Quando Garrett veio ao Cartaxo

Miguel Montez Leal

Em 1846 como muitos cronistas, professores de literatura, jornalistas e cronistas têm contado e analisado, Almeida Garrett veio ao Cartaxo.

Vindo de Lisboa onde embarcara num vapor, desce em Vila Nova da Rainha, atravessa a Azambuja, os seus terríveis pinhais de ladrões e bandoleiros que já ninguém amedrontavam e deparou-se com uma terra que classificou de moderna. “Parece o bairro suburbano de uma cidade”. A povoação, já então Vila, encontrava-se sarada das feridas das invasões francesas (a de Junot e sobretudo a de Massena foram terríveis para o Cartaxo). Todo os cronistas referem sempre a cena do café do Cartaxo, que não era um café, mas sim uma simples taberna, de balcão de madeira, banquetas duras e certamente com o famoso “vinho presunto” do tempo dos nossos antepassados, um vinho que se mastigava, que alimentava, e que então se bebia.

Durante muitos anos a tradição oral da terra dizia que esse café corresponderia ao antigo Café do Serrazina, edifício que foi demolido nos anos 60 para a construção de um dos primeiros prédios modernos à entrada da Rua Batalhoz. Mas o que menos se fala é quem foram os nossos conterrâneos que foram ao encontro de Garrett e com ele conviveram, naquele e outros dias. Garrett imortalizou-os no seu romance Viagens na minha Terra, colocando os seus nomes em enigmáticas iniciais.

Mas vejamos quem eram esses cartaxeiros: ao seu encontro e de abraços abertos veio o D. Esta inicial refere-se ao grande lavrador e liberal Dâmaso Xavier dos Santos, que vivia num palacete na rua principal. Era comendador, tinha outras condecorações e ficara muito depauperado por generosamente ter apoiado a causa liberal. Outro dos citados é o Sr. L.S., Luís Teixeira de Sampaio, que volta a ser mencionado no último capítulo da obra (Cap. XLIX), que como me relembrou um amigo, termina em Vale da Pinta: “fomos ficar fora da Vila à hospedeira casa do Sr. L.S.” Era a sua casa de campo. A Quinta ainda hoje existe sendo conhecido popularmente como “Quinta do Sampaio”.

Luís Teixeira de Sampaio, nascera em Angra, em 1789 e morreria em Lisboa em 1865. Foi agraciado com o título de Visconde do Cartaxo e possuía uma enorme fortuna, pois era o contratador-geral do tabaco, ou seja, tinha o monopólio do tabaco. Era um cartaxeiro adoptivo e no nosso concelho passava grandes temporadas. Leiam o capítulo VII deste romance invulgar e divirtam-se à procura das pistas do Cartaxo de antanho.

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