Quando a História passou pelo Cartaxo (II)

Crónica de José Caria Luís

Na sequência da crónica do mês de junho, o Cartaxo voltou a ter protagonismo no que concerne a factos políticos de algum relevo.

Quando, em 1958, o Chefe de Estado, general Craveiro Lopes, entrou em conflito com Salazar, deixou de ser proposto para um segundo mandato. No propósito de sair da situação de impasse, resolveu Salazar convocar eleições para a Presidência da República. A contrapor as candidaturas dos independentes Dr. Arlindo Vicente e general Humberto Delgado, Oliveira Salazar apresentou o seu candidato da União Nacional, o contra-almirante Américo Thomaz. Após o descalabro, pela razão da força, de umas pérfidas eleições, e porque o sistema vigente era do género do vira o disco e toca o mesmo, de forma a manter o figurino político de então nunca o sistema permitiria que aquelas eleições fossem livres. Esse golpe culminaria com a nomeação, por Salazar, do renegado ribatejano Américo Thomaz, para exercer o cargo de Presidente da República. O Thomaz, contrariamente ao que dele se dizia, não me pareceu ser burro, de todo. E eu, numa reunião em que estive presente, durante uma sua visita à Marina de Vilamoura, – o que transcreverei noutro local – pude testemunhar isso mesmo. No entanto, rezam as crónicas e testemunhos de então, que quem tudo comandava na retaguarda era o seu mentor Oliveira Salazar.

Essas eleições tiveram campanha e tudo. Com a diferença de os gastos dos independentes terem sido obtidos através de subscrições públicas e donativos particulares, ao contrário do representante da União Nacional cujas verbas foram suportadas pelo governo de Salazar, isto é, pelo Zé Povinho. Contudo, além dos muitos milhares de boletins de voto roubados pela PIDE, muitos outros nunca chegaram a certas zona do país, onde se supunha haver muito povo do contra.

Foi assim que, numa manhã de primavera de 1958, apareceu pelo Cartaxo, a fazer campanha, a comitiva do general Humberto Delgado. Eu, com 14 anos, nunca tal tinha ouvido, quanto mais visto. À época, trabalhava na Recauchutagem e, nessa qualidade, fui incumbido de ir comprar umas tintas à Drogaria do Carlos Pego, porém deparei-me com o estabelecimento encerrado. Pelo que me disseram, o dono teria ido para o ajuntamento, na Praça 15 de Dezembro. Nem acreditei, já que sempre ouvira dizer que o Salazar nunca permitiu ajuntamentos onde figurassem mais de 2 pessoas. Curioso, desci aquele pedaço da Batalhoz. E nem foi preciso avançar além do Manel d’ Água, para ver aquele mar de gente que ali estava sem eu saber porquê e para quê. No entanto, deduzi que aquela multidão é que seria o tal ajuntamento. Mas com que finalidade? Perguntei ao cartaxeiro Alfredo Cachorrinho o que se passava. Este, quase em surdina, explicou-me o fenómeno. Estava por aí a chegar o general Humberto Delgado, o assumido ribatejano que se propunha derrubar de vez o sinistro regime salazarista.

Humberto Delgado chegou, enfim! E eu vi-o ali, a uma dezena de metros. Ouvi gritos de vivas e vi lágrimas em muitos rostos, mas o Carlos Pego chorava convulsivamente agarrado ao general. Porquê? Fiquei chocado e confuso.

  • Artigo publicado na edição de julho do Jornal de Cá.
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