Pinóquios, as mentiras na infância e na adolescência

Por Sónia Parente

As mentiras são frequentes motivos de preocupação e de zanga dos pais para com os seus filhos. No entanto, a mentira vai tendo diferentes formas e significados ao longo do desenvolvimento e a importância dada à mesma depende essencialmente da frequência e da idade da criança ou adolescente.

Nas crianças mais novas, como ainda têm alguma dificuldade em distinguir a realidade da imaginação, a mentira nasce do seu imaginário que confundem com a realidade e elas próprias podem acreditar realmente no que estão a contar.

Até uma certa altura, que depende de criança para criança, elas acreditam que os pais conseguem ler os seus pensamentos e, portanto, não mentem intencionalmente porque consideram que os pais sabem. À medida que se desenvolvem, apercebem-se que os pais não têm essa capacidade e é natural que a testem, sendo uma forma de autonomização em relação aos seus pais. A possibilidade de ter um mundo interno só seu é também um marco no desenvolvimento psicológico na medida em que o “eu” está a ser construído, permitindo que se sintam independentes psicologicamente dos pais. A mentira como processo de autonomização é também comum entre os adolescentes que sentem as perguntas dos pais como demasiado invasoras da sua privacidade – na adolescência a privacidade ganha uma importância natural – e através de mentiras também saciam a curiosidade dos pais.

A mentira intencional está associada sobretudo a cinco aspetos: evitar castigos (a solução mais fácil), não desiludir os outros, conseguir algo que deseja muito, auto-afirmação (inventar histórias em que é ou foi “o melhor”) ou imitação de amigos ou dos próprios pais ou familiares (achar que é natural mentir, por exemplo porque a mãe mente ao pai acerca determinadas situações em que mãe e filho são cúmplices).

A mentira patológica é um sintoma de perturbação emocional, há um “vício” em mentir e esta mentira compulsiva vem normalmente acompanhada de outros comportamentos anti-sociais, como roubo, dificuldades na relação com figuras de autoridade, muita impulsividade …

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O que fazer? Pais e educadores devem tentar compreender qual é a intenção da mentira, e perante mentiras frequentes sobre o mesmo tema ter em atenção, pois indicam sinais de angústia acerca desse tema.

O recurso ao castigo deve ser evitado, pois reforça a tendência para utilizar a mentira como estratégia de evitação do mesmo. O mais correto é falar abertamente acerca das consequências negativas da mentira (como o deixarem de confiar no filho) e das vantagens que a verdade lhes trará. Deve-se reforçar positivamente quando assumem algum comportamento menos bom, elogiando a coragem de o fazer.


Sónia Parente é psicóloga clínica

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