Perfil – Zelinda Duarte Pêgo

72 anos, é licenciada em história, mãe do Luís Serafim, avó da Raquel, da Patrícia, do Gonçalo e da Rita. Vive em Pontével.

Zelinda Pego

Eu Sou
Signo leão. Comunicativa, teimosa e acho que não sou má pessoa, sou muito ativa e observadora. Penso que me relaciono bem com as coisas e com as pessoas.

72 anos, é licenciada em história, mãe do Luís Serafim, avó da Raquel, da Patrícia, do Gonçalo e da Rita. Vive em Pontével.

É a elegância na forma de andar e vestir que primeiro nos desperta a atenção. Depois vem o sorriso e, logo a seguir, a energia com que nos cumprimenta. Maria Zelinda Pêgo não dá espaço para hesitações nem perdas de tempo. Com afabilidade, mas emanando segurança, guia-nos até à sala de sua casa, em Pontével, onde nos recebe, entre memórias, livros, arquivos de história e brincadeiras dos seus inseparáveis gatos. Nasceu nos Casais de Alcaria, fez a instrução primária em Santarém e, quando os pais foram viver para Lisboa, ficou com os avós e estudou no Colégio Marcelino Mesquita, no Cartaxo.

Eu Gosto
De me sentir bem em família e em sociedade. De me vestir bem, de parecer bem. Ao nível da comida gosto das nossas misturadas, do bacalhau, de arroz doce, de fatias paridas. Do vinho do Cartaxo, tinto. De andar no campo a plantar coisinhas, de curar as laranjeiras, as nespereiras, de ter esta atividade que via os meus avós fazerem. De pessoas frontais e sinceras. De ver notícias e de ver a RTP Memória para ver os artistas como eram e como estão agora.

Eu Quero
Viver mais uns anos tão bem como estou agora. Ver a minha família, o meu filho e os meus netos, bem. E continuar a fazer
a minha rotina.

Do avô ouviu relatos da I Guerra Mundial e dos tempos do Sidónio Pais, que talvez lhe tivessem despertado o gosto pela história. “Sempre gostei” conta-nos, “mas só tirei o curso quando já trabalhava na Segurança Social. Fiz o ad-hoc e tirei o curso de cinco anos, a trabalhar e a estudar”. Não gosta que lhe chamem historiadora porque acha que para isso “devia ter mais material publicado” mas, por exemplo, no sítio da Junta de Freguesia de Pontével, os textos históricos são todos seus. “Sim, o que faço forneço para a Junta. Não sou pessoa de guardar o que sabe. A nossa função é comunicar o que sabemos. Mas tirando artigos para jornais, o que escrevo para o meu site, www.pontevel.com e a colaboração, em 1981, no livro sobre Marcelino Mesquita, editado pela Câmara, não publiquei muito”.

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Eu Não Sou
Velhaca, cínica, quadrilheira
e intriguista.

Destaca vários historiadores do concelho mas acha que há muito para fazer “não tem havido vontade, acho eu. Mas o Cartaxo está bem servido, o Rogério Coito tem escrito, a Maria Manuel, a Maria José Pego também, há um rapaz novo de quem gosto muito que é o Miguel Leal. Mas eu dedico-me mais a Pontével até pela antiguidade. O Cartaxo tem um foral de D. Dinis, Pontével é mais antigo, tem foral de 1194”. Fundadora da Associação Rio da Fonte dedicada à defesa do património histórico e ambiental de Pontével, Zelinda Pego confessa não ter deixado na vida muita coisa para fazer. Na investigação histórica gostava de ver o arquivo histórico da Junta de Freguesia devidamente organizado. “Há uns anos houve contatos. Temos aqui documentos dos séculos XVI e XVII, há um espólio importante mas não sei se há vontade para o fazer. E gostava de fazer um livro atual sobre Pontével” confessa.

Eu Não Gosto
De pessoas mentirosas e falsas. De falta de sinceridade, quando falam connosco e estamos a ver que aquilo não é verdadeiro. De chicharros. De pão de milho nem de papas de milho. De Licor Beirão, tive uma má experiência (risos).

Garante que não gosta de se meter em política mas é observadora da sociedade e partilha do mal-estar geral que o país vive. “Repare, ganho menos agora do que quando me reformei em 2000. Têm de se tomar medidas para haver desenvolvimento económico”. Com “o filho e os netos criados” confessa, no entanto, que vive calmamente. “Não me sinto muito mal porque faço a minha vida entre a Amadora, Pontével e os Casais de Alcaria, que são os meus espaços. E tenho os meus papéis e investigação que vou fazendo”. Socialmente, lembra que se devia “dar mais informação aos jovens para não se perderem raízes. Aqui, por exemplo, há a festa dos Fazendeiros que ainda faz uma retrospectiva do que era a atividade económica, mas perderam-se celebrações, como o Enterro do Bacalhau, e outras que eram importantes para a nossa cultura”.

Eu Não Quero
Morrer cedo. Que me tirem mais na reforma. Que a situação politica se agudize. Que os meus cães e os meus gatos morram.

Cultura é o que resulta de uma simples conversa com Zelinda Pêgo. O seu gosto pelo conhecimento leva-nos a viajar pelo passado com um olhar nos nossos dias. “É assim que vejo a história. Se falo da Condessa de Pontével, Elvira Maria de Vilhena, tenho em atenção que temos aqui uma casa, datada de 1589, estão lá familiares. Gosto de ligar o passado ao presente.”


Texto publicado na Revista DADA nº49,  edição impressa de abril de 2014

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