O passado que (ainda) se nos cola à pele

Opinião de Ana Benavente

Portugal foi um país pobre e sem liberdades. Foi um país de emigrantes em que reinava o analfabetismo. Não nos esqueçamos da emigração clandestina que passava as fronteiras europeias, por montes e vales, vivia em bairros de lata e era designada, em França, como “emigração invisível” (porque não tinha consciência dos direitos humanos e aceitava, “humildemente”, a exploração). Corajosos e esforçados, lutámos por uma vida melhor. Em 1974, o regime mudou, conquistámos a democracia e as qualificações escolares aumentaram. Temos feito um percurso acidentado e desigual em direcção a uma sociedade mais justa, lutando contra a pobreza e as desigualdades.

E, no entanto, o triste passado que foi o nosso ainda está (demasiado) presente na nossa organização social e nos comportamentos das pessoas. As mudanças são demasiado lentas.

Vejamos. Como explicar o negócio das carrinhas que transporta emigrantes, sem segurança nem conforto, mas que os conduz à porta de casa e lhes permite levar, de volta, os “produtos da terra”? Veja-se o recente terrível acidente, em França que trouxe esta realidade à luz do dia.

Como explicar que não nos revoltemos contra a corrupção e contra as grandes empresas cotadas em Bolsa (ditas do PSI 20) que, obtendo em Portugal os seus lucros, contribuem para a riqueza de países como a Holanda e o Luxemburgo, porque aí pagam menos impostos, deixando o nosso país mais pobre? Se não houvesse corrupção teríamos o PIB da Suécia, pensem bem. Que Europa é esta? E “o povo é que paga” o que os corruptos escondem e o que as empresas levam daqui para fora. E aceitamos que assim seja?

Como entender que, ainda hoje, um telefonema para uma administração pública local (não me refiro ao Cartaxo) nos ocupe uma tarde inteira porque, dos números indicados no site oficial não atendem? E quando atendem, ouvimos conversas entre colegas e somos recebidos com “cinco pedras na mão”?

A tudo isto, chama-se subdesenvolvimento. Porque, como nos diz Josué de Castro (escritor brasileiro, autor da “Geopolítica da Fome”) e lutador contra as desigualdades, “crescer é uma coisa; desenvolver é outra. Crescer é; em linhas gerais, fácil. Desenvolver equilibradamente, difícil.

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O subdesenvolvimento é uma forma de subeducação. De subeducação, não apenas do Terceiro Mundo, mas do mundo inteiro. Para acabar com ele, é preciso educar bem e formar o espírito dos homens (…). Só um novo tipo de homens capazes de ousar pensar, ousar refletir e de ousar passar à ação poderá realizar uma verdadeira economia baseada no desenvolvimento humano e equilibrado. (…)”

Pois é. A privação material severa em Portugal está acima da média da União Europeia, revelam dados divulgados neste mês de Abril pelo Eurostat. Nada acontece por acaso. Viva o 25 de Abril e a Liberdade. Vamos ousar pensar e ousar agir contra o subdesenvolvimento que corrói a democracia e ainda se nos cola à pele. E temos pressa.


 

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