Os Bailes dos Pagãos (I)

Opinião de José Caria Luís

Decorria a segunda metade da década de 50. Neste período, pese embora o vagaroso andamento, quando não inércia, com que se aceitava e aderia a novas tendências, fomos, paulatinamente, envolvidos pelas famigeradas ondas do rock-and-roll e da minissaia. O Bill Haley, com o seu Rock Around the Clock, cujo ritmo tirava qualquer puritano do sério, já era ídolo; Elvis Presley, acabado de chegar, ia-se impondo, mas a grande bomba, que estaria por aí a rebentar, seria o produto concebido por Mary Quant, a provocante minissaia. Não tardaria a fazer furor, também, no Cartaxo. Mas, aqui, atenção: o ritmo com que o fenómeno foi aceite no concelho, quanto a mim, terá sido demasiado lento. Os pais que, de um modo geral, não permitiam que as filhas namorassem antes dos dezoito anos, não iriam aceitar que as divas andassem, rua acima rua abaixo, a exibir as pernaças ao gáudio e dentuça arreganhada do pagode. Nem pensar! Eram dois dedos abaixo do joelho… e chegava. Pelo exposto, dá para perceber que estávamos, ainda que de forma embrionária, ao virar da esquina para um novo conceito de vida.

Os bailes que, até então, eram abrilhantados pelo jazz da terra, pelo acordeonista regional, ou, até, por um qualquer desenrasca tocador de gaita-de-beiços, ganharam um outro elã. A marcha, a valsa, o slow e o chá-chá-chá, nunca seriam extintos de qualquer repertório, mas iam passando de moda. O rock e o twist tomaram-se na primazia na nova geração. Assisti, nessa época, nesse virar de página, a conflitos de interesses geracionais, a gostos antagónicos tais que, quando a discussão azedava, virava tudo ao sopapo.

Começaram, então, a surgir nos grandes centros urbanos, alguns conjuntos ligeiros, em forma de rockeiros, cujos elementos eram idolatrados pelo público mais jovem, mas no concelho essa moda ainda era uma miragem. Cá pelo burgo, bastava-nos que o baile fosse abrilhantado pelo “Boa Noite” ou pelo “Palmo e Meio” e já era garantia de casa cheia, o que era bem bom. Com repertórios muito semelhantes, a puxar para umas marchinhas, uns slows e umas brasileiradas, era tudo o que nos podiam oferecer. Ao invés, quando se tratava de acordeonistas como o Paixão, a Lisete Ramos, a Júlia Bicha ou a Liberdade de Oliveira, as entradas eram bem mais baratas, mas, paradoxalmente, a afluência e a consequente exploração eram bem menores.

Nas freguesias, embora com algumas nuances, os bailes tinham lugar nas instalações da “Música” ou da “Bola”. No Cartaxo, estava a nascer o fino Ateneu, mas já existiam a “Música” e o Pátio das Comédias. Nesta verbena, por ser ao ar livre, os bailes eram realizados na época de verão, à noite e eram quinzenais. Em noites de enchente, julgo não exagerar se disser que o recinto teria uma assistência a rondar o meio milhar de pessoas.

Definindo o Pátio das Comédias, direi que era o estereótipo do baluarte da originalidade da convivência ribatejana. Ali afluíam pessoas das mais variadas origens e segmentos sociais, onde, com um copito a mais, se gerava uma espécie de Babel em ponto pequeno. A cada comportamento intempestivo, uma resposta com duplo impropério.

Crónica publicada na edição de agosto do Jornal de Cá.

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