Perfil – Maria José Campos

73 anos, casada com o Renato, mãe do Renato Jorge. É economista. Foi autarca, durante 18 anos, no Município do Cartaxo, onde vive.

Eu Sou
Gémeos, quer dizer que sou dual. Sou capaz de ser ao mesmo tempo tímida e reservada e expansiva e ousada

Maria José Campos

Foi professora, vereadora, diretora da biblioteca municipal, deputada. Muito antes, em 1967, casou e veio viver para o Cartaxo.

Maria José e o marido, Renato Campos, eram dois jovens que sentiram profundamente a falta de atividade que a sociedade da época vivia. Com o 25 de Abril, Maria José acompanha o marido nas primeiras eleições autárquicas em democracia, onde ele é eleito presidente. Seguem-se 18 anos de ligação à Câmara e de trabalho intenso que deixou uma marca muito personalizada na cidade.

Eu Gosto
“De ler, de música, de pintura, de viajar, de estar informada do que se passa no país e no mundo. Da praia, de cozinhar, gosto imenso de caril, de espaços amplos e das pessoas, gosto dos outros, preocupo-me com o bem-estar dos outros”. Maria José Campos

Os primeiros tempos foram de grande emoção. “Sou uma mulher de Abril. Recordo sempre o primeiro 1º de Maio. É um dia de uma vida. Está a ver uma jovenzinha que tira um curso de economia e que de repente tem a matéria-prima na mão. Uma revolução que se faz, um país que se muda. De repente estamos no centro das decisões e da mudança. Servir o Cartaxo nesse período foi um privilégio. E o poder local foi, digam o que disserem, o grande obreiro da democracia”.

Eu Quero
“Ter saúde e que a nossa família seja feliz. Que este mundo reconsidere o seu apelo e que tenhamos um mundo melhor. Não sei quando nem como mas, pelo menos, que caminhemos para um mundo mais fraterno, mais solidário, mais humano”. Maria José Campos
Ler
1 De 13

Foi assim que se estenderam redes de saneamento básico, eletricidade e equipamentos por todo o concelho. “O Cartaxo era uma vila simpática mas não tinha qualidade para dar uma vida decente às pessoas. E foi extraordinário trabalhar em conjunto com as populações. Hoje as dinâmicas mudaram, talvez porque o protagonismo do poder local está diferente, distanciou-se muito das pessoas. Para nós só foi possível fazer certas obras com o empenhamento desinteressadíssimo das populações e dos funcionários da Câmara”.

De todas as obras que têm a sua marca na cidade, o Museu Rural e do Vinho merece destaque. “Não vou negar que me deu um prazer particularmente grande fazer o museu, a Quinta das Pratas. O museu sobretudo porque foi um projeto muito participado que se tornou inesquecível. Foi muito interessante e envolvente e talvez seja o que tem um cantinho no meu coração. As pessoas sentiram o museu como uma coisa sua. Todas essas atividades tinham também um objetivo de natureza económica. Estávamos num concelho rural e o vinho podia ser o motor de arranque para outra fase de desenvolvimento do concelho”.

Nunca se candidatou à presidência da Câmara porque sabia que o marido a iria seguir e a saúde dele não o permitia. Agora mantém-se afastada da ribalta por opção. “Os anos vão passando, a saúde não me permite continuar no mesmo ritmo. Cada tempo tem o seu tempo. Agora é tempo dos mais novos e de nos recolhermos a uma vida mais caseira, mais simples”.

Eu Não Gosto
“Do egoísmo e da inveja, acho que nós temos um bocadinho desse perfil de mesquinhez. De ver as pessoas sofrer e a empobrecer. Nem da guerra, das injustiças do mundo, dos conflitos. Nem que uma parte da humanidade escravize a outra parte. Que se destrua o planeta porque é cá que vivemos e é cá que pagamos as consequências”. Maria José Campos

Eu Não Sou
Invejosa, nem injusta. Procuro não ser polémica e não gerar conflitos .

Maria José Campos

A distância não lhe retira o olhar sobre a cidade que preferia que tivesse continuado a ser “a vila acolhedora que era”. E aponta o que acha que deve ser feito. “Precisamos criar emprego. Estamos a formar uma geração alfabetizada, que atingiu o conhecimento e que pode fazer a diferença. Precisamos de investimento que ajude a criar riqueza e emprego, o resto virá por acréscimo”.

Definindo-se como “uma mulher do conhecimento” não é frequentadora de redes sociais mas utiliza a internet para se manter atualizada, ler notícias e informação. Quanto ao futuro confessa: “Não tenho muito otimismo porque o problema não é só nacional. É europeu e mundial. Os modelos sociais europeus estão em risco de se perder. Não sei o que virá. O Deus mercado está por todo o lado e sobre esse aspeto não sou muito otimista. Vivemos num mundo de profundas contradições. Como é que o homem, com avanços que nunca pensou vir a ter, seja na tecnologia, na medicina, na conquista do espaço está a destruir cada vez mais o planeta e a aplicar práticas de vida marginalizadoras do ser humano. Não consigo ser indiferente”.

Eu Não Quero
“A miséria, a fome, a guerra. Que um homem trate mal outro homem. Que o racismo e a xenofobia imperem, porque isso só nos diminuí como seres humanos”. Maria José Campos

Texto publicado na edição impressa da revista DADA nº48, de fevereiro de 2014

Pode gostar também