Quando o Cartaxo foi Aeronautizado (I)

Crónica de José Caria Luís

Segundo penso, só preservando e revisitando o passado, se pode cimentar o futuro. Assim sendo, seria bom lembrar que: povo que não cultive as suas memórias, as suas raízes, terá maior dificuldade no augúrio de um futuro sustentado. Por isso, abordando o tema que nos traz aqui hoje, cujo título, meio esquisito, parece não ter cabimento, tem tudo a ver com a época em que o Cartaxo se submeteu à Aeronáutica Militar, ficando Aeronautizado.

Tropa é coisa desatualizada da qual, desde há algumas décadas, pouco ou nada se tem falado. Caiu em desuso. Longe vão os tempos – e ainda bem – das grandes incorporações militares, com alguns voluntários, no sentido literal do termo, e de muitos outros, a maioria, que foram “voluntários à força”. Se o lema era defender a Pátria até à última gota de sangue… Deixando para trás o que deveriam ser os mais belos anos de juventude e um início de vida profissional em fase de consolidação, era vê-los, no dia da inspeção militar – o dia das Sortes – jorrando alegria, acompanhados de acordeonista contratado, dando voltas e reviravoltas pelas ruas da terra. Em meados dos anos 50, nalguns meios, como Vale da Pinta, o grupo deslocava-se, a pé, até às Quintas dos Lameiros ou do Atravessado, a fim de se encontrar com o numeroso rancho de moçoilas que por ali labutava na agricultura. O rancho tinha direito a uma hora de sesta, mas, naquela tarde, a soneca iria ser substituída, com vantagem, pelo bailarico que os rapazes das Sortes se propuseram levar até elas. Rapiocando ao ritmo de marchinhas abrasileiradas e passodobles, todos balhavam. Até aqueles que o não sabiam e nunca se tinham agarrado a uma rapariga, mesmo às pisadelas e aos tropeções lá iam inebriando as suas almas vivendo o sonho das suas ainda curtas vidas.

Quem ficou apurado para todo o serviço militar estava radiante, feliz da vida e tinha direito a colocar, na lapela do seu primeiro fato, duas fitas: uma encarnada e outra verde. Porém, para aqueles que ficaram de espera ou foram reprovados, os primeiros exibiam uma fita amarela e outra branca, os outros, uma triste amarela como se fossem portadores de iterícia. Era uma tremenda angústia, da qual nem as famílias se alheavam, chorando pelo fracasso. Era mau sinal: ou se era raquítico e o Exército concedia-lhe mais um ano para engordar, quiçá à força de casqueiro e batatas, ou tinha qualquer outra maleita ou deficiência física que o inibia de corresponder ao perfil de um valente e garboso militar. Por isso, em vez de ir atrapalhar nas fileiras, melhor seria ficar em casa. Mas isto foi na década de 50, porque dos anos 60 em diante, de espera ninguém ficava. E o facto de se ficar livre já não seria tão mal visto assim. O pessoal, vendo no ar o espetro da mobilização e embarque para as guerras de África, já não embarcava numa de herói. Isso era mais para os filmes. Como o mundo pulava e avançava, até a malha da triagem das inspeções foi amplamente alargada. Apenas zarolhos, manetas e pernetas ficavam de fora das listas de carne para canhão; quase todos os outros, válidos e menos válidos, marcharam rapidamente e em força para terras de além.

  • Artigo publicado na edição de setembro do Jornal de Cá.
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