Os paióis da vergonha

Opinião de João Fróis

Tancos é uma pacata localidade na margem direita do Tejo e onde reina um castelo único, assente numa pequena ilha, Almourol.

Esta fortaleza estratégica de proteção a invasões fluviais no maior rio ibérico convive com as instalações militares onde residem os depósitos de armamento que andam nas bocas do mundo. Em 2017 terão andado algures, desaparecidos sem que ninguém descortinasse o seu paradeiro, para terem reaparecido na Chamusca, ali bem perto, fez agora um ano no dia 18 de Outubro, boa parte das armas que é suposto guardarem.

Portugal figurou uma vez mais nos escaparates da imprensa mundial pelas piores razões. Desta vez não pela incúria na gestão do território e que os incêndios mostram com dramática evidência; não pela necessidade financeira de ajuda do FMI; e nem mesmo pelas razões positivas dos feitos desportivos que, felizmente, começam, a ser habituais. Desta vez o impensável sucedeu, num estado de Direito e parte da NATO, deixando a nu as imensas falhas que o Estado vem revelando na gestão das suas responsabilidades. E convenhamos que salvaguardar armamento, em tempos de acirrado terrorismo, é no mínimo um imperativo de defesa nacional e segurança das populações.

O que assistimos durante meses foi digno de um mau filme de ação de segunda categoria. Péssimo elenco, trama mal urdida, guião inconclusivo e mensagem nula. Primeiro o espanto do sucedido, o ruído de fundo que as hostes políticas tentaram esgrimir de um lado e abafar do outro. Depois um desfilar de teorias da conspiração em que ninguém foi acusado ou tido sequer como suspeito. Uma vez mais o governo deixou o tempo correr a seu favor, aproveitando as fraquezas da memória coletiva e ganhando tempo para arranjar uma solução invisível. E ao cabo de uns meses ela chegou, com esse “miraculoso” reaparecimento do armamento perdido. O que espanta é que ninguém tenha desde logo questionado de onde e através de quem tinham ressurgido as armas? Definitivamente o Estado português não é uma pessoa de bem. Trata-nos como uma amante de recurso, a quem pede indulgências quando delas precisa para depois nos votar ao esquecimento, sem qualquer explicação.

Diz o ditado que “cada um tem aquilo que merece”. Creio que o povo português mereça mais e melhor de quem o governa, mesmo quando demonstra tibiezas na sua unidade e identidade nacionais.

O tempo foi fazendo o seu curso inexorável e eis que passado um ano do dito “milagre” da Chamusca, o tema voltou aos debates televisivos. Vão-se percebendo detalhes complexos e guerras entre polícias, numa teia de acontecimentos, decisões e decorrências altamente preocupantes. Não cabe aqui nomear quem é o quê e quem são os implicados nos estilhaços que o famoso memorando da polícia judiciária militar está a provocar. Pior que os danos de uma granada, este caso rocambolesco deixa-nos uma sensação estranha de desnorte e fuga grosseira às responsabilidades. Há muito que defendo que uma das maiores fraquezas nacionais é o alijamento vergonhoso da culpa, onde quem de direito se furta a ser sequer nomeado e quando o é, se envolve numa teia de interesses, de manobras dilatórias e jurídicas para evitar a barra do tribunal. Se as responsabilidades forem assaz evidentes e incontornáveis então a demissão política vem tudo resolver, num passe de mágica ao nível do reaparecimento das armas na Chamusca. Houdini iria corar com tamanhas façanhas e Poirot desceria do pedestal face a tais fatos insolúveis.

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Como diriam os sábios de antanho, só não me apetece chorar porque ainda não contenho o riso estapafúrdio de tanta falta de vergonha e decência merecerem do povo o assentimento cobarde que o caracteriza. Definitivamente aqui merecemos muito do tão pouco que temos. Pedimos verdade e dão-nos discursos, memorandos e conferências de imprensa tão vazias quanto os paióis estiveram, não de armas mas de vergonha. E neste desfilar de tristes e tristezas assistimos agora a uma desculpabilização em cadeia. O ministro demissionário jura a pés juntos que nada sabia. O primeiro-ministro segue-lhe o encalço e afirma sem falhas na voz que nada, mas mesmo nada lhe chegou e que está isento de qualquer culpa. O presidente da República afirma a sua inocência e pede cabeças, no mínimo que o esquecimento não se apodere de tudo e todos.

E perguntamos nós, ainda incrédulos: afinal para que existem ministérios, ministros, chefes de gabinete, generais e polícias civis e militares? Porque as suas responsabilidades são inegociáveis e partilhar informações críticas de segurança nacional não isentam ninguém do seu conhecimento. Se falhas houve que sejam assumidas e tornadas públicas. Mas que ninguém se escude, uma vez mais, na habitual desculpabilização política que cresceu na morte da vergonha e no enterro da ética, da verdade e da decência.

Não sei até onde nos levará Tancos. Sei que Nixon caiu por faltas graves na condução política daquilo em que era responsável máximo e que não foi poupado pelas falhas graves na cadeia abaixo de si. Por cá vamos estar atentos e ver afinal de que massa é esta República feita! Tenho a minha convição mas guardo-a para melhor ocasião.

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