Quando a arquitectura dá o nome ao sítio

A Palhota de Valada, as Palhoças do Cartaxo e as Malhadas do Vale da Pedra. Por Pedro Gaurim

É possível que algumas pessoas ainda se recordem da existência de construções feitas com materiais orgânicos – madeira, cana, colmo – na região do Cartaxo. A modernização acelerada da habitação nas últimas décadas e a efemeridade dessas construções fez com que hoje sejam praticamente inexistentes, permanecendo apenas na memória e na toponímia. Para encontrarmos exemplos, temos de recorrer mais à documentação histórica, aos estudos de caso e menos aos raros exemplares que chegaram aos nossos dias. Como comunidade, quase esquecemos que a nossa arquitectura tradicional não era apenas construída de terra, pedra e cal ou tijolo, de tipo durável. Havia arquitectura de madeira, palha e canas que servia de habitação permanente, temporária ou de abrigo no campo e que servia toda uma vivência urbana ou no isolamento do campo, da charneca, da vinha, da floresta.

Na freguesia de Valada, a aldeia da Palhota é um dos raros sobreviventes de que nos devemos orgulhar. Além de representar uma cultura própria, a cultura da borda d´água e da pesca, por oposição ao mundo da terra e da agricultura, as aldeias avieiras eram na origem construídas de madeira, canas e palha. Estas casas, designadas palhotas ou palhoças, designação proveniente do principal material de construção, que era a palha, são hoje praticamente inexistentes. Aquilo que hoje consideramos a casa avieira, toda de madeira com telhado de telha ou materiais ainda mais modernos, é já uma actualização de materiais, surgida possivelmente desde meados do século XX (Figs. 1 e 2). Outra aldeia avieira, de que só ficou o nome relativo aos materiais foi Caneiras (Santarém) relativa à construção de paredes com caniços. O Museu do Escaroupim, um museu pequeno, mas excelente e esclarecedor da cultura avieira, expõe em modelo reduzido, uma dessas palhoças originais inexistentes (Fig.3). As antigas barracas dos meloais do campo (lezírias) também são casos interessantes e objecto de estudo numa obra de grande referência entre os antropólogos, intitulada Construções Primitivas em Portugal, da autoria de Ernesto Veiga de Oliveira (1910-1990), Fernando Galhano (1904-1995) e Benjamim Pereira (1928-2020), publicada pela primeira vez em 1969 (Figs.4 e 5).

No Cartaxo, a Rua José Tagarro foi a antiga Rua das Palhoças e ainda hoje existe a Travessa das Palhoças. Já na década de 1940 se chamava Rua José Tagarro e a título de curiosidade, refiro que aqui nasceu o grande jornalista local António Ricardo Arsénio Araújo, a 27 de Novembro de 1916, a quem o Cartaxo muito deve pela memória que deixou nas suas crónicas. A designação de Rua das Palhoças surgiu há cerca de 240 anos, provando bem a existência antiga de palhoças não apenas nas aldeias avieiras, mas noutros locais. Testemunha desse facto é uma fotografia dos arredores do Setil, anterior a 1960 (Fig.6) e publicada no importantíssimo estudo intitulado Arquitectura Popular em Portugal, publicado Sindicato Nacional dos Arquitectos em 1960. De facto, o pároco do Cartaxo em 1826, António Teixeira Leitão, em resposta ao arcebispo de Lisboa para se justificar de umas queixas que os paroquianos tinham feito sobre ele, em relação ao percurso do viático, refere que a Rua das Palhoças existia há cerca de 40 anos, o que corresponde a 1786 (Vigararia do Cartaxo, Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa). Outra referência interessante em relação a estas habitações, é feita por Francisco Câncio (1903-1973) em 1934 na sua obra Ribatejo, em que refere que a palhoça era o abrigo dos campinos nos momentos de folga (p.28), e que, a palhoça de caniço ou a barraca de madeira são as habitações dos pescadores do Tejo (p.23).

Em Vale da Pedra, a Quinta das Malhadas é outro exemplo toponímico que pode remeter para a arquitectura tradicional. Malhadas eram construções geralmente de materiais orgânicos, usadas para abrigo de porcos, cabras ou carneiros. Também foram objecto de estudo na referida obra sobre Construções Primitivas em Portugal (Fig.7). Tipologia caída em desuso, só em enciclopédias e dicionários mais antigos se encontra a palavra “malhadas” com este significado: choça, cabana de pastores, curral de gado (Cf. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol.XVI [década de 1940]).

Por todo o país houve construções com materiais orgânicos, que nuns casos desapareceram e noutros deram origem a curiosidades turísticas ou inspiraram a arquitectura moderna. As casas de Santana, na Ilha da Madeira, devem ser as mais famosas habitações de madeira e telhados de colmo em Portugal.O estigma da pobreza e da carência associados a estas habitações e o fascínio com a generalização dos “andares”, a que hoje chamamos “apartamentos” a partir dos anos 1960, extinguiram este modelo habitacional. Bons exemplos em que a arquitectura moderna se inspirou nestas construções são por exemplo a Pousada de São Bento na Caniçada (Serra do Gerês, 1949), moradias de férias na Costa Nova (Fig.8), nos Palheiros da Tocha (Fig. 9) ou os longínquos resorts palafíticos das Maldivas, ou a inspiração dos yurts e outras construções tradicionais para fazer glamping.

Por outro lado, também noutros locais do país as construções passaram para a toponímia: Alpalhão (de “palha”), Cabanas de Viriato, Cabanas de Tavira, Caniçada (Vieira do Minho), Malhadas (Miranda do Douro); Malhadas da Serra (Pampilhosa da Serra), Palheiros da Tocha, Palheiros de Mira, etc.

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No panorama internacional, há muito que os arquitectos se inspiram no valor pitoresco da arquitectura para construir habitação de linha tradicional, afastada dos modelos académicos (clássicos ou históricos), com projecto de arquitecto e inovação, respondendo às exigências do conforto. O inglês John Nash (1752-1835) foi um dos pioneiros a dar fama às cottages, as pequenas casas rurais inglesas com telhados de colmo, que ainda são um sucesso para habitação permanente ou motor económico pelo turismo (Fig.10). Em França, o empresário Haret et Fils inspira-se nos abrigos de montanha, em madeira, usados pelos pastores da Suiça francesa, designados chalets, e constrói uma mansão na Exposição Universal de Paris de 1867, para a recepção da comissão imperial. O edifício, pré-fabricado, foi depois reaproveitado pelo empresário, na estância balnear Villers-sur-Mer, no norte de França. Foi um dos pioneiros que promoveu o modelo de chalet para o mundo e não há hoje praia com alguma tradição balnear desde inícios do século XX, que não tenha ou tivesse tido os seus chalets. Na década de 1870 surge em Sintra o Chalet da Condessa de Edla, talvez, o primeiro chalet português. (Fig.11)

Portugal é pequeno, mas rico em diversidade. Hoje que os modelos ecológicos e sustentáveis estão na ordem do dia, e por isso, mais do que nunca se justifica olhar novamente e reinterpretar a nossa arquitectura tradicional, que com alguma criatividade, podia ser uma mais valia económica e diferenciadora. Nestes aspectos, a Palhota é uma boa herança para reflexão.


Pedro Gaurim escreve segundo a antiga grafia

Artigo publicado na edição de feveiro do Jornal de Cá e pode ver aqui as diversas ilustrações referidas ao longo do texto

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