Entre tapumes e andaimes, Portugal vai-se lembrando de si próprio. E após tempestades, ainda mais.
Há qualquer coisa de profundamente português, na forma como olhamos para o nosso Património Cultural: primeiro, com orgulho antigo; depois, com um certo abandono resignado; e finalmente, quando a pedra já ameaça cair, com uma urgência aflita e aflitiva e com “verbas extraordinárias”. É um ciclo quase tão regular como as marés do Atlântico!
Basta passear por um centro histórico — seja em Lisboa, no Porto, Évora ou no Cartaxo — para perceber que o património em Portugal não é apenas cenário: é pele, pele viva. Está nas fachadas de azulejo que resistem à chuva, nas igrejas barrocas onde o dourado já perdeu o brilho, mas não a dignidade, nos fortes à beira-mar que ainda enfrentam o vento como se a armada castelhana pudesse surgir ainda no horizonte.
As pedras dum Mosteiro não são apenas pedras: são séculos. Um painel de azulejos não é decoração: é narrativa. É contexto. Insubstituível!
O país habituou-se, durante décadas, a ver o património como herança garantida — algo que simplesmente estava ali, como as serras e o mar. Mas a herança, se não for cuidada, transforma-se em ruína. E a ruína, embora fotogénica, não abriga memória: apenas a dramatiza, degrada-se e… desaparece.
Conservar e restaurar, por cá, é quase um exercício de equilíbrio emocional. Entre a vontade de preservar a autenticidade e a tentação de “modernizar”, entre o rigor técnico e a pressão turística, entre o orçamento curto e a ambição longa. Restaurar não é pintar por cima, não é trabalho artístico; é ouvir o que a matéria tem para contar, é intervir com conhecimento técnico de química, biologia, geologia, história e história de arte, etc, etc, etc. Um Conservador-restaurador é tudo isto: um profissional com uma formação abrangente e multifacetada, onde as várias áreas do saber se conjugam para cada intervenção, com uma base científica bem alicerçada. É um profissional com um Código de Ética e Deontologia, que tem e deve, obrigatoriamente, de respeitar. A bem do Património Cultural.
Há, felizmente, uma – ou, neste momento, já várias – geração(ões) de Conservadores-restauradores que trabalha(m) quase em silêncio, longe das inaugurações com fita e discurso. São eles que consolidam estruturas, estudam pigmentos, limpam frescos milímetro a milímetro, catalogam retábulos esquecidos em sacristias húmidas, projectam, garantindo a integridade da obra. O seu trabalho raramente é notícia — a não ser quando algo arde, colapsa ou se perde.
E depois há a tensão dos tempos modernos, tendo quase direito a néons ofuscantes: “O Património como motor económico”. O turismo trouxe investimento, devolveu vida a edifícios abandonados, abriu portas que estavam fechadas. Mas também trouxe pressa. E o património não se dá bem com a pressa. Uma calçada não foi feita para suportar malas de rodinhas em permanência; um claustro não nasceu para filas de selfies intermináveis.
Conservar, em Portugal, deveria ser também decidir o que queremos ser. Não se trata de congelar o passado num museu a céu aberto, mas de integrá-lo na vida contemporânea sem o descaracterizar. É permitir que um convento se transforme em biblioteca, que uma fábrica antiga se torne centro cultural, que um palácio encontre nova função — sem que a memória seja despejada com o entulho.
Talvez o maior desafio seja este: perceber que o património não é apenas o que herdámos, mas o que escolhemos transmitir. Perceber o que queremos – ou não – deixar às gerações vindouras. Deste modo, Conservar e Restaurar é um acto de responsabilidade intergeracional. É dizer aos que vêm depois de nós, que houve cuidado, que houve respeito, que houve consciência e racionalidade, no cuidado que tivemos com a nossa memória patrimonial colectiva.
Num país onde tanto se discute o futuro, talvez valha a pena lembrar que o futuro também se constrói com pedra antiga. Porque conservar e restaurar não é olhar para trás — é garantir que, quando alguém olhar para trás daqui a cem anos, ainda reconheça Portugal nas suas paredes, ruas e praças.
* O Autor conserva a antiga ortografia. (Licenciado em Conservação e Restauro de Bens Culturais/ Conservador-restaurador de Obras de Arte)