Quando o Cartaxo foi Aeronautizado (III)

Crónica de José Caria Luís

Naquela recruta do último trimestre de 1965, sorte teve o Avelar Marques por não ter ficado sob o jugo do cartaxeiro tenente Mineiro; o Avelar mas também os restantes conterrâneos… Estou convicto de que o dito Mineiro, militarista refinado como era, mandaria a solidariedade concelhia às malvas e ainda carregaria as costas do Avelar com mais uma ou duas pesadas armas. De qualquer modo, e para o bem comum, o tenente não fazia parte da estrutura de oficiais que administravam e ministravam aquela recruta. Numa Base Aérea com muita gente, que, em épocas de recruta, chegou a ter mais de 2000 militares, estou em crer que não havia um único que não conhecesse o tenente Mineiro.

Eu, como secretário do Gabinete da Polícia Aérea – lugar antes ocupado pelo cartaxeiro António Leal – tinha, entre muitas outras funções, a de elaborar a Escala de Serviço. Porém, em certos fins de semana, quando me dava na telha, autonomeava-me para certas patrulhas, rondas e tudo o que de mais justificasse a saída da Base, para arejar, viajar e, de quando em vez, aceitar o convite para beber um copito de água-pé na adega de um qualquer militar residente nas redondezas. Todavia, como é natural, agia com toda a serenidade, compenetrado no meu papel. Nada de procurar ou criar conflitualidades com a massa militar que desfilava por toda a Nacional1, entre a BA2, Alenquer e Vila Franca de Xira. Até um dia…

Certo domingo de verão, pelo meio da tarde, estava eu chefiando a patrulha que demandava terras de Vila Franca, quando atendi uma chamada, via rádio, emanada da BA2 pelo oficial-de-dia tenente Mineiro. Com voz fina, mas de duro militarista que se prezava ser, ordenou-me: – “Eh, pá! Vai de imediato à Picaria de Alenquer e prende-me os dois gajos, dois açorianos, que por lá andam a causar distúrbios na arena.” Havia alguns oficias e sargentos da Base que residiam em Alenquer; daí, um telefonema para a Base, para o tenente Mineiro, e Polícia Aérea em ação. Oh, diabo! Pensei eu. Logo isto tinha que acontecer comigo… Mas fui.

Era uma Picaria e peras, com bancadas e tudo. Quando assomei às trincheiras deparei-me com a triste cena de dois militares, em plena arena, por demais desfraldados, abandalhados, empoeirados e aparentando serem portadores de valente bebedeira. Mas não foi fácil deitar a mão àqueles rufias, não. O pessoal das bancadas, assim que nos avistou, deu em lançar vaias, todo o tipo de impropérios, pateada… enfim, um inferno. Mas eu, com a maior calma do mundo, tentava aliciar os soldados a virem ter connosco, a bem, porque, desse modo, nada lhes acontecia. Os fulanos, sentindo-se com as costa quentes pela assistência, também nos mimoseavam com o pior vernáculo que existia e não nos davam mão. Esgotados os argumentos, entrámos na arena e arrastámos os dois desordeiros para o jeep que, com o condutor, nos aguardava no exterior.

Dali até à Base da Ota, foi um autêntico festival. Toda a gente sabe que o linguajar dos micaelenses é muito atrevido, por isso a cada filho de fulana, duas arrochadas no lombo. E agora chegava a hora de proceder à entrega das encomendas ao tenente Mineiro.

  • Artigo publicado na edição de novembro do Jornal de Cá.
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