O regresso da caça às bruxas

Opinião de João Fróis

Vivemos tempos estranhos e conturbados e ninguém pode alhear-se desta realidade que nos chega diariamente, olhos dentro, pelos meios de comunicação e muito através das redes sociais. Estas plataformas digitais transformaram-se num fenómeno à escala mundial e são milhões os que se ligam e comunicam nestas vias. E face aos efeitos diversos que provocam na sociedade estão a causar polémicas e a tornar evidentes muitos dos males sociais que nos apoquentam e devem fazer refletir.

O recente caso do jovem que humilhou um sem abrigo na Amadora, lançando-o para dentro do contentor de lixo que vasculhava, ganhou agora contornos mais negros que a pele do estouvado delinquente. A verdade é que o seu corpo foi encontrado numa vala, moribundo, vindo a falecer face a violenta agressão de alguém ainda não identificado. Existem suspeitas de ter sido um grupo de justiceiros que quiseram fazer justiça pelas próprias mãos e assim punir severamente um jovem que tinha cometido um ato lamentável. Mas agredi-lo até à morte não é muito pior e ainda mais lamentável??

Chegados aqui as preocupações ganham novos contornos e urge estancar esta hemorragia social o quanto antes, sob pena de alastrar e causar danos ainda maiores na paz social. Os exemplos mais uma vez têm de vir de cima e das autoridades competentes. Cabe identificar os homicidas e puni-los rápida e objetivamente e fazer passar a mensagem correta de que as instâncias policiais e judiciais funcionam e tudo fazem para manter a ordem e fomentar a segurança da população.

Os princípios legais têm de continuar a ser imperiosos e inegáveis a todos e a sua defesa tem de ser forte e inquestionável. O tempo da caça às bruxas, em que se mandavam para a fogueira pretensas feiticeiras e opositores da fé reinante e dos poderes a si ligados, tem de continuar a figurar apenas nos livros da História e como um mau exemplo de que a “vindicta” não é de todo um caminho defensável e tolerável.

Voltemos às redes sociais. Estas são hoje um espelho da sociedade com tudo o que de bom e menos bom ostenta. Mas em boa verdade os males que vai mostrando estão a asfixiar as bondades da comunicação célere, dando pasto aos justiceiros de bancada que criticam tudo e todos, cobardemente assentes no anonimato ou distanciamento que o digital permite. Assistimos a correntes de críticas a tudo e todos os que de alguma forma estão sob mira dos holofotes sociais, sejam figuras públicas, políticos, desportistas ou qualquer outro que tenha intervenção “censurável” na sociedade. E a censura é notória e assanhada, não poupando ninguém. Os justiceiros estão agora confortavelmente sentados algures a escreverem o que bem entendem e a atacarem os alvos que acham merecedores de reprimenda. Daqui até às ofensas bárbaras e execráveis é apenas um passo. E as evidências estão à vista, basta navegar nas redes e logo tropeçamos nesta imundície social. O que antes corria no boato, nas conversas de café e em surdina, surge agora sem pejo nos escaparates digitais, enlameando o bom nome dos que foram visados pelos ataques à sua dignidade e bom nome. Os linchamentos são agora exercidos na “magistratura” incendiária de uma corrente imparável que a tecnologia alimenta e propaga vertiginosamente. O momento é agora e tudo se pode julgar na hora. Sem apelo nem agravo para os acusadores mas com danos evidentes para muitos dos acusados. Esta triste realidade deveria preocupar-nos a todos e fazer elevar a fasquia de exigência com que se usam estas redes. Sob pena de deixarmos que os justiceiros se sintam confortáveis e comecem a passar das palavras à ação como agora, com grande probabilidade, sucedeu, infelizmente.

Emanuel Macron tomou a decisão de proibir os telemóveis e smartphones nas salas de aula, pelos sinais evidentes de perturbação que os mesmos estavam a provocar no rendimento dos alunos e na ordem escolar. São boas notícias face ao alheamento que estes aparelhos promovem mas também pela sua utilização indevida em filmes de bullying e no efeito pernicioso dessas agravantes enquanto combustível para as fogueiras onde ardem as bruxas da intolerância. Não me espantará que em breve possam vir a ser decretadas proibições de uso dos aparelhos em mais locais, a exemplo do que sucede com os cigarros e que venha a ser criado um cadastro de utilizador digital, criando um histórico do tipo de uso que cada um faz e sujeito a punição criminal. Atentemos, pois os ventos de mudança estão a caminho e nem todos irão varrer apenas os supostamente maus. Mais uma vez o justo poderá pagar pelo pecador. Ainda assim tudo será melhor que deixar que o crime compense e se alimentem o caos e os linchamentos. Haja paz, saibamos lutar por ela.

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