Quem és tu?

"Lá Pela Terra", por Vânia Calado

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Aproximavam-se de cara tapada e roupas que escondiam as formas. Mudos e calados. Nem se sabia se era homem ou mulher que ali se escondia.

– Quem és tu? – perguntava quem os via de cara tapada.

– ‎Ah, esse é fulano – respondia logo quem sabia tanto como todos os outros.

– ‎Ná, este é beltrano. Conheço-o ao longe – garantia outro com tanta certeza quanto o anterior.

Não se fazia o baile sem uns quantos assim, escondidos, a atentar o juízo dos outros que por ali estavam, mascarados com o que tinham encontrado. Tinham dado a volta aos baús das avós e aos armários das mães à procura do que lhes servisse o propósito. Dali apareciam as velhas e as matrafonas só para a galhofa e mais uns quantos piratas e princesas daqueles que levavam aquilo a sério.

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A sala a que se resumia a associação transformava-se em salão de baile com direito a palco para o conjunto e bar para os comes e bebes. A folia não se faz a seco nem de estômago vazio e a aldeia inteira queria espairecer as ideias.

Os pares enchiam a pista de dança enquanto o conjunto marcava o ritmo. O agarra aqui acompanhado do chega para lá.

– É carnaval, ninguém leva a mal – isso é o que dizem, mas o respeito é muito bonito.

Os cachopos, pouco dados a danças e bailaricos, tentavam entrar pela janela da sala que servia de armazém. Uns heróis, pensavam eles enquanto ignoravam que toda gente sabia o que eles andavam a fazer. A mocidade é sempre a mesma coisa e já todos tentaram roubar uma garrafinha de gasosa. Dava aquela sensação de ser quase adulto.

A noite não terminava sem que fosse anunciado o prémio da melhor máscara. Lá era entregue a cerveja como troféu quando o álcool já começava a aquecer o corpo. Festa sem uma pinga a mais nem soava ao mesmo. Que haja alegria durante a noite que de manhã voltam todos a ser aquilo que são. Sem máscaras que os escondam.

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