Perfil – Manuel Luís Salgueiro

Manuel Luis Salgueiro

Eu sou
Um homem simples, responsável, experiente, alegre e simpático e ao longo da minha vida preocupei-me muito em ajudar as pessoas. Um bocadinho “cusco” no que diz respeito à minha família.

81 anos, autarca há mais de 30 anos, casado com a Ana Clara, pai da Laura e do Luís. Vive no Cartaxo.

Uma conversa com Manuel Luís Salgueiro, antigo presidente da Junta de Freguesia do Cartaxo, é uma viagem pela memória prodigiosa deste homem de 81 anos, nascido em Montemor o Novo, o mais velho de cinco irmãos, numa casa que “sendo humilde tinha sempre lugar para mais um amigo à mesa”. Começou a trabalhar aos 11 anos, a ajudar um tio, “como era hábito na época” e aos 14 já fazia recados e pequenos trabalhos para uma empresa de seguros. Aos 17 vai trabalhar para a Casa do Povo local. O dinheiro que ganhava era entregue em casa. “Era comum os irmãos mais velhos ajudarem a criar os mais novos” explica.

Eu gosto
De viver no Cartaxo e de todo o género de música, sobretudo fado que gosto de cantar porque me alivia a alma e dá uma certa paz. Gosto de muitas modalidades desportivas. De praia rodeado pela família o que tenho conseguido manter apesar de os meus filhos estarem casados há mais de 20 anos e ter três netas. De convívio e pela minha postura e sensibilidade faço facilmente amizades. Gosto dos homens e mulheres que trabalham e apoiam de forma generosa e solidária a nossa sociedade.

É nesta altura que se inscreve no Curso Geral do Comércio, mas não lhe faltavam atividades. Ajudou à missa, fez teatro, cantou no grupo coral – ainda hoje gosta de cantar fado e de dançar – e jogou futebol. Com 21 anos substitui o seu chefe na Casa do Povo e aí se mantém por seis anos. Casa entretanto com Ana Clara “uma rapariga também de Montemor” e concorre para o Banco Ultramarino. Presta provas em Lisboa, é aceite e escolhe o Cartaxo para ser colocado. É assim que, já depois do nascimento da filha Laura, se lança numa aventura. Em poucos dias arranjou casa e mandou vir a família. A integração foi tranquila. “Sentia que as pessoas gostavam de nós”, recorda.

Eu quero
Viver ainda alguns anos com alguma saúde e poder partilhar com tranquilidade o percurso da minha família. Quero ainda apoiar as pessoas dentro das minhas possibilidades.

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Instalado, o jovem casal leva uma vida de trabalho, mas feliz. O segundo filho, Luís, nasce onze meses depois. Surge então o convite de José Paínho para estar presente numa reunião que iria tornar-se um marco importante na sua vida. “Foi o começo do nascimento do Jardim de Infância (JIC). Acabei por ficar como tesoureiro. “Começou aí a minha ligação ao sr. Paínho e à dona Maria Helena, duas grandes personalidades do Cartaxo” conta-nos. Nos anos que se seguiram acompanhou e participou no crescimento da obra e passou por todas as fases de angariação de fundos e ultrapassagem de dificuldades. “O dinheiro era contado aos tostões. Tudo era feito com boas vontades e muitos sacrifícios. Organizámos festas de santos populares, começaram aí os desfiles dos vestidos de chita, e muitas outras iniciativas para angariar fundos”.

Eu não sou
Vaidoso, antipático, injusto, ambicioso em termos materiais e financeiros.

Manuel Luís Salgueiro recorda os apoios que vieram de Lisboa com visitas tão díspares como as de Marcelo Caetano e, mais tarde, Mário Soares. Não se esquece que os detratores do projeto, a seguir ao 25 de Abril, diziam que aquilo era “obra de comunistas”. Uma visita de Salgueiro Maia acabou de vez com as “más-línguas”.

Depois de ter deixado o Cartaxo por três anos, durante os quais trabalhou na agência do Banco na Merceana. Regressa à vila e ao JIC onde colabora por mais sete anos. Começa aí a sua participação na vida associativa.

Eu não gosto
Da mentira. De pessoas maldosas e intriguistas. Da injustiça e de ver tanta gente desempregada e do sofrimento dessas famílias.

“Pertenci ao concelho fiscal do Ateneu, mas também estive na Sociedade Filarmónica e no Sport Lisboa e Cartaxo”. À política chega, como nos conta, “no último mandato do dr. Renato Campos. Fui eleito tesoureiro da Junta”. Nas eleições seguintes é convidado por Conde Rodrigues para ser cabeça de lista. Ganha as eleições e mantém-se na Junta por vinte anos. “Cumpri cinco mandatos como presidente. Três deles com maioria absoluta” revela com algum orgulho na voz. Aliás, sempre que fala dos seus anos como autarca sente-se o gosto que tem pelo trabalho desenvolvido. “Sempre foi do meu feitio estar atento aos problemas das pessoas e na Junta fui um defensor do associativismo. Sempre apoiei todas as coletividades”, confessa.

Eu não quero
Ver a minha família sofrer, nem todas as outras. Ver tantas guerras, nem ódios, nem ver tanta gente sem trabalho. Ver pessoas necessitarem de apoios, quer na saúde quer noutras áreas e ver e sentir o sofrimento dessas pessoas.

Da obra que deixa feita destaca o Centro de Convívio, o Jardim da Música ou a Alameda fronteira ao Cemitério. Mas podiam ser muitas mais. Ele prefere falar com carinho dos passeios com os idosos. “Proporcionaram momentos de convívio maravilhosos”. Orgulha-se ainda de ter sido o autor do brasão e bandeira da freguesia.

Agora, embora seja ainda membro da Assembleia de Freguesia, está afastado do dia a dia da Junta, mas sente o seu trabalho reconhecido. “Sinto o carinho e o respeito das pessoas. Acho que sou o autarca mais conhecido pela população. Mas também é do meu feitio, recebo toda a gente com um sorriso, que é uma coisa que não se aprende mas com que se nasce. Acho que sou uma pessoa simpática, mas com humildade”.


O perfil de Manuel Luís Salgueiro foi publicado na revista DADA nº51, edição impressa de agosto de 2014. Algumas datas e referências foram atualizadas.


Foto em destaque ©Vitor Neno

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