Os números que falam

Por João Fróis

A Organização não governamental (ONG), Transparência Internacional, sedeada em Berlim, publica anualmente um relatório que ordena os países do mundo com um grau da perceção da corrupção entre funcionários públicos e privados. Neste relatório a maior pontuação significa menor perceção da corrupção, sendo que 7 em cada 10 países ( 9 em 10 nos em vias de desenvolvimento ), possuem um índice de menos de 5 pontos em 10.

À cabeça da lista surgem uns insuspeitos Dinamarca e Nova Zelândia, ambos com 90 pontos. Logo atrás a Finlândia, Suécia, Suíça, Noruega, Singapura, Países Baixos, Canadá, Alemanha, Luxemburgo e Reino Unido, todos acima dos 80 pontos. Abaixo desta linha e até aos 70 pontos surgem a Austrália, Islândia, Bélgica, Áustria, EUA, Irlanda e Japão. A 2ª maior economia da zona euro, a França, apenas surge com 69 pontos, Acima dos 64 de Israel e dos 62 de Portugal, em 29º lugar de 178 países analisados. Espanha surge em 41º lugar com 58 pontos e Itália em 60º com apenas 47, com a Grécia logo atrás com 44 pontos. Brasil e China surgem na posição 79 com 40 pontos, bem acima dos 29 da Rússia, na posição 131. Na comunidade CPLP, Moçambique surge na posição 142 com 27 pontos, Angola em 168ª com apenas 18 pontos e a Guiné-Bissau com 16. Fecham a lista a inenarrável Coreia do Norte com 12 pontos e a devastada Somália com 10.

Estes números mostram o que outros indicadores também revelam e que ajudaram a criar uma outra perceção social, a de que no centro e norte da Europa a seriedade predomina e que à medida que descemos no mapa rumo ao mediterrâneo a corrupção alastra. Na verdade, todos os países da bacia estão mal classificados, com a França à cabeça e Portugal, Espanha, Itália e Grécia na sua cauda, muito distantes da honrosa Escandinávia.

Muitas razões existem para estes fenómenos e a história explica boa parte deles mas se olharmos para outros números conseguimos encontrar outros indicadores que nos ajudam a entender alguns dos porquês deste status quo de virtudes ou falta delas.

Atentemos ao famoso produto interno bruto (PIB), o valor de mercado de todos os bens e serviços de um país em determinado ano. Fatores com a população, os investimentos, o nível de desemprego, o grau de consumo, a percentagem de jovens e a inovação tecnológica, fazem pender a balança consoante sejam tendencialmente positivos ou em sentido inverso.

Na lista surgem, sem espanto, à cabeça os EUA e a China, com respetivamente valores estimados de 2022, de 25 e 18 triliões de dólares, seguidos ao longe pelo Japão e Alemanha, com 4,3 e 4 triliões. Em 5º lugar surge a Índia com 3,4 triliões e o reino Unido e a França com respetivamente 3,2 e 2,8.  O Canadá surge em 8º lugar com 2,2 triliões de dólares, seguido da polémica Rússia com 2,1 (com o gás a deter uma fatia larga do total) e da Itália com 1,99.

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A 5ª economia da zona euro, a Espanha, surge na 16ª posição com 1,4 triliões e Portugal na 50ª com 0,25. Pelo meio os escandinavos Suécia, em 25º lugar e 0,6 triliões, a Noruega na posição 30 com 0,5 e a pequena Dinamarca, a campeã da lista anterior, no lugar 41 e 0,38 triliões de dólares. Como referência, Angola surge em 61º lugar com 0,12 triliões e pobre Moçambique na posição 128 com apenas 0,017 de trilião.

Não podendo fazer uma correlação direta entre o PIB e a corrupção, a verdade é que, com algumas exceções, neste caso a Índia e a Rússia, os países com mais investimento, menos desemprego e mais inovação tecnológica são também os com menor perceção de corrupção. Mais uma vez os países escandinavos e os do centro da europa comprovam-no, bem acompanhados do Canadá e Japão.

