Pode um festival criar novas paisagens?

Opinião de Elvira Tristão

Herdeiros do hedonismo hiperconsumista de que nos fala o sociólogo francês George Lipovetsky, quando lemos ou ouvimos a palavra “festival”, pensamos numa concentração de espetáculos visitados por multidões de forasteiros numa espécie de romaria da moda. Mas o conceito de festival tem vindo a mudar, fruto de experiências cívicas, como o Festival de Cem Soldos, onde se releva a dimensão do território associada ao forte sentido de construção comunitária.

Por cá, acabamos de testemunhar o Festival Materiais Diversos, no Cartaxo, um festival partilhado por dois territórios no Ribatejo. Na Lezíria, Cartaxo, no Médio Tejo, Alcanena.

Ao longo da sua história e em ambos os territórios, o Festival Materiais Diversos dedica-se às artes performativas emergentes, diria eu sem querer utilizar rótulos redutores, ou arte contemporânea, se quisermos. A Associação com o mesmo nome tem-se dedicado a apoiar a criação artística, gerando oportunidades à experimentação de novas linguagens, sobretudo na dança. Para os mais atentos tem estado sempre subjacente a essas práticas a ideia de arte como exercício de cidadania. Uma cidadania assente numa observação atenta sobre o que nos rodeia e o que faz do nós o que somos. Para outros, a atividade desta Associação é já uma presença regular no trabalho das escolas do concelho, tirando partido das suas residências de pesquisa ou de criação de espetáculos, e oferecendo a alunos e professores workshops, por exemplo, de filosofia e teatro, ou ensaios abertos, antestreias de espetáculos ou conversas com artistas, no Centro Cultural do Cartaxo.

Na semana de 5 a 12 de outubro, no Cartaxo, antes de rumar a Alcanena, o Festival Materiais Diversos reinventou-se. Mantendo a sua orientação de sempre, deu visibilidade a temas como as artes e a inclusão, a condição humana e a condição feminina, os paraísos desejados ou os futuros que temos pela frente. Ao reinventar-se, o Festival questionou o seu próprio papel, enquanto agente transformador do território. E, criando uma espécie de extensão do projeto “Pergunta”, da edição de 2019, instalou no Centro de Convívio o projeto do Teatro do Frio, “Paraíso Bruto”. Quem passou naquele pedaço de jardim não lhe ficou indiferente. O projeto interpelou sobretudo os jovens, passantes, ou frequentadores regulares do skate park. No domingo 10, foi possível conhecer a dimensão visível desse trabalho, com a conversa de encerramento “E depois do paraíso?”. Ficámos a saber pela voz dos jovens que “o paraíso é aquilo que fazemos”. Jovens, com nome próprio, conhecidos dos serviços municipais da cultura, educação e juventude, que só querem a possibilidade de ocupar um espaço e um tempo em que possam inscrever-se no seu território.

Reparar, cuidar, partilhar, eis o slogan da edição de 2021 do Festival Materiais Diversos. Eis o repto que nos é lançado: reparar no que até aqui teimamos em não ver, cuidar do espaço público incluindo neles as pessoas, partilhar o bem comum, alimentando o desejo e o compromisso de cuidarmos do que é de todos. 

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Obedecendo a essa ideia-chave de espaço público que é de todos, a programação do festival foi variada. No dia 8, cinco turmas do Agrupamento D. Sancho I puderam assistir à peça “o estado do mundo (quando acordas)” , no auditório da SFIP. Uma peça que nos interpela para os problemas ambientais e para a necessidade de hábitos e consumos sustentáveis. Nos dias 7, 8 e 9, foi possível assistir à peça “Palmira”, na Galeria José Tagarro. Um espetáculo de rara beleza sobre a condição feminina. No dia 9, no espetáculo “Ruído Rosa”, no CCC, Alina Ruiz Follini literalmente deu corpo e voz a uma narrativa que cada espectador construiu ao dar sentido ao que a coreógrafa e bailarina nos deu a contemplar. O cinema com os filmes “filme” e “chuva é cantoria na aldeia dos mortos” também marcou presença nesta edição.

Durante todos os dias do festival teve lugar uma conversa, numa recriação da “longtable”, de Lois Weaver, onde os convidados puderam procurar respostas para as perguntas “que paisagens pode um festival criar?”, “que futuros temos aqui?”, “a arte inclui todas as pessoas?”, “o que comunicamos quando comunicamos cultura?” entre outras, e, finalmente, “e depois do paraíso?”. Nessa conversa, junto ao centro de convívio, fez-se o encerramento do “Paraíso Bruto”. O legado mais visível do projeto é o mobiliário urbano construído pelo coletivo Teatro do Frio com a participação dos jovens ao longo da residência. Ficou ainda um outro legado: o desejo, ou melhor, o compromisso de habitar aquele espaço, reparando, cuidando, partilhando.

Tenho para mim que o Festival pode transformar o território, aquele pedaço de paraíso bruto, em concreto, se o desejo que gerou for suficiente para alavancar dinâmicas de participação e partilha com as artes como agente agregador.

Quanto ao resto, o Festival, com a Associação Materiais Diversos, faz-se da relação de proximidade com as escolas, com os demais agentes culturais, criando pontes entre os de cá e os do mundo, criando oportunidades de criação artística àqueles que querem experimentar linguagens novas, numa permanência que está muito para lá do Festival. O trabalho da Associação Materiais Diversos tem vindo a aprofundar-se ao longo dos anos com um projeto pautado por propostas sérias e de qualidade. E o que espero sinceramente é continuar a contar com os seus projetos parceiros cuja qualidade é reconhecida pela Direção Geral das Artes.

No concelho do Cartaxo, o universo associativo é plural e cobre muitas práticas culturais, artísticas, cívicas. Temos o teatro, o folclore, a música, a ecologia, o desporto e há espaço e público para todos os gostos. Esta associação também se inscreve no nosso território no sentido em que a sua atividade se destina à programação cultural e à formação de públicos com o trabalho realizado com o público escolar. Através da Associação Materiais Diversos, temos no Cartaxo o apoio do Ministério da Cultura que apoia os projetos desta estrutura profissional dedicada às artes. E indiretamente a economia local também beneficia. Só a título de exemplo, na edição de 2019, entre alojamento, restauração e recursos humanos contratados localmente foram injetados na economia local acima de 30 mil euros. Se acharmos pouco, juntemos-lhe o trabalho realizado com as comunidades escolares e a programação cultural de acesso gratuito ou de valor simbólico. Por último, e acima de tudo, oferece-nos um trabalho no domínio da cidadania e da participação. É por isso uma mais valia para o Projeto Cultural de Escola do Agrupamento Marcelino Mesquita, no âmbito do Plano Nacional das Artes. Há projetos cujo valor é transversal aos ciclos políticos autárquicos e este é um deles.

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