Obrigada, querida professora Cristina!

Causa Pública, por Elvira Tristão

Fiz o então chamado ensino primário numa escola do plano centenário rural, de duas salas, para quatro anos de escolaridade, na transição do antigo regime para o regime democrático. Se me perguntarem onde estava no 25 de abril, dir-vos-ei “na primeira classe!”.

Da primeira classe recordo-me bem das batas brancas, da sala de aula em modo de autocarro e, vagamente, de um retrato sobre o quadro preto de ardósia. E da quarta classe lembro-me das intermináveis horas a resolver exercícios de matemática. Confesso que nunca apreciei esta disciplina, facto que hoje lamento. A insistência, por repetição, nem por isso me fez gostar ou desenvolver esta área do conhecimento. A inteligência linguística, assim como a intrapessoal e a interpessoal, sempre foi predominante na minha aprendizagem, ao contrário dos meus colegas professores de matemática com uma mais desenvolvida inteligência lógico-matemática, ou os colegas das expressões a espacial-cinestésica, a espacial e a musical, conceitos definidos na teoria das inteligências múltiplas.

Felizes foram a segunda e a quarta classe em que a professora Cristina revolucionou a sala de aula. Tínhamos as pesadas carteiras de dois lugares agrupadas em u onde seis alunos interagiam e se entreajudavam nas tarefas propostas pela professora. Às mães foi pedido que construíssem almofadas recheadas com serradura e fazíamos exercício físico no alpendre traseiro. Quando se proporcionava tínhamos as aulas de estudo do meio no pinhal da rola, e nas paredes eram expostos os trabalhos coloridos que elaborávamos. Não sei se a memória me trai, mas, à distância do tempo, tenho a ideia de que a professora Cristina cultivava o gosto por aprender e promovia contextos de aprendizagem colaborativa. Para além do gosto por aprender e do respeito pela diversidade curricular, guardo com gratidão os valores que, implicitamente, nos transmitiu.

Quanto ao meu exame da quarta-classe, recordo-me do trauma de ter de o realizar com uma caneta de aparo, quando tinha passado os quatro anos a escrever com esferográfica ou lápis. Nunca mais voltei a escrever com caneta de aparo, nem me fez falta.

Evoco estas memórias a propósito do presente, para refletir sobre o que mudou. E também sobre o que não mudou. Em breve os meninos de segundo ano vão fazer provas de aferição online, usando o computador. A diferença entre esta experiência, que muitos vaticinam traumática, e aquela por que passei é que eu não voltei a usar a caneta de aparo, enquanto o computador será, para eles, a ferramenta do futuro. Ou não será do presente? O investimento na transição digital – embora incompleto – está aí e não pode servir só para usar em atividades peri-escolares.

Já sobre a diversidade e transversalidade curricular, pergunto-me se, ao usarmos predominantemente os tradicionais testes de avaliação, não estaremos a privilegiar aqueles que têm mais desenvolvida a inteligência linguística. Aos mais conservadores adianto que não defendo o fim dos testes ou dos exames, mas maior diversidade de instrumentos de recolha de informação, nem tão pouco defendo um ensino customizado. Decerto não passaremos da velha gramática da escola de “ensinar a todos como se fosse um só” para “ensinar a cada um o que precisa ou deseja”. Entre um e outro extremo haverá naturalmente a necessidade de introduzir mudanças, pois, como escreveu Einstein, “Insanidade é continuar a fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes. E, voltando às memórias, as “novas pedagogias” já cá andam há mais de um século. Mas às vezes esquecemo-nos. Obrigada, querida professora Cristina!


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Texto publicado na edição digital de maio do Jornal de Cá, que pode aceder aqui

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