Sendo uma análise de números atentei igualmente para o ordenado mínimo, em valores brutos em dólares e englobando os subsídios de Natal e férias. Nesta lista não exaustiva, a Austrália surge em 1º lugar com um valor anual de 26.280 dólares, seguida da Irlanda com 24 mil e da incontornável Dinamarca com 23.385. Logo atrás o Reino Unido com 23.160 dólares anuais, a Alemanha com 22.230 e a Bélgica com 20.380. Os vizinhos Países Baixos surgem com 19.200 dólares, atrás do Canadá com 19.780. França apresenta 17.560 e a Nova Zelândia 16.730 dólares por ano.

De referir que nos EUA os valores variam de estado para estado, havendo um valor médio estimado de cerca de 15 mil dólares e que na Noruega e na Itália não existem valores estabelecidos para ordenado mínimo.

No arco dos países com valores próximos dos nossos surge a Espanha com 12.860 dólares, Portugal com 10.130, seguidos da Polónia com 9.030, República Checa com 8.700, Grécia com 8.300 e Croácia com 8.120 dólares brutos anuais. A polémica Rússia apresenta 8.900 dólares e nos países da CPLP Angola surge com 3650 e Moçambique com apenas 800.

Muitos outros indicadores podiam ser tidos em conta e cruzados de modo a melhor compreender a correlação existente entre investimento, salários e corrupção.

No que nos diz respeito o nosso país ainda tem muito caminho a percorrer, seja no crescimento do PIB, com maior investimento, melhores salários e gratificação do talento e esforço e no decréscimo dos nebulosos nepotismo, clientelismo e corrupção.

As posições em que Portugal surge nestas três tabelas não nos honra nem tão pouco valoriza enquanto membros por direito da EU desde 1986 e com países aderentes recentemente a mostrarem uma dinâmica de crescimento e combate aos fatores negativos, assinaláveis.

Naturalmente o PIB não significa que a população tenha bons índices de qualidade de vida, como a Índia bem demonstra. O seu 5º lugar na tabela reflete o potencial nacional, mas neste caso assente em alguns grupos económicos fortes, designadamente ligados à tecnologia e aço e fortemente apoiados numa população de 1,4 mil milhões de pessoas, sendo, no entanto, a maior parte pobres e sem acesso a saneamento, cuidados de saúde e alimentação dignos.

Mas Portugal tem de ser observado na lógica da EU e comparado com os demais 26 parceiros e ainda ao nível da OCDE e dos seus muitos indicadores de desenvolvimento. Melhorámos imensamente desde o despertar da democracia em 1974, mas em boa verdade partimos de indicadores muito baixos, sejam o nível de literacia e escolaridade, ou o saneamento, rede energética ou mercado de trabalho.

Temos de ser humildes e tentar aprender com o exemplo dos demais. Olhemos a dois casos diferentes, mas ambos com sucesso. A Itália há 40 anos atrás estava como nós, um estado enorme, burocratizado e despesista, com elevada carga fiscal e escasso investimento. Mesmo com a tradicional instabilidade política modernizou-se, baixou a carga fiscal, investiu na modernização e colheu dividendos, sustentando a sua dinâmica empresarial de maquinaria, pesada, química, automóvel, moda e calçado. Já a Irlanda padecia de um atraso face a sua vizinha Inglaterra e a sua insularidade era um problema. Fez um choque fiscal, criando as condições de atração de investimento e apoiando a génese de start-ups, apostou na formação e quadros técnicos e melhorou as condições salariais e de trabalho e conseguiu inverter a tendência e subir notoriamente nos indicadores económicos e sociais. Surge assim bem classificada nas três tabelas acima analisadas e mostra sinais de manutenção e crescimento sustentados das suas apostas.

E Portugal? Infelizmente continuamos imersos em burocracia, temos a mais alta carga fiscal da EU quando comparada ao valor médio dos salários e investimos pouco e mal na dinâmica empresarial. A dependência do estado continua a ser vasta e as expetativas sobre o futuro são dramaticamente baixas paras novas gerações sedentas de oportunidades. Continuamos a ser um país adiado e a desperdiçar talento e recursos, alimentando as tais nebulosas que nos asfixiam. Uma revolução precisa-se. Não com armas, mas de mentalidades.

Isuvol
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