Para que serve o Ser Humano?

Por David Estêvão (O Mundo é um Lugar Estranho)

Os primeiros carros, com fecho automático, produzidos pela Ford acionavam o fecho assim que o carro atingisse uma velocidade próxima dos 3 Km/h. A solução revelou-se estrondosamente desastrosa com os primeiros carros produzidos a trancarem-se sozinhos, quando eram deixados pelos seus condutores, em linhas de lavagem automática, sem ninguém lá dentro e com as chaves na ignição.


O progresso tecnológico sempre teve a capacidade de ser demasiado literal traindo a intenção inicial do inventor. Tem permitido, entre outras coisas, soluções de comunicação cada vez mais flexíveis. Inauditamente, a tecnologia tem também aprendido muito com os nossos hábitos e uma vez apreendendo os nossos traços sociológicos escancarando as portas da era da Inteligência Artificial.


Uma das potencialidades mais obscuras da nova era tecnológica tem sido praticada pela República Popular Chinesa ao utilizar as aplicações (apps) para monitorizar os comportamentos dos seus cidadãos mediando o acesso dos mesmos a serviços públicos mediante o seu rating comportamental.


Uma maior capacidade de comunicar em rede também tem gerado fenómenos dificilmente compreendidos pela própria Comunidade Internacional fruto de um jogo de espelhos comunicacional em que já ninguém sabe quem comunicou o quê.


Acrescente-se que a agressividade nos debates nas redes sociais poderá não derivar inteiramente do mau temperamento humano, existindo como que uma indução para que o clash comunicacional aconteça, beneficiando a rede social. Imagine-se, por exemplo, aquelas brigas que ocorriam pontualmente no recreio em que todos iam assistir fazendo um roda à volta.

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Parece que, mais uma vez, a tecnologia se está a comportar como o fecho automático dos automóveis da Ford, ou seja, de modo imprevisível.


Ainda assim, os progressos tecnológicos tem sido encarados como adventos globalmente positivos talvez por se ter associado, invariavelmente, a ideia de comodidade ao não ter que executar determinada tarefa. Mas talvez tenhamos ido longe de mais com esse equívoco da comodidade.


Passámos a utilizar dispositivos para nunca nos perdermos no caminho para algum lado, como se enveredar por uma travessa que não está no mapa não fosse um dos mais poderosos motores da nossa vontade de viver, como se o caminho mais rápido fosse o melhor.


A demanda furiosa da revolução tecnológica tem sido sustentada pelo grande argumento que consiste em nos fazer querer que a autonomização da maior parte das nossas tarefas diárias permitirá termos mais tempos para nos dedicarmos a outras atividades. Ora, recentemente, a 8ª sinfonia de Schubert (inacabada desde 1822) terá sido completada com recurso à inteligência artificial, reproduzindo a vontade artística hipotética do autor que nos deixou em 1828!


Com o deslumbramento com as novas tecnologias acabaremos a delegar as nossas capacidades em engenhos que nos podem a vir substituir até na produção artística, prejudicando o nosso progresso. Para que servirá, então, o Ser Humano?


Quando se delegar numa máquina a capacidade de produzir o novo fecho automático dos automóveis Ford é importante garantir, ao menos, que não ficamos trancados lá dentro, ou que, pelo menos, fica alguém do lado de fora para tentar abrir a porta.

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