Quem nunca quis ser o Victor Lazlo do Casablanca?

Opinião de David Estêvão

A 25 de Março de 1957 foi assinado, em Roma, o Tratado que instituiu a criação da Comunidade Económica Europeia e a Comunidade Europeia para Energia Atómica. Efeméride à qual não se dá grande importância.

Nesta altura são (ou eram) sempre mencionados os mesmos obreiros do projeto europeu que, na circunstância, desempenhavam funções políticas de representação dos seus países (Jean Monnet, Robert Schuman, Konrad Adeneaur etc…).

Existem, no entanto, figuras quase míticas que se destacaram particularmente na defesa e divulgação de um projeto de união para a Europa.

Na antecâmara da formação das comunidades europeias destacou-se Richard Coundenhove Kalergi (1894 – 1972) que após a I Guerra Mundial lançou na sua obra – Paneuropa (1923) – as bases para quilo que deveria ser o futuro da Europa.

Considerava que a única forma de contornar a trajetória decadente da Europa seria através da criação de uma União Paneuropa. Desta União deveriam ficar de fora o Reino Unido e a Rússia temendo-se a desestabilização criada pela Rússia e pelos interesses anglo-saxónicos.

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A ideia de um projeto político que unisse a Europa não era nova, mas a forma como Coundenhove-Kalergi mobilizou as elites foi notável e talvez o tenha feito de uma forma que até hoje não voltou a acontecer.

Após o lançamento da sua obra organizou os Congressos da Paneuropa ao qual compareceram os pesos pesados da atualidade (e da história da humanidade) como Albert Einstein, Thomas Mann, Sigmund Freud, Rainer Maria Rilke e 2000 delegados provenientes de 24 países.

Na abertura do I Congresso da Paneuropa (1926) foi reproduzido o hino da Alegria (integrante da 9ª Sinfonia de Beethoven) que de resto foi proposto como hino da Europa pelo mesmo Coundenhove-Kalergi.

Toda esta mobilização não evitou a ascensão de movimentos totalitários que redundaram principalmente no fascismo italiano e no Nacional-Socialismo Alemão. Ainda assim, publica em 1939 a obra Europe Must Unite.

Com o eclodir da II Guerra Mundial Coundenhove-Kalergi continuou a sua conspiração para unificar a Europa, fugindo da Áustria, para a Checoslováquia, daí para França, de França para a Suíça e daqui passou por Portugal para depois se instalar e dar aulas nos Estados Unidos.

As suas incursões pela Europa, subjugada pelo nazismo, serviram de inspiração para a personagem Victor Lazlo do enormíssimo filme Casablanca! (Quem nunca quis ser Victor Lazlo?)

Terminada a II Guerra Mundial a intervenção de Richard perdeu parte do seu destaque, entrando em campo outras figuras que vão concretizar a união da Europa, até aos dias de hoje.

A vida deste homem teve uma diversidade invulgar desde o seu nascimento (nasceu no Japão) filho de pai austro-húngaro de ascendência grega e holandesa e mãe japonesa pertencente a uma família de magnatas do petróleo. Foi mais do que um europeísta, não teve medo de arriscar e de se expor, foi um cosmopolita para quem a união da Europa era uma questão de tempo, um homem que não precisou de ir ao dicionário consultar qual o conceito de coragem, liberdade ou democracia.

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