Padroeiro São João não ajudou!

Por Vitor Teixeira Santos

Pelas Festas da Cidade, como tem vindo a ser tradição, realizou-se mais uma corrida de toiros à Portuguesa.

Numa noite amena de início de Verão e, uma vez mais, com outra corrida a cerca de 70Km´s, a praça de Toiros da nossa Terra encheu as bancadas de aficionados (3/4 fortes) com vontade de se divertirem e aplaudirem os intervenientes. A afición do Cartaxo estava apenas adormecida e a aguardar por um despertador que a acordasse. Para isso contribuiu, e não estarei a ser demasiado lisonjeiro em enaltecer a empresa concessionária da Praça do Cartaxo, Ovação e Palmas, e o seu trabalho exemplar de divulgação, promoção e envolvimento.

O Cartel 

Cavaleiros: João Moura, Manuel Telles Bastos, Marcos Bastinhas, Duarte Pinto, Miguel Moura, Parreirita Cigano

Forcados Amadores: Cascais, Coimbra e Cartaxo

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Ganadaria: Mata-o-Demo

Estavam em disputa troféus para a melhor lide e melhor pega.

João Moura, como ginete mais antigo, abriu praça para lidar um toiro anunciado com 530Kgs. Esteve em toda a lide com o acerto e a maestria a que nos habituou. Saltou para a pega, pelos de Cascais, o forcado Rui Grilo, que concretizou à segunda tentativa.

O segundo toiro da ordem, com 500Kgs, foi lidado pelo Manuel Telles Bastos, que esteve em plano superior e a fazer subir a fasquia da competição com o seu classicismo e sortes frontais, em especial para o terceiro e quarto curtos, com o público a exigir mais um ferro.

Para a cara deste toiro saltou o Grupo de Coimbra e foi cara Pedro Casalta. Pegou na primeira tentativa, pega esta que acabou por vencer o troféu em disputa.

A corrida das Festas da Cidade, por Vitor Teixeira Santos
Melhor lide, Marcos Bastinhas e melhor pega, Pedro Casalta, do Grupo de Coimbra

Vem depois Marcos Bastinhas para lidar o melhor toiro da corrida, anunciado com 570kgs. Filho de uma figura ímpar da nossa tauromaquia, Joaquim Bastinhas, que faleceu no final do ano transato. O Marcos vem de uma apoteótica saída em ombros no Campo Pequeno no passado dia 6, justamente numa corrida de homenagem a seu pai. Marcos está confiante e inicia a lide com uma arrojada sorte de gaiola e lida ao seu melhor estilo com adornos e remates que chegam com grande facilidade ao público e o põe a vibrar. Remata com um par de bandarilhas à Bastinhas. Arrebata, assim, o troféu para a melhor lide.

Para a pega deste toiro salta o Grupo da nossa Terra, sendo o forcado destacado o Fábio Beijinho. Fábio brindou a Felipe Jarego, jovem nosso conterrâneo que se lesionou com gravidade há alguns anos quando trabalhava para as Festas da Cidade enquanto montava os curros. ‘No melhor pano cai a nódoa’, diz o povo. Toiro colocado, grupo formado, barrete na cabeça, cite bonito e alegre, manda vir o toiro, recua e reúne nas piores condições, com o toiro a bater e a tirar a cara nas três tentativas que realizou, acabando por sair lesionado. Para a dobra foi o Cabo Bernardo Campino que, com decisão e com o Grupo a carregar, com o toiro a bater, nunca se largou da cara do toiro, aliás, de um dos cornos, ficando a sensação para alguns mirones mal-intencionados que o toiro não tinha sido pegado. Não terá sido a mais ortodoxa das pegas? Não! Não teria ficado mal ao Grupo repetir e fazer mais uma tentativa para desfazer dúvidas? Não! Mas estava pegado? Estava! O resto é conversa de escárnio e maldizer? Sim. Os anos que tenho a ver corridas, e como aficionado prático que fui, o que se passou é um “dejá vu” em muitas Praças deste País. Adiante.

Volta para Marcos Bastinhas e para o Ganadeiro.

O quarto da ordem saiu a arena com 540 Kgs para ser lidado por Duarte Pinto. Outro toureiro de dinastia, filho de Emídio Pinto, com estilo clássico mas alegre, sortes bem ligadas e rematadas e está a chegar mais ao público. Para a pega deste exemplar salta o Grupo de Cascais por intermédio de Carlos Dias, que pega ao primeiro intento.

A Miguel Moura, mais um toureiro de dinastia, cabe-lhe o quinto da ordem, com 550Kgs, reservado mas colaborativo, mas Miguel não esteve ao seu melhor nível, esforçado mas sem brilho. Para pegar este exemplar salta o Grupo de Coimbra, por intermédio do seu Cabo Pedro Silva, que se lesiona na primeira tentativa e é dobrado por Ricardo Matos que, com uma boa primeira ajuda, consuma na sua primeira tentativa.

O pior toiro da corrida coube a Parreirita Cigano

Aguardava-se com expectativa a actuação do toureiro da Terra, Parreirita Cigano, o qual tinha arrancado um triunfo na corrida do passado dia 1 de maio, também aqui no Cartaxo. O toiro que lhe coube não colaborou em nada, um manso com 510Kgs, o pior da corrida, que se foi refugiando em mangadas curtas, a defender-se e sem se empregar e que obrigava a pisar terrenos de compromisso, mas o seu cavalo de confiança, “Banquete”, não estava nos seus dias. Os cavalos, como os toureiros, também têm os seus dias melhores e outros piores, e quando assim é, não há nada a fazer. O toiro chegou quase inteiro à pega.

Para a pega deste toiro saiu à praça o Grupo da nossa Terra e, para a cara, o cabo designou o forcado Miguel Afonso.

Grupo de Forcados Amadores do Cartaxo

O Miguel é um forcado com experiência, que sabe o que fazer em praça, mas também não estava nos dias dele, e este toiro requeria o melhor do Miguel. O toiro, para além de ser cabano e baixel, entrava com a força que a lide não lhe tinha tirado. Bridou ao público da nossa Terra, cite bonito, mandou vir o toiro, mas não reuniu da melhor forma. O toiro mete a cabeça baixa, não se dobrou, foi despedido nas viagens duras com derrotes altos por duas vezes e lesionou-se. Para a dobra foi designado o Emanuel Doto, forcado que, não sendo bonito nos cites e com coisas a corrigir, é decidido e talhado para as dobras e para resolver os problemas, mas necessitou de mais três tentativas para consumar a pega. Na segunda tentativa do Emanuel, recolheram à enfermaria mais dois forcados lesionados, um deles, o Cabo do Grupo. Foi a emoção ao rubro e o coração falou mais alto que a razão. De facto, o nosso Padroeiro S. João, desta vez, não ajudou nas prestações do nosso toureiro, dos nossos forcados e na repartição da sorte.  

“…Mas estava pegado? Estava! O resto é conversa de escarnio e mal dizer? Sim! ”

À hora que escrevo estas linhas tenho conhecimento de que todos os forcados que se magoaram regressaram a casa, e Graças a Deus estão bem, embora doridos. Ainda uma nota final de ânimo para os nossos forcados: já pegaram, e bem, ganadarias mais duras, tais como os Veigas Teixeira, António Silva, Cannas Vigouroux… a determinação, a decisão, a coragem, a amizade, o espírito de Grupo não desaparecem de um dia para o outro. Há que analisar? Há. Há coisas a melhorar? Há!

Tempos difíceis não duram muito, mas pessoas fortes sim.

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