Os Académicos e os Laborais

Opinião de José Caria Luís

Eles, estudantes, estariam sujeitos à implacável triagem inserta na pauta afixada na moldura do átrio. Ora, este critério também deveria ser aplicado aos outros segmentos que geravam empregabilidade: porque, se no Ensino este era o modo de minorar o número de cábulas que, ano após ano, sem aproveitamento bastante, andavam por lá a passear os livros, enquanto não os pusessem na rua, também nos restantes setores, mormente naqueles que se enquadram no tecido empresarial do concelho, seria de todo conveniente fazer a destrinça entre o bom e o mau profissional. Tanto os cábulas como os toscos e calaceiros, só por cá andavam a fazer o pão caro. Mas, como “a cada cabeça, sua sentença…” cumpria-se a máxima épica.

Fechado que estava o tema relacionado com os académicos, era chegada a vez de encaixar os outros, os restantes formados com a 4ª classe (como disse o Solnado). Como era sabido, o sistema não se compadecia de moralismos nem de lamúrias, porque outros valores mais altos se levantavam e ditavam lei. E foi aqui, neste ponto, que, há mais de seis décadas, me fui apercebendo do quanto o Cartaxo era uma terra multifacetada e muito importante, na indústria e no comércio. Era mesmo isto que eu estava a constatar. Ora, se eu já sabia que o Cartaxo era um vasto monopólio nas áreas da agricultura (mormente na vitivinicultura), bovina e cavalar, juntando as áreas acima, podia concluir que o meu concelho era rico.

Agora, e já que a via académica me tinha sido vedada, só faltava vasculhar o incomensurável mercado laboral para poder escolher qual a profissão que me dava mais jeito. Para tal, fui investigando, fui analisando, e dei por mim a ir ao encontro de um patamar que, presumi, se situava imediatamente abaixo daqueles que entraram na área do conhecimento. Eram os excluídos do mundo académico, mas situados numa primeira linhagem laboral. Desta, faziam parte os rapazes que, por obra e graça do mediano poderio económico paterno ou de cunhas vindas de cima, conseguiram aval para iniciar a aprendizagem na área da mecânica. E assim se garantia a continuidade dinástica dos mecânicos-auto; torneiros-mecânicos; eletricistas-auto; bate-chapas e pintores-auto. Acredito que era um regalo para os rapazes ora iniciados, fazerem parte daquele mundo, espelhado naquelas três grandes oficinas do ramo, como eram a “Asal”, o “Cruz & Jarego” e o “José Manuel Santos & Filhos, Lda”. Nunca tive a dita ou o grato prazer de, alguma vez, lá ter posto os pés, nem sequer como visitante, mas, na figura de excluído, inveja deles tinha e muita.

Mas não desisti e continuei explorando. Cismei que, a par daquelas especialidades, eu situaria os escriturários. Estes ganhariam menos, certamente, mas, pelo menos, andavam limpos e de costa direita. Desde a “Asal”, ao “Cunha 13”, “Mármores Fonseca”, “Adelino Campos” e “Batista & Carvalho”, todas elas empregaram alguns dos tais miúdos imberbes.

Outras áreas consideradas ex aequo entre si, se bem que um furo abaixo das anteriores, eram as dos serralheiros civis, canalizadores, eletricistas e balconistas. Sem cunhas sonantes, do mal, o menos.

Crónica publicada na edição de dezembro do Jornal de Cá.

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