A regionalização que não chega

 

Entre Duas Cidades, por Miguel Montez Leal

Cumprem-se este ano os quarenta anos da extinção das províncias tradicionais de Portugal. No caso do Ribatejo esta região apenas foi criada formal e administrativamente em 1936, tendo saído da antiga Estremadura. Em 1976, com a nova constituição, seria extinta.

Os ribatejanos continuam a considerar-se ribatejanos, pois vivem na bacia hidrográfica deste grande rio ibérico e o costume não fez apagar uma memória afinal não assim tão antiga. Em tempos remotos falava-se de Riba Côa ou Riba Douro, como zonas além do Douro. O Ribatejo foi durante muito tempo uma região natural, mas a sua área foi sendo alterada ao longo dos séculos. Hoje em dia o Cartaxo faz parte da Lezíria do Tejo (sub-região NUTS III) e da NUTS II (Alentejo), sediada em Évora, para captação de fundos comunitários. Encravado entre Lisboa e Leiria, com uma posição estratégica no território nacional, o actual Ribatejo não está a saber tirar mais-valias da sua posição estratégica. Atraído pela força centrípeta de Lisboa, é até ao corredor que vai até ao Entroncamento uma região a ficar cada vez mais suburbana e dormitório. A região tem vindo a definhar e todo a população do Ribatejo não chega ao meio milhão de habitantes (465 mil habitantes), não muito longe do número de habitantes de Lisboa, que actualmente são cerca de 548 mil. Torres Novas, Tomar e Abrantes são as cidades mais pujantes do distrito. Santarém, a capital de distrito, acentua o seu adormecimento. À volta do anel do centro histórico, que tem vindo a definhar na última década, cresceu uma cidade mal desenhada, muitos pólos urbanos e suburbanos, pontuados por rotundas, vias rápidas e hipermercados. No planalto, zona histórica, vive cada vez menos população, enquanto os novos bairros vão albergando novas gerações.

O problema das cidades antigas e dos seus centros históricos desertificados não é um exclusivo do nosso distrito. O País está num longo processo de mudança. O Ribatejo não soube ainda tirar partido do seu passado histórico e do seu património cultural para atrair turismo. Quase tudo está ainda por fazer e o amadorismo é rei! Em Santarém as igrejas, mesmo que recuperadas, encontram-se fechadas e com um horário que dificilmente consegue atrair o turismo. Quantos cidadãos brasileiros não se deslocam a Santarém para ver o túmulo de Pedro Álvares Cabral e quantos não se deparam com uma Igreja da Graça de portas fechadas? A bela cidade das Portas do Sol tem muitas vezes as suas portas fechadas. Urge pensar na regionalização, urge reflectir em toda a planificação turística para o distrito, mas aproveitando algumas das boas ideias do passado, não fazendo de tudo tábua rasa, pois o País e as suas estruturas não conseguem resistir a tanto ciclo político, de construção, e desconstrução.


 

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