Quando a História passou pelo Cartaxo (III)

Crónica de José Caria Luís

É verdade! Foi com um longo e apertado abraço que o General Humberto Delgado correspondeu àquela grande manifestação do cartaxeiro Carlos Batista Pego, reflexo de um misto de regozijo e angústia de um homem lavado em lágrimas. Mas eu, com os meus 14 anos, é que não atingia a razão de ser daquela dramática cena perpetrada por alguém saído da multidão, que se abeirou e abraçou efusivamente o General. Porém, ainda que sem saber o porquê, também me emocionei, não deixando de verter algumas lágrimas pelo sucedido.

Curioso, perguntei a alguns dos circunstantes, pessoas mais velhas que eu, o porquê de tal manifestação, mas a verdade é que eles sabiam tanto quanto eu, que era nada. Com receio de sofrer alguma retaliação ou castigo pela demora, e sem a mercadoria para apresentar na Recauchutagem, saí apressadamente sem, no entanto, ter conhecido o ónus da questão. Mesmo assim, ainda deu para ouvir os primeiros acordes vocais do Hino Nacional entoados pelo povo.

Nessa tarde, a mando do encarregado, voltei à drogaria do Carlos Pego a fim de levantar as tais latas de tinta. Desta vez encontrei as portas do estabelecimento abertas, mas, lá dentro, atrás de um longo balcão, estava um homem abatido, pesaroso, de olhar distante. Ele, Carlos Pego, pessoa relativamente alta, esguia e dinâmica, parecia estar, naquela tarde, ausente de tudo o que o rodeava. Foi o empregado Domingos Colegas – esse eterno aprendiz de toureiro – que, em silêncio, se aprontou a servir-me a encomenda. Já no armazém, que ficava no fundo da loja e onde estávamos fora do raio da ação auditiva do patrão, pedi ao Domingos que me explicasse a cena da manhã, ao que ele, em surdina, me relatou a situação em que se encontrava o genro do Carlos Pego, preso político algures numa masmorra da PIDE, creio que para as bandas de Caxias. Seria por isso que a esperança na almejada liberdade falava mais alto.

O Cartaxo seria, também, 16 anos mais tarde, cenário da passagem de uma extensa coluna de viaturas de combate da Escola Prática de Artilharia de Santarém, que, na madrugada de 25 de Abril de 1974, marchou sobre Lisboa, com a missão de ajudar a tomar pela força “O estado a que as coisas tinham chegado.” Palavras estas, entoadas pelo capitão Salgueiro Maia na preleção às sua tropas no Quartel de Santarém, pouco antes da partida rumo a Lisboa. Se a saída do Quartel se deu por volta das 03h30, então é bem provável que a passagem pela, então, vila do Cartaxo, tenha ocorrido por volta das 04h00 da madrugada.

O aparato seria grande, espetacular mesmo, mas, àquela hora, o sono profundo dos cartaxeiros era o que mais ordenava. E foi assim, meio em segredo, que uma coluna formada por 10 blindados, 12 de transporte, um jipe e mais uma viatura civil, onde viajava o capitão Salgueiro Maia, atravessava o Cartaxo a caminho da capital. O que lhes valeu – aos dorminhocos – foi o facto de os rodados serem todos de borracha, porque, imagine-se o estardalhaço em toda a vila se, acaso, em vez das maneirinhas e silenciosas rodinhas tivessem rolado altas, largas e ruidosas lagartas…

Assim, o Cartaxo também faz parte da História.

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  •  Artigo publicado na edição de agosto do Jornal de Cá.
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