Peço desculpa pelo atraso

Opinião de Carlos Gouveia

À minha pontualidade tenho de somar sempre cinco minutos. Chego quase sempre atrasado a um compromisso, nem que seja por cinco minutos. Não é coisa de que me orgulhe muito, sendo uma batalha constante em arranjar mecanismos para apontar reuniões ou encontros em agendas, com fio de cetim separador a abrir o dia da agenda ou rasgando os cantos picotados das folhas para destacar o dia de hoje com os futuros.

Os calendários eletrónicos em telemóveis com lembretes a tocar músicas e toques irritantes de despertador não funcionam na minha semana de segunda à sexta: ou tocam no dia a seguir quando já não é preciso, ou às seis da manhã em vez das seis da tarde devido à regra inglesa muito rigorosa e aborrecida do after midnight (AM) e past morning (PM).

Os meus colegas de trabalho gozam sempre muito comigo, que não compreendem como é que ainda uso agendas de papel, quando tenho toda uma parafernália de aparelhos com muitas aplicações, para me lembrarem que tenho de ir ao dentista, à reunião do chefe ou fazer aquela chamada inconveniente para as coisas andarem mais depressa porque já estão fora de prazo, e que me mandam sms a avisar que estão à minha espera. Peço sempre mil desculpas pelo atraso, com uma ponta de vergonha na voz, porque tive um imprevisto inadiável como apagar um fogo.

Por isso, faço um esforço enorme em escrever tudo o que me comprometo a fazer numa agenda, com setas de remarcações e bolas gordas a demarcar a importância de um almoço petisqueiro com um amigo e uma reunião de ponto de situação de um afazer qualquer profissional. Provavelmente, ao almoço petisqueiro não me esqueço de chegar a horas e nem preciso de olhar para a agenda, está na minha cabeça a salivar de gula há uma semana. E talvez por isso, tenha de chegar atrasado à reunião do afazer ou da consulta do dentista, sempre com educação e humildade, avisando com antecedência que vou chegar atrasado. Só cinco minutos, ninguém morre por isso.

Provavelmente, ao almoço petisqueiro não me esqueço de chegar a horas e nem preciso de olhar para a agenda, está na minha cabeça a salivar de gula há uma semana.

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