O recurso da confiança e a humildade de nos sentirmos rodeados de génios

Por Ricardo Magalhães
A confiança, a humildade e a sobranceria são conceitos tendencialmente pouco claros e que muitas vezes se sobrepõem. Parece difícil definir o caráter de um ser humano de acordo com estes atributos. Há quem diga que a humildade desaparece no preciso momento que acreditamos tê-la. E quantas vezes a confiança não é percecionada como sobranceria?

Pensava no outro dia, o quão fácil é a confiança fazer-nos entrar numa reunião, discussão ou conversa com a sensação de que as pessoas à nossa volta não têm nada para nos ensinar ou de interessante para dizer. Depois pensei, substituindo essas pessoas pelos maiores génios nas áreas em debate, rapidamente a nossa perspetiva muda e despertamos a nossa total atenção para aquilo que nos têm a dizer.

No entanto, ao fim de um tempo a ouvir estes segundos intervenientes em diversas reuniões, a expectativa de os ouvir cai decisivamente e, à medida que nos vamos também especializando nos assuntos, as nossas perspetivas de aprendizagem acabam por baixar.

Se pelo contrário, a confiança em nós mesmos for baixa, a expectativa de ouvir essas pessoas tende a não baixar (pode até mesmo aumentar), mas gera-se tipicamente em nós um sentimento de incapacidade, impotência e desânimo cada vez maior por não conseguirmos ser como aquelas pessoas.

Ou seja, para que o nosso rendimento e participação sejam potenciados necessitamos de ter a maior confiança nas nossas capacidades (mesmo que possa ser confundida com sobranceria), e mais ainda na nossa apetência de as desenvolver. Mas nunca percamos a magia e a humildade de entrarmos numa conversa ou discussão com abertura de aprender com quem quer que seja, como se de o maior génio do mundo se tratasse.

Essa ansiedade e magia são de uma beleza e valor inestimáveis. Essa empatia e esperança de uma dimensão humana incalculável. E o maior prémio é a constatação de que estaremos mesmo a aprender com toda a gente. Qualquer que seja a pessoa com quem falamos será um especialista maior que nós em algum assunto ou questão. E mesmo no assunto que não o são temos a aprender com a sua ingenuidade e simplicidade de pensamento.

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No fundo, creio que esta crónica foi uma deambulação pelo gosto de conversar, trocar ideias e conhecer as histórias das pessoas com quem falo. Uma ligação humana muito forte nasce das interações que temos com os outros e procuro ao máximo tirar prazer desses diálogos e partilhas.


*Artigo publicado na edição impressa do Jornal de Cá de julho

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