toda a vida tal como a concebemos.

Mas se olharmos o mundo não é previsível que esse desiderato seja possível. Basta atentar ao choque titânico entre o bloco ocidental e os mais populosos e mais poluidores países do mundo, Índia e China à cabeça. A Índia pede justiça no acesso aos bens primários e que permitem qualidade de vida e dignidade, suportadas pelas benesses que a indústria assente em combustíveis fósseis proporciona. E em boa verdade tem razão quando nos faz lembrar que o ocidente beneficiou em larga escala de 150 anos de uso e abuso de todas estas regalias e que agora é tempo de também eles poderem beneficiar em prol da imensa população sedenta de conforto, nutrição e entretenimento. A hipocrisia ocidental é refinada. Incentivou a fábrica do mundo a produzir barato o que o consumismo mundial pedia. E isso foi conseguido com custos altíssimos. Poluição avassaladora do ar e rios entupidos de plástico são apenas duas das imagens mais impactantes deste drama. Dez dos rios que mais debitam plásticos de toda a ordem nos oceanos estão precisamente neste dois colossos que juntos, abrigam um terço da população mundial. Foi inevitável chegar até aqui com base nos modelos de produção desenfreados e apenas de olhos postos no lucro.

Para inverter esta tendência suicidária há que haver um compromisso forte do ocidente. Não apenas dar o exemplo, algo que os EUA infelizmente não querem atualmente, mas também colaborar ativamente na implantação de modelos produtivos limpos e que proporcionem emprego e retorno financeiro. O desafio é hercúleo mas possível. Até porque não temos outro caminho. A extinção de espécies antevê o pior dos cenários. Em 50 anos desapareceram milhares de formas de vida que levaram milhões de anos a evoluir. É esta a escala invisível que está a destruir a base orgânica em que a vida assenta. E tudo acontece diariamente aos nossos pés, basta estar atento. Mas quando vemos a vertigem consumista que uma Black Friday despoleta, com hordas de acéfalos consumidores de estupidificantes gadgets, a esperança morre um pouco mais e a fé ganha contornos de milagre.

Quando a água escassear e os bens alimentares forem inacessíveis, o caos chegará em força e o mundo tal como o conhecemos desaparecerá rapidamente. Muitos continuam a acreditar que são apenas teorias catastrofistas. Antes fossem, mas cada vez mais se tornam no destino próximo desta civilização decadente, materialista e egocêntrica. O século XXI poderá bem ser o do fim dos tempos. Ainda acredito que há tempo para o impedir. E a sua fé como está?

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