Pontevelenses na 1ª Grande Guerra

Opinião de Zelinda Pego

A 1ª Guerra Mundial foi um acontecimento que marcou todo Portugal; há sempre alguém, aqui ou ali, que recorda um familiar ou amigo que combateu na Grande Guerra. Pontével, não foge à regra. José Rodrigues, João Filipe Amorim, Joaquim Duarte Severino, José Silvério Júnior e Filipe Inglêz Júnior e certamente mais algum que não chegou ao meu conhecimento foram pontevelenses que fizeram parte do CEP, Corpo Expedicionário Português, que em 1916, rumou a França.

Hoje, quase cem anos volvidos, já pouco se sabe como era a vida destes homens em França, além da guerra, isto é, certamente nuns momentos de pausa, se é que assim se podem considerar.

A memória das crianças, é fértil, e guarda momentos que talvez pela graça, ou pelo divertido já mais os esqueceu.

Aí, nos finais da década de 40 do século passado, era eu uma criança, lembro-me de ouvir contar “coisas da guerra”que nunca mais esqueci e não deixo de as partilhar aqui.

O meu avô era pequeno fazendeiro, que ao sábado à noite, após a despega pagava a féria e a melhadura, lá na sua adega, nos Casais d´Alcaria, aos homens que trabalhavam com ele nas fazendas; contudo, convívio, alargava-se aos vizinhos e amigos que na hora ali passavam.

Assim numa dessas noites, entre outros amigos, estava o Zé Rodrigues que também tinha uma propriedade nos Casais d´Alcaria, um homem, alto, magro, de barrete na cabeça, mas que deixava ver bem o rosto, e mostrava-se alegre e bem disposto, com o seu cajado na mão.

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Com um certo ar de glória começou a contar “coisas da guerra”.

Disse então que um dia, ele e uns colegas, foram a uma feira, mas quando quiseram apanhar o comboio para voltarem para o quartel não sabiam o caminho para a estação; perguntavam, perguntavam, mas ninguém os compreendia; já muito aflitos, porque se aproximava a hora do recolher, um deles fez dois longos riscos paralelos no chão cortados por pequenos traçados transversais e disse: “u… u… upocaterra… u… u… upocaterra…”

Os franceses compreenderam e, dizia ele, com alguma emoção: “aquase… que levavum agente ó cole…”

Num outro dia, foram a uma taberna; um deles estava com fortes dores de barriga; deitaram-no em cima dum banco corrido, desapertaram-lhe as calças e pediram à dona da taberna, uma caneca de chá. Eis quando a senhora aparece com um gato ao colo; olham uns para os outros, e interrogam-se: “… É pá… sará… caqui… in França os gates fazim bem à barriga?..

Então abrem as calças do homem e põem-lhe o gato na barriga. O gato arranhou a barriga ao homem e pôs-se em fuga. Mas, rematava o Zé Rodrigues, com ar de vencedor: “… e… atão, não é… que lhe passou a dor de barriga?

Mais coisas se falavam certamente, mas os tempos da Grande Guerra, embora já distantes continuavam a fazer parte das suas memórias que por razões diversas eram comuns a muita gente.

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